Os maiores desafios da Europa

Do norte ao sul, e passando pela Austrália, vários elementos da comitiva eurovisiva refletem sobre a Europa onde vivem e onde gostariam de viver.

Com a final da Eurovisão a aproximar-se, já nesta noite, o DN foi perceber junto de oito pessoas ligadas ao festival quais os desafios que a Europa que se junta nas canções enfrenta hoje em dia. União e tolerância são dois dos desafios mais referidos. Isto num ano em que há canções sobre refugiados e ataques terroristas.

A perspetiva de quem vem do norte da Europa é a de que é necessária mais abertura e menos fronteiras. Numa coisa todos concordam: o caminho é feito em unidade e não voltado para fechar fronteiras. Uma mensagem ainda mais especial quando é deixada por um espanhol de Barcelona e uma inglesa. Os dois enfrentam nos seus países processos de separação - o Reino Unido com o brexit e Espanha com a declaração de independência da Catalunha e a crise desencadeada por essa ação.

Tanto Elaine O"Neill como Diego Guille acreditam que esse não é o caminho da Europa. "A Europa permite a todos os países viver numa comunidade, numa unidade em que não há fronteiras, onde todos nos preocupamos com os outros para que todos possamos crescer e melhorar juntos", sublinha o catalão ao DN.

Já a jornalista inglesa acredita que os seus compatriotas vão perceber que sair da União Europeia "é um erro". "Quando as pessoas começarem a percorrer esse caminho [do brexit] é que vão perceber o que realmente estão a fazer e que vão perder imenso", alerta.

Das opiniões que acabaram por chegar de fora da Europa, a Austrália fala da necessidade de a Europa "celebrar as suas diferenças". E do risco que corre com alguns "políticos paroquianos" que querem fechar fronteiras e olhar só para dentro dos seus países.

Integrante da banda búlgara Equinox, o cantor Johnny Manuel fala da sua perspetiva como americano. E cá, tal como nos EUA, o grande desafio para o cantor são as fronteiras. "A união devia ser o principal foco", sublinha. Olhando para os desafios, os vários elementos da Eurovisão sublinham o papel de um evento como este para fortalecer os laços entre os 43 países participantes. "A Eurovisão é um grande encontro que apela muito à tolerância, à tolerância cultural, à aceitação das diferenças em todas as áreas", refere a portuguesa Cristina Valente.

A família Europa unida nas diferenças

Elaine O"Neill
Reino Unido
Jornalista

"Para mim a Europa é família. É feita de tantas pessoas diferentes e culturas tão diferentes e ainda assim todos partilhamos este espaço, temos tantas coisas em comum. O desafio que enfrentamos é que cada vez mais pessoas acreditam que a sua forma de ver a vida é a única, que os seus países são os únicos. A única via válida. E estão focados nas fronteiras entre nós e adoro a Eurovisão porque podemos todos partilhar e mesmo nas nossas diferenças podemos estar juntos, como uma família se reúne à volta da mesa para partilhar uma refeição. E acho que temos de nos lembrar que juntos somos mais fortes e que juntos tudo é feliz." Como britânica, Elaine fala ainda da "tristeza" do brexit, como outro dos desafios que os ingleses enfrentam em relação à Europa. "Acho que talvez as pessoas percebam quando começarem a percorrer esse caminho o que realmente estão a fazer e que vão perder imenso. Penso que ainda não perceberam isso porque acham que vai ser uma coisa fabulosa quando na verdade estamos a fechar-nos numa sala e a fechar a porta.

Aceitar as diferenças e manter tradições

Equinox
Bulgária
Cantores

Os vocalistas e o manager do grupo Equinox, que representa a Bulgária na final da Eurovisão, falam em união e manter a identidade como os desafios do continente europeu. O maior desafio para a Europa é "manter-se unida e não deixar nada afastar-nos", refere o manager. "Nós somos todos iguais e devemos manter--nos sempre juntos, porque isso é importante para a humanidade e se queremos ser boas pessoas temos de esquecer o ego e ficarmos juntos", diz a vocalista Zhana Bergendorff. Vlado Mihailov, outro dos membros da banda, diz que se deve "aceitar as diferenças e estar disponível para os outros de fronteiras abertas", sabendo sempre "manter a tua própria identidade, as tuas tradições". Johnny Manuel, um dos vocalistas do grupo que é de nacionalidade americana, refere que enfrenta no seu país os mesmos desafios que a Europa e que, em ambos os casos, "mais amor devia ser espalhado entre as pessoas". Já Georgi Simeonov diz que neste momento a Europa "é música" por causa da Eurovisão.

Imigração e liberdade de entrada

Burnel Muba
Bélgica
Coordenador do voluntariado

"O desafio que a Europa enfrenta hoje é a imigração", aponta Burnel Muba. "Porque muita gente quer vir para a Europa e temos alguns países que os rejeitam, mas ao mesmo tempo faz parte do projeto da União Europeia aceitar todas as pessoas que procuram asilo. Eu sou contra esses países que não deixam as pessoas entrar porque essa não é a Europa que nós queremos. Queremos uma Europa que é livre e que aceita toda a gente de toda a parte." Burnel Muba gere os voluntários de grandes eventos como a Eurovisão - desde 2008 - ou os mundiais de futebol. "O meu trabalho diário é como coordenador de voluntários para a FIFA" e de Lisboa vai diretamente para a Rússia, onde vai decorrer o próximo campeonato do mundo de futebol. A sua carreira começou também como voluntário, em 2009, na CAN da África do Sul, e foi aí que começou a sua ligação à FIFA. Burnel Muba coordena uma das áreas mais importantes nestes eventos: os voluntários, o primeiro ponto de contacto com o público, são conhecidos por serem "a cara do evento".

