Os belos 83 anos de Shirley MacLaine

IN MEMORIAM Mark Pellington

Na última cerimónia dos Óscares, Charlize Theron homenageou Shirley MacLaine falando da sua personagem em O Apartamento (1960), de Billy Wilder. Um papel marcado pela doçura do seu olhar, tal como em Deus Sabe Quanto Amei (1958), ao lado de Frank Sinatra. Neste In Memoriam, contudo, a MacLaine que encontramos é mais próxima da mulher difícil de Laços de Ternura (1983), o filme que lhe valeu o único Óscar

E se ela é verdadeiramente a razão de ser da narrativa caricata, sobre uma mulher obsessiva que quer supervisionar a escrita prévia do seu obituário, não há muito mais que jogue em favor... Aqui tudo é fabricado para o humor e a lágrima confortáveis. Amanda Syefried, a rapariga que escreve obituários, é uma boa companheira de ecrã, mas nada tem mais vitalidade do que o rosto de 83 anos de MacLaine, a trazer nostalgia ao som dos The Kinks.

Classificação: **

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

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Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.