Onze atrizes trabalham no campo e nas lojas de Vinhais para preparar filme

Ana Bustorff trabalha numa fábrica de enchidos

O filme de João Canijo sobre a peregrinação a Fátima chama-se "Amen". Rodagem começa em março.

A mais longa e dura peregrinação a Fátima parte de Vinhais, no extremo Nordeste de Portugal, e vai ser perpetuada num filme de João Canijo com um elenco de onze atrizes que deram nova alma ao pequeno concelho transmontano.

Há um mês que o grupo de caras conhecidas do grande público - entre as quais Rita Blanco, Ana Bustorff, Márcia Breia, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Sara Norte e Teresa Tavares - vive na aldeia de Rio de Fornos, inspirando-se em protagonistas da vida real com tarefas banais do quotidiano como a lavoura, estar atrás do balcão e trabalhar no centro de saúde, numa escola, numa fábrica de enchidos ou no posto de turismo.

A hospitalidade transmontana transformou em familiaridade a presença de tantas artistas numa terra pequena, onde no início de março começam as filmagens de dez semanas com a perspetiva da estreia para 2017, o ano - por coincidência - do centenário das aparições de Fátima, como realçou à Lusa o realizador, que está em Vinhais a ultimar o guião.

João Canijo quis chamar-lhe "Fátima", mas já existia um filme com o mesmo nome. " Amem " é o título que prevalece, até agora, embora o nome oficialmente registado seja "Caminhos da Alma".

O realizador João Canijo

O trabalho para este filme dura há quase três e praticamente todas as atrizes já fizeram peregrinações de pontos diferentes do país. Canijo escolheu Vinhais por ser "a mais longa" peregrinação a Fátima e "a mais dura". No elenco só mulheres, porque "são elas que habitualmente a fazem e porque têm mais capacidade de entrega e de dedicação do que os homens".

Para o realizador, "não há outra maneira" de preparar o filme sem ser no local. "Como é que elas podem fazer personagens que são transmontanos sem passar algum tempo em Trás-os-Montes? É impossível", apontou.

O realizador promete "uma peregrinação o mais realista possível de um grupo de peregrinas que fazem 430 quilómetros a pé em nove dias" e um filme que pretende "transmitir a enormidade do esforço que se faz pela fé, o esforço quase sobre-humano e diário, durante esses nove dias, que estas pessoas fazem e o enorme sofrimento por que passam em nome da fé".

"Todas elas têm motivos completamente diferentes: há quem vá pagar a promessa de alguém, há quem vá com várias promessas ou com pedidos e há quem o faça por pura e simples devoção por sentir que é um momento de encontro", explicou.

Atrás do balcão de um café de Rio de Fornos, a população já não estranha ser atendida Rita Blanco, que confidencia que o trabalho "é um bocadinho de tanga" porque o que realmente lhe interessa "é ouvir as pessoas".

Rita Blanco a trabalhar no café

Maria José Vilaça, a Zeca, é a dona do café, a que Rita Blanco se "agarrou" para construir o personagem. "Eu não vou fazer a Zeca, será sempre o meu olhar sobre a Zeca misturado com aquilo que eu penso da vida", ressalvou.

A peregrinação a Fátima era um sonho de criança que Maria José já realizou quatro vezes, apenas para "agradecer a Nossa senhora".

"É melhor do que ir ao psiquiatra, conhecemos pessoas tão diferentes, eu não faço uma bolha, vêm-se de lá tão leve", partilhou.

Márcia Breia

Todas as atrizes "são muito humanas, simples todas elas", assegurou à Lusa, indicando que "foi muito rápido que elas se adaptaram ao modo de vida" local. A paisagem do Parque Natural de Montesinho serve também de motivação e até os rigores do frio transmontano "tornam o inverno mais bonito aqui", na opinião da atriz Ana Bustorff que já viu cair uns flocos de neve.

Vestida a rigor, Ana corta as carnes, faz a massa e enche alheiras numa das fábricas do conhecido fumeiro de Vinhais e descreve este estágio e terras transmontanas como uma experiência "absolutamente fabulosa e fantástica"."

"Eu estou a fazer o meu dia-a-dia numa aldeia e isso muda tudo: muda a cabeça, muda a forma como nos expressamos e fazemos das coisas. Não me está a custar nada, não sinto falta de nada que possa ter em Lisboa, muito pelo contrário", afirmou.

Na fábrica, as "colegas" não imaginavam que iam dar concelhos a "uma pessoa tão simpática e simples", como sublinharam Lídia Gomes e Sandra Fernandes e com Odete Aboim a atestar que "é trabalhadora e muito prestável". "Já parece da terra", atirou Marisa Rodrigues, outra trabalhadora.

Uma "mulher de bico" é o personagem para o qual se prepara Márcia Breia que, no filme, será quem manda na organização da peregrinação. Faz frequentemente "sete horas de camioneta" de Lisboa, mas sente-se bem.

"É uma lufada de ar fresco para mim", confessou, admitindo que complicado é "apanhar os termos da linguagem transmontana. "Custa um bocadinho mais porque efetivamente há toda uma música na fala que eu tenho ainda que apanhar", contou.

Teresa Tavares inspira-se no posto de turismo da vila onde tem, sobretudo contacto com as pessoas da terra, um sítio isolado "em que o tempo é vivido e gerido de outra maneira que nas grandes cidades".

Toda esta gente é a alegria de Zélia Diegues, proprietária de um dos restaurantes onde fazem as refeições, que não esconde a emoção de ver gente de fora que rompe a pacatez como acontece nas feiras do fumeiro ou no verão com os emigrantes.

"Estas pessoas, quando se forem embora, vão deixar saudades como os emigrantes", observou.

Relacionadas

Últimas notícias

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • Artes
Pub
Pub