O veterinário que escreveu um livro com vitrais

Gonzalo Giner já publicou quatro romances e em todos existe um animal como personagem. Não será por acaso, é que antes de se tornar autor de romances históricos de grande sucesso era - e continua a ser - veterinário. Se tivesse de renunciar a uma das profissões, garante, desistiria da escrita.

O escritor espanhol Gonzalo Giner escolheu o Mosteiro da Batalha para apresentar a tradução portuguesa do seu mais recente romance: As Janelas do Céu. Não é por acaso que vem a Portugal e escolhe este monumento, pois, como ele próprio revela, é nesta construção majestosa que celebra a vitória na Batalha de Aljubarrota - daí chamar-se também Mosteiro de Santa Maria da Vitória - que surgiram os primeiros vitrais que decoram as catedrais na Península Ibérica. E esse é o principal tema das 668 páginas, pois uma das personagens vai tornar-se mestre na arte do vitral depois de bastantes aventuras.

Este é o quarto romance histórico que publica desde que em 2005 rompeu com a exclusividade à sua profissão de veterinário, que até hoje, apesar do sucesso dos seus livros, continua a exercer. Um amor aos animais que o mantém ocupado, apesar do tempo que os seus livros exigem. Designadamente, a nível de investigação, como foi o caso deste, porque o vitral é uma arte que tem sido marginalizada ao longo dos tempos e poucas são as obras publicadas que pudessem esclarecer os meandros desta arte quanto a muitas das dúvidas sobre o que as suas personagens fazem nesta narrativa.

Se tivesse de renunciar a uma profissão, era à escrita e nunca à veterinária

Giner recusa qualquer especialização nesta área: "Não sou historiador. Partilho as duas situações porque a minha profissão é a verdadeira vocação." Giner começou a estudar veterinária e, mesmo que aos 38 anos descobrisse a literatura, garante que não quer renunciar à profissão principal: "A parte literária veio depois e resta-me compatibilizar - com alguma dificuldade - este trabalho complexo da escrita com o que faço realmente. Mas vivo feliz por dividir o tempo entre ambas." Tão satisfeito está com a prestação de cuidados aos animais que garante: "Se tivesse de renunciar a uma profissão, era à escrita e nunca à veterinária."

Em As Janelas do Céu existe uma personagem animal, um falcão. É uma característica sempre presente no seu quarteto de romances: "No primeiro livro em que coloquei animais, a minha intenção era a de valorizar a importância dos cavalos nas batalhas medievais. O que queria era contar como se exercia a profissão de veterinário então, que, estranhamente, nunca surgira em livro algum." A introdução dos cavalos num romance era, explica, "também uma homenagem feita através de uma história que tivesse que ver com os cuidados animais na Península Ibérica, pois a situação em Portugal também me interessava".

Como colocar a personagem animal nos livros? "Não tinha sentido referir os veterinários sem ter o seu objeto de trabalho, portanto introduzi uma égua de raça árabe que rivalizava com a principal personagem feminina tal era a sua importância", refere. Os leitores gostaram, tanto assim que no registo de raças de cavalos hispano-árabes o nome dessa égua, Sava, foi-se multiplicando todos os anos.

Neste romance dedicado aos vitrais, a personagem animal não está ausente. Desta vez é um falcão: "Pode parecer menos próximo de nós, mas há muito que aprender com eles. É o caso do protagonista de As Janelas do Céu, que através da ave aprende a agir no momento certo e a ter paciência como ela tem para apanhar a sua presa." No entanto, Gonzalo Giner avisa que o autor não "pode humanizar demasiado as personagens animais. Os cavalos ou os cães não falam, o que se pode fazer é explorar a amizade entre humanos e animais, até porque os leitores dizem-me frequentemente que vivem com intensidade essa relação".

Os cavalos ou os cães não falam, o que se pode fazer é explorar a amizade entre humanos e animais

Como desta vez é um falcão que partilha a narrativa, o segredo é relativizar o modo como "o animal se converte numa personagem tão importante como um humano", nada que seja difícil a Giner, pois está habituado a escrever sobre essas relações, que podem surgir de descobertas de momentos particulares da História: "No meu livro Pacto de Lealdade existe uma passagem breve durante a Guerra Civil Espanhola após ter descoberto que os cães tiveram no conflito um papel muito importante, tal como nas outras duas guerras mundiais, pois os países europeus tinham unidades caninas para desempenhos muito específicos - como retirar cabos telefónicos e desarmar minas. Ao descobrir que os aviões dos nazis traziam armamento para o exército do general Franco e voltavam carregados de cães, pus-me a investigar o porquê dessa necessidade de centenas de animais. Daí saiu uma boa parte do livro."

A época em que os quatro romances de Gonzalo Giner se situam é diferente. Se o próximo, revela, vai ter como cenário a atualidade, é no passado que mais gosta de os escrever. A razão é simples, gosta de investigar os tempos antigos e procurar elementos para montar o argumento: "Nunca começo um livro sem ter feito uma pesquisa exaustiva e saber tudo o que é possível. Depois, faço um esquema muito completo desde o princípio ao fim, porque não sou capaz de trabalhar sem ter tudo muito organizado." Acrescenta que "é mais cómodo escrever sobre o passado porque, como me interesso pelos episódios da época e os aprofundo ao máximo, fico como os leitores: ninguém se aborrece!"

