Outro verão com os Fleetwood Mac: Lindsey e McVie

Os dois protagonistas

A premonição de Mike Fleetwood deu certo e Christine McVie e Lindsey Buckingham avançaram mesmo para um álbum. À Fleetwood Mac.

Eis a prova da infinita sabedoria popularizada por Forrest Gump, aquela que garante que só se sabe da qualidade dos chocolates depois de aberta a caixa. E o que tem isso que ver com este álbum inspirador, assinado por uma dama inglesa de 73 anos e por um cavalheiro norte--americano (ou californiano, se quisermos ser mais rigorosos) de 67, condenado a deixar marcas no verão melómano que já nos anima ou agita? A história acaba por assumir um carácter exemplar e começa em mais uma reunião do elenco que gravou Rumours - há 40 anos, por mais que isso nos custe - e que, de então para cá, criou e manteve um vendaval de entradas e saídas do grupo, sem que o tom intempestivo e "definitivo" conseguisse evitar retornos e recomeços, ou perto disso.

Neste capítulo mais recente, o ponto de partida é dado em janeiro de 2014, quando Mick Fleetwood (o baterista gigantesco a que o primeiro líder da banda, Peter Green, foi buscar metade do nome) anunciou que Christine McVie estava de volta a título permanente. Reconstituía--se o elenco dos anos (e dos discos...) de ouro: Fleetwood, John McVie (o baixista "responsável" pelo "Mac" dos Fleetwood), Christine, Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, chegados como dupla ao conjunto, em 1974. Tudo parecia correr às mil maravilhas, sobretudo com a digressão de 33 datas (muitas delas em estádios) que se seguiu, apesar de Stevie e Christine terem anunciado em 1991 que não voltariam a partilhar essas desgastantes etapas profissionais da banda.

Em verdade, fizeram mais tournées depois dessa declaração de intenções do que antes dela... Terminada a tournée, chegou o momento de decidir o passo seguinte e, segundo as notícias da época e as entrevistas de agora, houve um acordo tácito de que se avançasse para a gravação de novas canções, tendo em vista a edição de um disco, que seria o 18.º de estúdio e que daria continuidade a Say You Will (2003). Tradicionalmente, do naipe de cinco nomes, só três costumavam chegar-se à frente e compor, mais a solo mas também em parcerias: Buckingham, Christine McVie e Nicks. A todos eles se devem êxitos espalhados pelo percurso milionário dos Fleetwood Mac que, em conjunto, englobando os cinco músicos (com Mick e John), só escreveram uma canção: a notável The Chain, uma das melhores heranças do som contagiante de Rumours. Da troika, houve uma parte que não cumpriu: Stevie Nicks. A "cigana" mostrou-se reticente face à hipótese de um novo disco do grupo, acabando por dar conta da sua indisponibilidade para passar um ano fechada num estúdio de gravação, em discussão aberta com um mesmo grupo de pessoas. Isto para depois concluir que não teria disponibilidade psicológica para, lançado o álbum, partir em digressão com as mesmas pessoas com quem já tinha "guerreado" durante um ano...

Herança intacta

O "golpe de misericórdia" de Stevie foi dado quando, à laia de explicação final, ela reiterou a sua decisão de não alinhar no projeto "porque o número de discos que hoje se vendem não justificam o sacrifício".

Em Agosto do ano passado, Mick Fleetwood dava conta de um "monte de canções gravadas", mas alertava: nada de Stevie Nicks, ao contrário de Christine e de Lindsey: "Eles os dois poderiam provavelmente partir para um fortíssimo disco em parceria, se quisessem seguir essa via. Por mim, espero que ainda cheguemos a algo mais... Há dúzias de canções e são realmente boas. Logo se vê...". Agora, está visto: a premonição de Fleetwood deu certo e McVie (Christine) e Buckingham avançaram mesmo para um álbum em que o baterista e o baixista (John McVie) passaram a ser apenas "convidados", juntando-se-lhes o teclista Mitchell Froom (produtor de meio mundo, ex-marido de Suzanne Vega) para compor o ramalhete. Mais uma vez, o mais lógico e mais óbvio acabou por nada valer, estando em causa os Fleetwood Mac.

Sobretudo se nos lembrarmos dos seus passados sentimentais: Buckingham foi casado com Stevie Nicks, Christine (que começou por usar artisticamente o nome de solteira, Perfect) tornou-se McVie depois de casar com John. Ambas as relações terminaram há muito - quando gravaram Rumours, estavam todos em momentos de rutura e até Mick Fleetwood enfrentava um processo de divórcio - e nada indica que a ligação de Christine e Lindsey ultrapasse o campo criativo e o propósito profissional.

Diante do disco, dez canções (uma "avareza", se fizermos fé no anúncio das dúzias que foram gravadas...) de trepidante frescura, percebe-se de vez como as características dos dois compositores e cantores se complementam: McVie torna-se dona dos textos mais fortes e tocantes (Game Of Pretend, Red Sun, Carnival Begin) e teima em alternar momentos mais intimistas com verdadeiros esplendores percussivos (caso óbvio de um irresistível Too Far Gone); Buckingham, porventura um guitarrista muitas vezes subvalorizado, faz questão de manter um requinte, eficaz e não exibicionista, nos arranjos, mantendo-se fiel à direção que o atirou para a primeira linha, a de um pop californiano que evita leviandades mas foge a sete pés de pretensiosíssimos (In My World, Lay Down For Free ou Love Is Here To Stay são notáveis exemplos).

Guitarras à solta, ninguém pode surpreender-se que um dos pontos fortes do duo esteja nas harmonias vocais - é um "romance" com mais de quatro décadas... Para os mais nostálgicos, os que aqui vierem à procura de mais e novo Fleetwood Mac, aconselha-se atenção aos múltiplos sinais espalhados por um disco inegavelmente estival. Ainda assim, se não chegar, há duas canções que lhes são "dirigidas": Feel About You e On With The Show. Pode acontecer que se procure, em qualquer dos casos, a presença da voz de Stevie Nicks. Que não está lá. E, como costuma dizer-se noutras questões, só fazem falta os que lá estão.

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