Os nomeados para os Óscares na crítica de cinema do DN

Veja o que dizem os críticos de cinema do DN sobre alguns dos filmes nomeados aos Óscares de 2017 que já estrearam em Portugal

Os nomeados para a 85.ª edição dos Óscares foram anunciados e apesar de alguns dos mais importantes ainda não terem estrado - La La Land, por exemplo, só estreia esta quinta-feira - outros estão ou já passaram pelas salas nacionais. leia o que escreveram os críticos do DN na estreia.

Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan (estreou a 5 de janeiro)

A grande máquina de Hollywood vive assombrada pelos formatos rotineiros de super-heróis e afins (veja-se o novo Assassin"s Creed). O certo é que ainda há no cinema americano quem preserve as lições dos clássicos, em particular do seu sofisticado gosto pela encenação de personagens anónimas, mas de fascinante complexidade. Kenneth Lonergan é um desses herdeiros do classicismo, oferecendo-nos, na dupla qualidade de argumentista e realizador, um belo retrato de uma família em convulsão - depois da morte do irmão, um homem é compelido a reconverter a sua relação com o sobrinho... Neste olhar sobre uma América esquecida, o trabalho com os atores revela-se sempre fundamental: Casey Affleck e Michelle Williams são os destaques de um elenco brilhante e não será surpresa encontrá-los nas nomeações dos Óscares. João Lopes - Classificação: **** muito bom

É divertido ver muita gente assanhada com a suposta revelação deste cineasta, o argumentista e realizador Kenneth Lonergan, que em Podes Contar Comigo conseguiu apenas uma legião de culto e, no seguinte, Margaret, um nicho ainda mais minoritário. Eram filmes vivos e com uma intensidade moral fora das linhas. Mas agora tem "máquina" de marketing montada - correu-lhe bem Sundance e Manchester By The Sea está assegurado para os Óscares. É uma tragédia americana sobre um porteiro, Casey Affleck (nunca esteve tão bem), que regressa à cidade natal para cuidar do sobrinho mal o seu irmão morre. Um regresso traumático a uma terra onde o mar é melancólico.
O filme evoca a filiação sacramental de Gente Vulgar, precisamente o Robert Redford que triunfou nos Óscares. Ao som de Handel, somos puxados para um poço bergmaniano de onde podemos não sair. Belo. Rui Pedro Tendinha - Classificação: **** muito bom

Lion - A Longa Estrada Para Casa, Garth Davis (estreou a 8 de dezembro)

Com dois ou três nomes expressivos no elenco e uma história que se presta à emoção, qualquer filme tem meio caminho andado para o êxito. Não por acaso, Lion - A Longa Estrada para Casa, com ambos os atributos, tem sido indicado como um dos principais concorrentes aos Óscares. Mas até que ponto uma receita pode valer mais do que o sabor final? Lion não vai muito além da sua própria sinopse, a saber, uma criança indiana perdida da família e adotada por um casal australiano, que ao fim de 25 anos, com a ajuda das novas tecnologias, decide voltar a fazer o caminho para casa. Tirando o primeiro ato, que aflora a composição dickensiana da criança frágil mas corajosa, exposta aos perigos da rua, não há mais nada que nos transporte para aquela realidade dolorosa - que sabemos, desde o princípio, ser uma história verídica. O filme de Garth Davis (primeira longa-metragem) não sai desse selo ilustrativo, e por isso, quando o menino cresce e toma o rosto de Dev Patel, cúmplice da mãe adotiva (Nicole Kidman, no tom), percebe-se como estes atores estão, eles sim, perdidos num esboço sentimental. Inês Lourenço - Classificação: * medíocre

É um cliché. Como todos os clichés, a sua força está na repetição: com a atribuição dos Óscares à vista, e a temporada de prémios em andamento, emerge um filme que, em nome da emoção e da verdade, nos quer convencer que o cinema resulta apenas da acumulação de elementos mais ou menos dramáticos e perturbantes. Convenhamos: drama e perturbação não faltam a esta produção de origem australiana. Estamos perante a história (verídica) de um menino indiano que se perde da sua família, acabando por ser adoptado por uma família da Austrália - 25 anos mais tarde, tenta descobrir as suas origens... Infelizmente, a realização de Garth Davis limita-se a ilustrar de modo redundante as linhas de força que já estão completamente reveladas no trailer do filme. A interpretação central de Dev Patel não ajuda muito: depois da revelação em Slumdog Millionaire (2008), o seu trabalho tem evoluído para um voluntarismo sentimental que reduz qualquer personagem a uma presença sem profundidade psicológica. Na corrida aos Óscares, este é o filme das boas intenções. João Lopes - Classificação: * medíocre

O Herói de Hacksaw Ridge (estreou a 10 de novembro)

