Obra de Leopoldo de Almeida ganha museu nas Caldas

Abre hoje o museu dedicado ao artista das esculturas do Padrão dos Descobrimentos, num investimento de 900 mil euros.

Não cheira a tinta fresca, mas cheira a novo. Os andaimes com rodinhas, os monta-cargas, as paletes com os modelos de estátuas estabelecem um percurso às muitas pessoas que com urgência mas metodicamente vão dando forma final à exposição que, a partir das 16.30 de hoje, poderá ser vista no Museu Leopoldo de Almeida, nas Caldas da Rainha.

Um rebuliço que não perturba o minucioso trabalho de Arminda Ribeiro. "Falhas cromáticas, fragilidades estruturais e limpeza das peças", enumera a conservadora-restauradora, são as intervenções que já há seis meses está a fazer em algumas das 80 esculturas que formam a exposição inaugural. A essas peças juntam-se 50 desenhos que, explica José Antunes, diretor do Centro de Artes, formam "um ponto de partida daquilo que poderemos vir a apresentar". Isto porque o espólio, doado pelos herdeiros do escultor Leopoldo de Almeida (1898-1975), entre os quais se inclui a artista Helena Almeida, conta com 285 esculturas e quase 900 desenhos.

Instalado num edifício concebido por dois arquitetos genros do escultor, Artur Rosa e Luís Gravata Filipe, num investimento de 900 mil euros da autarquia das Caldas da Rainha (dos quais 85% comparticipados por fundos comunitários), o artista-referência da escultura pública durante o Estado Novo ganha finalmente um espaço dedicado à sua obra, quase cinco décadas após ter doado uma parte do seu espólio à Câmara de Lisboa com o objetivo de ser feito um museu na capital.

Como, por vicissitudes várias, esse museu nunca foi feito, e possuindo as Caldas da Rainha já três espaços dedicados a outros tantos escultores - António Duarte, João Fragoso e Barata Feyo -, "acabámos por fechar a quadradura do círculo iniciada com dois caldenses ao qual juntámos uma figura da Escola do Porto em 2004 (Barata Feyo) e agora a figura tutelar da escultura de Lisboa", refere o diretor do Centro de Artes, organismo da autarquia que reúne a gestão dos espaços museológicos.

Esta coleção tem caraterísticas diferentes da doada pelo próprio escultor à autarquia da capital. "A de Lisboa tem um carácter mais monumental e a nossa é de pequeno e médio formato e desenhos. É um espólio mais seminal, do ponto de vista artístico até mais interessante porque nos permite conhecer o processo de realização de uma escultura, desde o desenho (a escrita criativa), passando pela modelação em barro, ou seja, a aplicação das três dimensões, do volume, da sombra à escrita criativa, chegando às peças em gesso feitas a partir de moldes das peças de barro", diz João Antunes.

O edifício possui três grandes espaços expositivos: modelos e maquetes no primeiro andar; no andar inferior, uma galeria de desenho; e numa segunda sala, com pé direito duplo, são apresentados modelos definitivos e bustos. Estes vindos da coleção de Lisboa, com modelos à escala definitiva, como a escultura de Eça de Queirós da Póvoa de Varzim ou a de Ramalho Ortigão, do Jardim das Chagas no Porto. Do Padrão dos Descobrimentos existe apenas um pequeno modelo, no primeiro piso, que conta também com um núcleo de peças em que Leopoldo de Almeida desenvolve uma linguagem mais pessoal. "Há uma substancial diferença: aqui é mais arrojado, sem estar condicionado pelos ditames do encomendador, e arrisca uma linguagem mais pessoal, mais poética, mais forte em termos plásticos", contextualiza.

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