Ordem para abater, segundo o artista mexicano Hector Zamora

"Ordem e Progresso" é o título da ação que o artista mexicano apresenta hoje, às 18.00, no MAAT. Trinta trabalhadores vão destruir sete embarcações. Ele explica porquê

Trinta trabalhadores, "de preferência negros", munidos de marretas, martelos e pés de cabra vão destruir hoje sete embarcações dadas para abate em portos portugueses na Sala Oval do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, segundo as instruções do artista mexicano Héctor Zamora.

A ação, como lhe chama, está marcada para as 18.00, começa quando os trabalhadores entram e começam a trabalhar. "Num determinado momento em que eles vão sair de cena e os barcos ficam como ficarem", explica o artista. Alguns, os menores, imagino que fiquem totalmente no chão, os maiores estarão num processo avançado", diz, apontando para os maiores, entre eles o sugestivo Abutre, encontrado em Sesimbra, à espera de ser abatido para que a sua licença dê lugar a um novo barco. Este e outra embarcação, Rumo a São Braz, obrigaram a fechar a avenida Brasília na madrugada de quarta-feira, para que entrassem no MAAT. Os destroços ficam até 24 de abril com o som da destruição como banda sonora.

Os trabalhadores são contratados a uma empresa de trabalho temporário e hão de seguir as instruções do artista. "Serão quase de certeza emigrantes e são contratados para fazer este trabalho". Sabem o que vão fazer? "Imagino que quando os contratam lhes digam", afirma Héctor Zamora. "Eles vêm divertir-se. A adrenalina é um factor bem importante".

Causa estranheza que use trabalhadores para criticar a invisibilidade desses trabalhadores. "Eu acho essa estranheza perfeita, é o que quero provocar, colocar essa situação como espetáculo é um exemplo claro do que acontece no dia a dia. Vemos nas imagens das pessoas que morrem no Mediterrâneo como um espetáculo na internet ou nos jornais. Mas ao mesmo tempo, mesmo que o trabalhador vá estar a fazer um trabalho, porque vai estar a ser remunerado, é diferente, não é a maneira como estã habituado", responde o mexicano, a viver em Lisboa há um ano, depois de uma temporada em São Paulo.

Tudo é feito com as mãos e há também instruções do artista sobre o que vão fazer. "E de segurança", acrescenta. "O corpo é o que destrói, porque estes barcos foram feitos à mão", defende, durante a montagem da exposição, com o som de martelos, maçaricos e um reboque, em fundo.

"O público não vai ter possibilidade entrar, fica em volta da sala e finalmente vai ser um espetáculo. Este trabalho levou-me às naumaquias [da Roma Antiga], anfiteatros alagados com água em que se faziam guerras de barcos, mas não era um teatro porque as pessoas realmente morriam", diz, explicando que esta reflexão surge da própria sala oval do MAAT, e de como o público da arte contemporânea vem ser espectador. Isso, e, acrescenta, considerar muito "forte", destruir um barco em Portugal, um país com "uma cultura muito ligada ao mar".

É a terceira vez que Héctor Zamora leva a cabo esta ação. Não lhes chama performance, pois nunca participa nelas. A primeira vez foi em Lima, no Peru, em 2012. "Usamos um barco maior do que o Abutre e foram seis trabalhadores durante 12 dias a destruir o barco até que ficou no chão", conta. "Tudo começa com um protesto, porque naquele momento o governo peruano tinha decidido vender os direitos de pesca nos mares aos americanos e japoneses. Todas as pessoas que se dedicam à pesca artesanal perderam a fonte de trabalho", continua. O mesmo que se passou em Portugal com a União Europeia.

Há um ano, com os refugiados a chegaram à Europa de barco, repetiu Ordem e Progresso no Palais de Tokio, em Paris, a 2 de maio. Foi a primeira vez que usou mais do que um barco e apesar do ponto de partida terem sido migrações, o ponto de chegada foi, de novo, o fim da pesca artesanal por força das imposições da pesca industrial. Pedro Gadanho, que já conhecia Héctor Zamora, interessou-se pela obra e convidou o artista, a viver em Lisboa há um ano, depois de uma passagem por São Paulo, para a concretizar na sala oval do MAAT.

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