Os Óscares em que se vai falar de assédio sexual

Esta é a cerimónia em que se vai perceber se o peso temático de "Três Cartazes à beira da Estrada" se sobrepõe à fantasia de "A Forma da Água". Tudo a postos para os Óscares.

Ainda temos na memória a cerimónia do ano passado. Estava tudo a correr bem, naquela que foi uma das mais calorosas noites dos Óscares - entre o tom memorialista e um requintado ativismo político contra Trump -, para no final a elegância descambar com a troca de envelopes que começou por dar a La La Land a vitória que seria de Moonlight... Diga-se, no entanto, que a trapalhada não intimidou a dupla que anunciou esta estatueta de melhor filme: Warren Beatty e Faye Dunaway, mais conhecidos por Bonnie and Clyde, vão voltar a fazê-lo neste domingo, com os nervos bem treinados pela última ocasião. Também Jimmy Kimmel regressa ao palco do Dolby Theatre, em Los Angeles, para apresentar a 90.ª cerimónia dos Óscares, com o humor adaptado à circunstância, mas sempre hábil no improviso. Depois de o atual presidente dos Estados Unidos ter unido pelo ódio os prémios de 2017, quem será o alvo da próxima noite? As setas estão todas apontadas a Harvey Weinstein.

Há uma forte tradição política que atravessa a história dos Óscares, e este ano não será exceção. Depois de a polémica do assédio sexual em Hollywood ter rebentado, em outubro, com o caso do produtor Harvey Weinstein (a que se seguiram outros nomes sonantes, como o do ator Kevin Spacey, literalmente apagado do último filme de Ridley Scott), o movimento Time"s Up tomou as rédeas do protesto contra esta realidade agora descortinada. E uma das mais expressivas formas desse protesto aconteceu na cerimónia dos Globos de Ouro, que cobriu de negro a sala da entrega dos prémios. Embora com menos afirmação, o gesto repetiu-se mais recentemente nos BAFTA, deixando no ar a pergunta: será que também os Óscares se vão vestir de preto?

É uma dúvida que só poderá tirar-se no momento. Tudo indica que a questão do dress code se diluiu, de alguma forma, na própria postura de cada mulher. Isto é, no discurso que se sobrepõe à cor do vestido. Basta lembrar o que disse a atriz Frances McDormand, figura robusta desta temporada de prémios, quando subiu ao palco para receber o BAFTA: "Tenho um pequeno problema com a conformidade. Mas quero que saibam que estou em plena solidariedade com as minhas irmãs de preto nesta noite." Não será de estranhar que outras mulheres surpreendam assim na passadeira vermelha deste domingo.

Para todos os efeitos, não devem faltar discursos aguerridos sobre o escândalo que agitou Hollywood nos últimos meses. Sobretudo, é provável que a atribuição dos prémios esteja ela mesma carregada de simbolismo. E aí surge a velha questão: ganham os filmes ou os seus temas?

Nessa ordem de ideias, Três Cartazes à Beira da Estrada, de Martin McDonagh, está lançado (mesmo sendo A Forma da Água, de Guillermo del Toro, que lidera as nomeações). Protagonizado por McDormand, trata-se de um filme que vai diretamente ao coração da atualidade, com a história de uma mãe que expõe, em três outdoors, a sua raiva contra a inação da polícia perante a violação e a morte da filha.

E a verdade é que essa atitude revolucionária já deixou marcas na vida real... Um pouco por toda a parte têm surgido imitações dos tais cartazes, com diferentes protestos, alguns deles em Hollywood. Por esta razão, é mais difícil ver a fantasia adulta de Del Toro triunfar sobre o mote realista de McDonagh. O que nos traz também à memória - independentemente da qualidade de cada filme - o próprio contraste entre a magia de La La Land e o retrato humano de Moonlight.

De resto, seguindo os hábitos das cerimónias anteriores, os vencedores do ano passado vão voltar ao palco para apresentar e congratular os vencedores deste ano. Reencontramos, por isso, Emma Stone, Viola Davis e Mahershala Ali nesse "papel" que lhes é atribuído pela Academia, mas não teremos Casey Affleck a cumprir a tradição. O ator galardoado por Manchester by the Sea fez saber em janeiro que não iria entregar o Óscar de Melhor Atriz, para não ser uma "distração" do movimento #Me Too. Recorde-se que o irmão de Ben Affleck foi acusado de assédio sexual em 2010, durante a rodagem do filme I"m still Here, e que a sombra dessa acusação ainda se fez sentir na entrega da sua estatueta, em que a atriz Brie Larson, depois de lhe passar para as mãos o prémio, deixou claro o desconforto: não aplaudiu nem sorriu. Nestes moldes, não será exagerado concluir que a ausência de James Franco nas nomeações para melhor ator - depois de ter ganho o Globo de Ouro, e logo de seguida ter sido alvo de críticas de conduta sexual imprópria - é uma forma de evitar o "desconforto".

Mas esta é uma noite de estrelas, e por isso sabe bem olhar para aquelas que vão desfilar na passadeira. Por exemplo, Jane Fonda, Helen Mirren, Nicole Kidman, Mark Hamill, Sandra Bullock, Lupita Nyong"o, Armie Hammer, Laura Dern ou Gal Gadot têm um brilho natural.

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João Gobern

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