Apelo à tolerância pela música

Cristina Valente
Portugal
Voluntária

É psicóloga e coach de adolescentes, mas Cristina Valente decidiu participar deste evento único em Portugal, através do voluntariado. Ao descrever os desafios da Europa, Cristina Valente elege "a tolerância". "A Eurovisão é um grande encontro que apela muito à tolerância, à tolerância cultural, à aceitação das diferenças em todas as áreas e acho que na verdade até como psicóloga parental acho que a tolerância é um dos valores que temos de incutir nos mais novos e como? Nada melhor do que fazer passar a emoção de que a música é uma ferramenta fundamental para fazermos passar a mensagem. Acho que o desafio da Europa é a tolerância. A Europa é uma manta de retalhos e acho que tolerância é a palavra-chave. Ao mesmo tempo que a Europa se tornou uma grande nação, ao mesmo tempo exige das pessoas, dos povos e, dentro dos próprios países, as várias regiões, que encontrem dentro da sua diversidade uma linguagem comum. Se nós formos pelos valores-base do ser humano, estaremos sempre a entender o que o outro quer dizer."

Duas economias que devem trabalhar juntas

Arvid Ekblad
Suécia
Informático

Arvid Ekbland está a trabalhar no Festival Eurovisão da Canção em Lisboa como informático. É a ele que chegam as queixas de falhas na internet e que resolve os problemas com as impressoras espalhadas pelo press center. Esta é a sua quarta Eurovisão, neste cargo. Já passou por Kiev, no ano passado, Estocolmo, em 2016, Malmö, em 2013. Os dois últimos na sua terra natal.

O informático define "a diversidade" como o principal desafio que a Europa enfrenta nos dias de hoje. "Tanto em termos de diferentes culturas que tentam juntar-se e também em termos económicos, porque temos uma parte rica e uma parte pobre que enfrenta desafios para encontrar uma maneira de trabalhar em conjunto, estarem juntos e agirem como um só no resto do mundo", explica. Sobre o seu trabalho na Eurovisão admite que é "divertido, podemos conhecer pessoas de vários países". Aproveita ainda para dizer que está a gostar de trabalhar em Lisboa.

Unidade para crescer em conjunto

Diego Guille
Espanha

Diego Guille vem de Barcelona para assistir à segunda semifinal da Eurovisão. Define a Europa como "unidade" e é também aí que encontra os desafios da Europa. Consigo vem um grupo de amigos com as suas perucas cor-de-rosa para apoiar o seu país, mas também Portugal, como "uma unidade ibérica". Ao falar de unidade, Diego explica que "a Europa permite a todos os países viver numa comunidade, numa unidade em que não há fronteiras, onde todos nos preocupamos com os outros para que todos possamos crescer e melhorar juntos, pelos que estão nas nossas fronteiras e pelos que estão fora". A este desafio de manter a abertura, sem fronteiras, especialmente numa altura em que a Catalunha declarou a independência, Diego Guille junta ainda os refugiados e os imigrantes são outro dos desafios europeus: "As pessoas que tentam vir de outros países, de outros continentes e que não encontram um sítio onde possam estar felizes e bem."

Celebrar as diferenças em união

Blair Martin
Austrália
Radialista

Para o radialista da estação 4ZZZ os desafios que a Europa enfrenta são "manter-se aberta, livre, progressista e autêntica". "Da perspetiva australiana o que vemos na Europa é uma Europa unida onde muitas culturas diferentes se juntam para celebrar tudo o que têm em comum, sem amplificar as diferenças, mas celebrá--las, vocês têm diferentes línguas, culturas. Em Kiev comi imensos bolos típicos, aqui estou a comer imensos pastéis de nata e vou comer ainda muitos mais antes de ir para casa. Mas o que penso que está a acontecer com a Europa é que há políticos que querem permanecer separados, que querem ser paroquiais, querem ser nacionalistas. Não há nada de errado em ter orgulho na sua herança nacional, vemos isso na Eurovisão. Mas todos estão aqui para celebrar música e para celebrar a alegria da música. Se aceitarmos que a nossa sociedade é diversa e feita de muitas partes, se aceitarmos que outras pessoas podem viver a sua vida livremente, então estamos no bom caminho para nos aceitarmos a nós próprios e aos outros."

Diversidade cultural como força e fraqueza

Alessandro Ragni
Itália
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O desafio da Europa é a diversidade cultural, para o manager dos cantores italianos na Eurovisão. "É difícil para a Europa ser uma só." Essa é a sua força e a sua fraqueza, acredita o italiano que aprendeu a falar português no Brasil. "Vivi lá há muitos anos e es-queci já quase tudo", confessa. Apesar do português enferrujado, Alessandro Ragni consegue explicar o que é para ele a sua Europa. E é nesse encontro de culturas que o Velho Continente tem de encontrar as suas forças e ultrapassar os obstáculos que essas diferenças causam, defende o manager. Algo que a Eurovisão ajuda a atenuar, já que é aqui e com música que 43 países têm oportunidade de celebrar as suas diferenças, acredita o responsável "por cuidar dos artistas" italianos que este ano vêm a Lisboa ao Festival Eurovisão da Canção.

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