"O Zé Pedro era o Zé Pedro. Era especial."

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, anunciou a ideia de fazer, no verão, uma homenagem a Zé Pedro. Centenas de fãs prestaram ontem uma última homenagem ao músico.

Miguel tem uma blusa com o logótipo dos Xutos e Pontapés e um lenço vermelho enrolado no pulso. Um lenço como aquele que o guitarrista Zé Pedro usava tantas vezes nos concertos. Miguel tem apenas 9 anos mas sabe muitas das canções dos Xutos & Pontapés de cor, até mesmo aquelas mais antigas, e fica indeciso quando tem de escolher uma preferida. “São tantas”, diz, timidamente. Foi com os pais, António e Rute, que Miguel aprendeu a gostar de Xutos. Foram juntos a alguns concertos e ontem vieram juntos, desde o Seixal até Lisboa, para se despedirem de Zé Pedro. “Ele era uma pessoa excecional”, diz Rute. “Nós ouvimos Xutos há muitos anos, desde a adolescência, e passámos isso aos miúdos.” Chegaram cedo ao Picadeiro Real (edifício antigo do Museu dos Coches), onde se realizou o velório do músico, e já estiveram lá dentro mas agora aguardam à porta que Eva, a filha mais velha, de 19 anos, saia. “Ela é uma fã incondicional, olhava para o Zé Pedro como um exemplo. E quis ficar lá dentro mais um bocadinho.”

Do outro lado da rua, passam autocarros e tuk-tuks com turistas, grupos de estrangeiros que circulam, entre a indiferença e a curiosidade, por uma das zonas mais turísticas de Lisboa. Um papel colado numa das portas do museu avisa: “Hoje encerrado. Today closed.” Mas poucos reparam no letreiro improvisado, pois para chegar à entrada do museu é preciso passar por uma pequena multidão. A partir das 16.00 e até à hora do jantar não pararam de chegar pessoas que queriam prestar uma última homenagem a Zé Pedro, falecido na quinta-feira, aos 61 anos. Os seguranças permitiam a entrada a poucas pessoas de cada vez e durante a tarde a fila contornava o edifício subindo pela Calçada da Ajuda. Esperava-se em silêncio. Alguns traziam camisolas com o X dos Xutos ou cachecóis comprados em algum concerto da banda. Sandra trouxe um ramo de flores brancas. Veio de Setúbal despedir-se do seu ídolo da juventude: “Eu gosto de todos os Xutos, mas o Zé Pedro era o Zé Pedro, ele era especial.”

Escasseiam as palavras neste momento. “Parece mentira que tenha morrido”, disse o músico Manuel João Vieira aos jornalistas, enquanto o humorista Jel recordou “um amigo” que “deixa um vazio”.

Os músicos Manuel João Vieira, Samuel Úria, Sandra Baptista (Señoritas), Nuno Rafael, Pedro Gonçalves (Dead Combo), Luís Varatojo, Gimba, João Gil, Pedro Jóia, Fernando Tordo, Alex Cortez (Rádio Macau), Luís Represas, Rodrigo Leão, DJ Cruz Fader (Orelha Negra), Fred Pinto Ferreira (filho de Kalú, baterista dos Xutos & Pontapés) e os elementos dos Capitão Fausto foram alguns dos que passaram pelo velório ontem à tarde. Assim como o editor David Ferreira, o produtor Ramón Galarza, a empresária Roberta Medina (Rock in Rio), o promotor Nuno Braamcamp e o realizador Joaquim Leitão, o secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, e os dirigentes do Bloco de Esquerda Catarina Martins, Ricardo Robles e José Manuel Pureza.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, apareceu a pé e demorou-se algum tempo lá dentro. À saída anunciou aos jornalistas: “Há ideias para, na primavera ou verão, fazer uma homenagem em grande como ele gostava que fosse, com alegria, com muita gente, de todas as gerações interpretando o que ele deu aos portugueses: uma vida inteira.” Nessa homenagem, o Chefe do Estado espera “que estejam presentes os ídolos musicais da vida dele”. Marcelo Rebelo de Sousa explicou que esteve presente para prestar a “enorme gratidão” a um músico “que deu alegria a milhares de portugueses”.

Lá dentro, na enorme sala onde estão o coche de D. Carlota Joaquina, o coche do infante D. Henrique e outras preciosidades, está também Zé Pedro, rodeado pela família e pelos amigos mais próximos. E os fãs. Muitos deles, depois de esperarem na fila para entrar, ainda ficam na fila para escrever num dos três livros de condolências que se encontram à entrada.

Será ao som de Homem do Leme que, perto das 13.00 de hoje, o corpo de Zé Pedro sairá do museu para o Mosteiro dos Jerónimos, onde às 13.30 se realiza a missa de corpo presente, seguida de cerimónia privada reservada à família. O funeral realiza-se no Cemitério dos Olivais. A despedida faz-se com música, escolhida pela mulher, Cristina Avides Moreira: Para Sempre.

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