Ouvir Enola Gay, ao vivo e a cores no regresso dos OMD a Lisboa

A banda de synthpop britânica está de regresso para um concerto único em Lisboa, onde irá recordar clássicos mas também a nova vida de uma carreira já com quase 40 anos

Não é caso único, é aliás cada vez mais recorrente, o regresso de bandas outrora fundamentais, influentes ou simplesmente famosas, num exercício que facilmente resvala para um mero exercício de nostalgia musical. Foi mais ou menos essa a razão que, em 2006, levou à reunião dos Orchestral Manoeuvres in the Dark (OMD), a convite de um canal televisivo alemão. Esse simples facto levou a que, pouco tempo depois, a banda regressasse à estrada, com a formação original, para tocar o seminal álbum Architecture & Morality, de 1983. Seria o início de uma nova vida para os OMD, que não mais pararam de tocar. Desde então já editaram três álbuns, o último dos quais, The Punishment of Luxury, lançado no verão do ano passado. É este trabalho que os traz de volta a Portugal, onde já não atuavam desde 2016, com um muito elogiado concerto no Festival de Vilar de Mouros.

"Estamos numa posição muito interessante enquanto banda, porque temos uma carreira com cerca de 40 anos. Isso permite-nos fazer um espetáculo muito interessante, misturando os clássicos que todos conhecem e querem ouvir com alguns temas novos, também muito interessantes", afirma ao DN o multi-instrumentista e cantor Andy McCluskey, um dos membros fundadores e o único a manter-se desde sempre na banda. Percebe-se, portanto, que no alinhamento do concerto em Lisboa não vão faltar clássicos como Enola Gay, If You Leave, Souvenir ou Joan of Arc. "Haverá umas cinco canções do novo álbum e o resto é tudo aquilo que as pessoas querem ouvir há anos", revela o músico, pouco incomodado com a popularidade dos clássicos, em comparação com os temas mais recentes. "Temos muita sorte nesse aspeto, porque as canções foram boas para nós. Adoramos tocá-las, é uma honra. Não fazer seria egoísta e estúpido, porque subir a um palco com esse legado é como estar numa mesa de póquer com uma mão-cheia de ases", salienta com humor.

Estava-se na viragem da década de 70 para a de 80 quando Andy McCluskey e Paul Humphreys formaram os OMD. Deram-se a conhecer, com estrondo, em 1979, com o single de estreia Electricity, precursor do que nos anos seguintes viria a ficar conhecido como synthpop. Aos dois membros fundadores, juntar-se-ia entretanto o baterista Malcolm Holmes, que ajudou a construir o som de álbuns como Organization (1980) ou o já citado Architecture & Morality (1983). E, pelo meio, já tinha havido o fenómeno Enola Gay, uma canção antiguerra que haveria de os transformar em estrelas pop, num estatuto sempre recusado pela banda. No final da década de 80 e após uma viragem da banda em direção a uma sonoridade cada vez mais comercial, Paul Humphreys acabaria por abandonar os OMD para fundar os The Listening Pool.

Subir a um palco com esse legado é como estar numa mesa de póquer com uma mão-cheia de ases

Andy seguiu, no entanto, com o barco, mas a entrada na década de 90 trouxe-o para águas muito turbulentas, agitadas pelas guitarras do rock alternativo, então em plena explosão. "Foram várias as razões que na altura levaram ao nosso fim, mas era realmente muito difícil ser uma banda de synthpop nos anos 90. A dada altura pensámos simplesmente que era tempo de ir embora e dar o lugar a outros", lembra. Foi no final de 1996, meses depois de editarem o décimo álbum de originais, Universal. "Pensei mesmo que era o fim", desabafa Andy. Mas não foi. Aliás, uma década bastou para serem reabilitados por uma nova geração de músicos, como James Murphy, dos LCD Soundsystem, ou Angus Andrew, dos Liars, que apontam os OMD como uma das suas principais influências.

"Graças a isso passámos a ser uma banda cool outra vez e as pessoas começaram a reparar de novo em nós. Não só os velhos fãs como também muita gente nova, que queria conhecer a nossa música e ajudou muito a esgotar a nossa primeira digressão", sublinha Andy. Mas se voltar aos palcos foi relativamente fácil, o mesmo já não se pode dizer do regresso ao estúdio, afinal, já há quase 20 anos que Andy e Paul não trabalhavam juntos. "Foi uma questão muito interessante, que a dada altura se começou a colocar. Era uma decisão difícil, mas ao mesmo tempo muito tentadora", assume o músico, que, na altura, apenas queria ter a certeza de não o fazerem pelas razões erradas.

"Há bandas que o fazem para dar espetáculos, para vender T-shirts ou simplesmente para não serem esquecidas. Tudo isso é válido, mas nós tínhamos de ter a certeza de que continuávamos a querer fazer música juntos. Não queríamos ser apenas uma espécie de banda de tributo a nós próprios, ao nosso passado", confessa.

O primeiro disco desta nova vida dos OMD, History of Modern, chegou em 2010 e foi bastante elogiado pela crítica, tal como English Electric, lançado três anos mais tarde. "Temos de continuar a ter paixão pelo que fazemos, sem isso nada disto seria possível", conclui Andy McCluskey, que neste concerto em Lisboa contará apenas com a companhia, em palco, do velho companheiro Paul Humphreys. "Vou ser eu, ele e um computador, tal como nos velhos tempos, quando tudo isto começou."

Orchestral Manoeuvres In The Dark
Aula Magna, Lisboa.
16 de fevereiro, sexta-feira 21.00.
Bilhetes de 28 a 40 euros

Ler mais

Exclusivos

Premium

nuno camarneiro

O Mourinho dos Mourinhos

"Neste país todos querem ser Camões mas ninguém quer ser zarolho", a frase é do Raul Solnado e vem a propósito do despedimento de José Mourinho. Durante os anos de glória todos queriam ser o Mourinho de qualquer coisa, numa busca rápida encontro o "Mourinho da dança", o "Mourinho da política", o "Mourinho da ciência" e até o "Mourinho do curling". Os líderes queriam ter a sua assertividade, os homens a sexyness grisalha e muitas mulheres queriam ter o Mourinho mesmo.