É esse conhecimento da matéria que está nos seus livros que o fez vir ao Mosteiro da Batalha para conhecer os exemplos da arte dos vitrais. Conforme percorre a nave do mosteiro apontando os exemplos da arte do vitral que ali foram utilizados, percebe-se que se especializou quanto baste durante a investigação para escrever este romance. Conta que durante um ano e meio procurou toda a bibliografia existente, deparando-se com tratados em línguas arcaicas que lhe dificultavam a perceção do conteúdo mas, mais para o fim da pesquisa, conheceu um mestre do vitral que lhe explicou tudo o que necessitava e dissipou as dúvidas quanto a estes puzzles de vidros coloridos que ornamentam as grandes catedrais europeias.

Aliás, ao saber de algumas reparações no próprio Mosteiro da Batalha, que o investigador Pedro Redol aponta enquanto acompanha a visita, não deixa de surpreender quando refere o "renascimento" provisório destes artistas ainda há poucas décadas. É que, com o fim da II Guerra Mundial, foi preciso reparar a maior parte dos vitrais existentes nos monumentos em muito destruídos pelos bombardeamentos aéreos nazis e a profissão ressurgiu, para logo se apagar com o fim dos trabalhos de reabilitação.

Apesar de ter feito questão de dizer que não era historiador, Gonzalo Giner não consegue fugir à disciplina e refere que a "realidade da Idade Média não é tão escura como dizem". Isto para explicar como o efeito dos vitrais clarifica os grandes espaços das catedrais, tornando-as mais leves, mesmo que alguns religiosos fossem contra essa "abertura" ao exterior. Uma realidade que está retratada de forma discreta num dos vitrais do Mosteiro da Batalha: "Os monges não podiam ser distraídos com motivos mais decorativos para não se distraírem da oração e os da Ordem de Cister optavam mesmo por desenhos geométricos."

Giner olha para os vários vitrais da nave da Batalha e diz: "É espetacular. A Batalha é o expoente máximo desta arte na sua época." Mostra as diferenças entre os vários vitrais: "Estes são mais difíceis de fazer porque os vidros são pequenos e estão presos entre estruturas de pedra." Também aponta para um ou outro vitral de modo a explicar a diferença das tonalidades que a descoberta do pigmento que originará o amarelo-prata permite ao surgir no fim da Idade Média e facilitar um estilo mais trabalhado.

O interesse do escritor neste tema surgiu devido a uma visita que faz ao Duomo de Milão, em que viu os raios de sol a entrar por uma rosácea e a iluminarem o altar: "Foi aí que começou esta história." Depois, faltava o enquadramento e decide escolher um período de grande comércio da lã entre as terras de Castela e a Flandres e os grande mercados que movimentavam à época o equivalente a milhões de euros atuais: "Queria regressar à Idade Média para descrever essa atividade comercial e ao mesmo tempo uma arte muito esquecida, tal como estão os seus artesãos. Foi de querer dar valor a esta arte que nasce o romance."

Tal como na vida, as personagens têm de ter uma envolvência e, como ele é muito jovem e não sabe o que quer fazer, serão os que o rodeiam que ajudarão a encontrar o seu futuro.

Em seguida, Gonzalo Giner avançou para as personagens, fazendo da dureza de um pai mercador de lã para com um dos filhos o pontapé de saída para que este se dedique à arte do vitral. Claro que este desfecho não é imediato e a personagem ainda irá viver muitas aventuras, que o levarão ao norte de África e à Terra Nova antes de se dedicar aos vitrais: "Tal como na vida, as personagens têm de ter uma envolvência e, como ele é muito jovem e não sabe o que quer fazer, serão os que o rodeiam que ajudarão a encontrar o seu futuro."

É nesta arte que a personagem aprenderá o equilíbrio da vida: "O vitral tinha os quatro grandes elementos da vida: fogo, terra, água e ar. Ao perceber tudo isso, descobre que essa arte é a sua vida." A descoberta não acontece só à personagem, pois, segundo o escritor, também o desconhecimento desta arte o deixou curioso e com vontade de aprender, fazendo nascer o caminho para o romance que queria escrever: "O protagonista vai aprender todo o ofício e para isso tive também de conhecer muito do que está por trás da arte do vitral. Ao fim de muita procura, encontrei um grande mestre, que restaurou muitas catedrais e esclareci muitas das minhas dúvidas."

Gonzalo Giner tem uma certeza sobre o livro: "Os leitores passaram a olhar os vitrais de outro modo e ao entrarem nos monumentos observam-nos de outro modo, dando-lhes mais importância. É o que me dizem nos e-mails que recebo."

As Janelas do Céu

Gonzalo Giner

Editora Planeta

668 páginas

PVP: 22,90 euros

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