O Herói de Hacksaw Ridge é a quinta longa-metragem assinada por Mel Gibson, e surge dez anos depois de Apocalypto. Este novo herói não tem a dimensão de Jesus Cristo (o filme de 2004), mas é um seguidor da sua Palavra. Desmond Doss foi um americano que, durante a Segunda Guerra Mundial, se juntou ao exército para servir o país sem tocar numa arma. Depois da luta legal para conseguir chegar à frente de batalha na exclusiva condição de socorrista, salvou muitos dos seus colegas, numa genuína prova de força espiritual e física. A Gibson interessa essa fonte de energia humana - a fé -, capaz de mover montanhas, e é efetivamente isso que justifica que um corpo franzino como o de Doss (Andrew Garfield, bem posicionado para a nomeação ao Óscar) conseguisse aguentar o tremendo esforço da solitária operação de salvamento. Por vezes criticado pela violência que nos coloca diante dos olhos, o certo é que Gibson precisa de sangue frio para nos fazer entrar no inferno da guerra. Essas cenas hiperbólicas são os melhores momentos do filme, compensando a falta de pathos do preâmbulo biográfico. Inês N. Lourenço - Classificação: ** com interesse

Alguém já falou em "war porn" para descrever este filme de guerra de Mel Gibson. Se é verdade que o realizador (mais uma vez não se filma) procurou libertar a violência com um empenhamento direto de discurso e posição, ficam muitas dúvidas relativas a um gosto glutão pelo sangue e o mais básico sadismo. Tortura de dor? A mesma que já engalfinhava o anterior Apocalypto.
O filme é a história verdadeira de um soldado americano da 2ª Guerra objetor de consciência que se alista como socorrista. Em Okinawa torna-se herói por nunca pegar numa arma mas conseguir salvar dezenas de companheiros. É como se Gibson quisesse fazer da sequência inicial de O Resgate do Soldado Ryan o predicado para todo este seu filme, supostamente "pacifista", mas sempre chocantemente moralista e com o peso de um fanatismo religioso que engana tolos.
O Herói de Hacksaw Bridge tem aquele maniqueísmo eficiente que vai precisamente enganar o público desinformado, capaz de achar nobre a "true story", prontamente justificada com as imagens reais dos veteranos de guerra. Este sim é o pior filme de Gibson, muito longe da glória e do fôlego de Braveheart. Rui Pedro Tendinha - Classificação: ** com interesse

Enquanto cineasta, Mel Gibson não é exactamente alguém de quem possamos esperar uma apoteose de subtileza. Que o seu muito esforçado e bem intencionado Braveheart (1995) tenha ganho o Óscar de melhor filme no ano em que Casino, de Martin Scorsese, era um dos potenciais candidatos, eis uma ironia amarga com que a cinefilia convive com inevitável desencanto... Desta vez, ele tem mesmo a seu favor o fascínio de uma espantosa personagem: Desmond Doss, objector de consciência do exército americano que, na Segunda Guerra Mundial, nos combates em Okinawa, enquanto elemento das equipas médicas, deu mostras de excepcional dedicação e coragem. Infelizmente, para Gibson, Doss não passa de uma espécie de marioneta angelical que se "destaca" de uma representação obscena da violência das explosões e da decomposição dos corpos (nada a ver com o sentido dramatúrgico de O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg). Além do mais, as cenas de infância, de tão demonstrativas e "psicológicas", não superam um involuntário ridículo. João Lopes - Classificação: * medíocre

High or High Water- Custe o que Custar, David Mackenzie (estreou a 8 de dezembro)

Estamos todos fartos dessa coisa chamada "western contemporâneo". Estamos, mas depois chega um filme sobre vaqueiros em espiral de assaltos a bancos num Texas pré-Trump, vazio, desolado e esquecido e ficamos de cara à banda. David Mackenzie, que em Portugal chegou a ser revelado há muitos anos no Curtas Vila do Conde, não faz o "filme de cowboys" por fazer. O olhar "western" é amplo, orgânico. Filma-se a neura dos "cowboys", o horizonte da estrada e as regras da perseguição. Não falta o xerife com humor seco e o seu coadjuvante, um agente de origem índia, perfeito para apimentar as coisas. Apesar de um suspense de cortar à faca, estamos também no território do cinema de denúncia social. Nesse sentido, é um filme dos nossos tempos, do fim desta América que falhou, aquela que elegeu Donald Trump e onde as empregadas dos diners são antipáticas ou galdérias e onde todos vão aos bancos armados...
Este é também o filme que fará muita gente torcer para que Jeff Bridges seja novamente nomeado ao Óscar...O seu xerife é a personagem com o fôlego humano mais forte que se viu deste ano. Rui Pedro Tendinha - Classificação: **** muito bom

Ciclicamente, o cinema americano tenta satisfazer a nossa nostalgia do velho "western", por exemplo contando a história de dois assaltantes de bancos que até não são antipáticos e um xerife, cansado e desencantado, que vai filosofando com o seu ajudante de origem índia... Assim acontece nesta realização de David Mackenzie (curiosamente, um inglês), com a particularidade de o gosto revivalista implicar, desta vez, uma "transferência" da acção para o tempo presente. Nada de novo também (lembremos a referência fundamental de Sam Peckinpah nos anos 60/70), mas executado com evidente cuidado na definição de ambientes e personagens, muito para além de qualquer atitude copista ou banalmente decorativa. Os actores, especialmente Jeff Bridges e Gil Birmingham (xerife e ajudante), são decisivos na coerência dos resultados, sendo também fundamental sublinhar a contribuição da banda sonora assinada por Nick Cave e Warren Ellis, criando texturas musicais capazes de relançar memórias difusas das sagas do velho Oeste. João Lopes - Classificação: *** bom

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