O tesouro a preto e branco de Sir Elton John

A exposição "ThE Radical Eye" abriu ao público na Tate Modern, em Londres. São quase duas centenas de fotografias do período entre 1910 e 1950, num verdadeiro olhar sobre a história da fotografia ao gosto do colecionador Sir Elton John.

O nome dele é habitualmente associado ao mundo da música e a clássicos da história do pop rock como Your Song ou Candle in the Wind. Elton John, de 69 anos, vendeu mais de 300 milhões de discos ao longo de uma carreira iniciada há cinco décadas. Agora o seu nome ocupa as páginas dos jornais britânicos por uma razão diferente: é o dono de uma das maiores coleções privadas de fotografia no mundo, com um espólio de mais de oito mil imagens. Uma pequena seleção integra agora uma exposição que abriu ao público na Tate Modern, em Londres.

A mostra intitulada The Radical Eye: Modernist Photography from the Sir Elton John Collection (O Olho Radical: Fotografia Modernista na Coleção de Sir Elton John) inclui quase duas centenas de trabalhos do período de 1910 a 1950, época em que a fotografia atingiu a maioridade. "Essas décadas ficaram marcadas pela inovação técnica e por uma experimentação muito grande, com os artistas sempre a testar os limites da arte fotográfica", explicou Shoair Mavlian, uma das curadoras da exposição, na visita de antestreia proporcionada à imprensa internacional radicada em Londres.

Para uma estrela que gosta de pisar os palcos vestido com fatos e gravatas extravagantes, plumas coloridas, óculos XL e saltos absurdamente altos, não deixa de ser curioso que em termos de fotografia prefira o preto e branco da primeira metade do século passado.

As 191 fotografias selecionadas para The Radical Eye estão habitualmente penduradas nas paredes de uma das várias residências de Elton John em Beverly Hills, Veneza ou Inglaterra. A maior parte estava no enorme apartamento de luxo que Elton (e o marido, David Furnish) tem no bairro chique de Buckhead em Atlanta, no estado da Geórgia (EUA). Num dos sete espaços da exposição, um curto documentário filmado dentro do apartamento de Atlanta mostra Elton John a percorrer os corredores e as salas desta casa de 1700 m2 cujas paredes estão inteiramente cobertas por fotografias de todos os tamanhos, muitas delas com molduras extravagantes. "Em 1990 deixei o álcool e troquei-o por uma dependência muito mais saudável", explica Sir Elton no documentário. "A fotografia passou a ser esta companheira incrível, nova, libertadora. Comecei a colecionar e senti-me como um miúdo numa loja de doces. Cada foto serve-me de inspiração para a minha vida."

A mostra inclui as impressões originais e raras de mais de 60 fotógrafos de todo o mundo, incluindo mestres como Man Ray, Diane Arbus, Robert Frank ou Henri Cartier-Bresson. O surrealista norte--americano Man Ray (1890-1976) é um dos autores mais representados, com 25 fotografias, incluindo vários retratos e as duas fotografias Noire et Blanche - a versão positiva e negativa das imagens da musa de Ray, Kiki de Montparnasse, segurando uma máscara africana - habitualmente penduradas sobre a cama de Elton John em Atlanta.

Uma das primeiras peças adquiridas pelo colecionador milionário foi Glass Tears, igualmente de Man Ray, num leilão da Sotheby"s em 1993. Elton John pagou um valor recorde, na altura, de 200 mil dólares (180 mil euros, ao câmbio atual) por esta fotografia de 1932 da cara de um manequim com contas de vidro. Esta fotografia de um boneco que tem a expressão de uma estrela do cinema mudo, com as pestanas cheias de rímel e um olhar suplicante, foi produzida por Man Ray, em Paris, numa altura em que ele acabara de se separar da assistente (e amante) Lee Miller. Nos últimos 20 anos o mercado da arte fotográfica inflacionou e uma peça como Glass Tears - a imagem que serve de cartaz da exposição de Londres - vale, agora, muitos milhões.

The Radical Eye inclui outras obras-primas da história da fotografia como a preciosidade de 3x4 centímetros Underwater Swimmer, de 1917 - obra de André Kertész, um dos pioneiros do fotojornalismo - ou Humanly Impossible, de 1932, fotomontagem e autorretrato surrealista do alemão Herbert Bayer, membro influente do movimento Bauhaus. A mostra inclui ainda trabalhos da cronista de Nova Iorque Berenice Abbott (1898-1991), do vanguardista russo Alexander Rodchenko (1891-1956) que revolucionou o uso da perspetiva e retratos de escritores, músicos e artistas como Salvador Dalí, Duke Ellington, Noël Coward - e do próprio Elton John - assinados pelo norte-americano Irving Penn (1917-2009).

Além de Arbus e Abbott, a exposição engloba trabalhos de muitas mulheres, como Klara Langer, Dora Maar, Bourke-White, Tina Modotti, Imogen Cunningham ou Ilse Bing, uma fotojornalista alemã e judia - conhecida como A rainha da Leica - que fugiu da Alemanha nazi para França e mais tarde para Nova Iorque (via Lisboa).

Os espaços estão arrumados de forma temática. Na sala dedicada à fotografia documental, uma das paredes é dominada pelo trabalho de outra fotógrafa, a norte-americana Dorothea Lange (1895-1965), que documentou como ninguém o impacto da Grande Depressão na vida dos camponeses nos anos 1930. A impressionante Migrant Mother (1936) - uma das fotos mais icónicas da exposição - continua a perturbar, oitenta anos após a sua criação. Esta é uma das fotografias preferidas de Sir Elton: "Adoro o facto de ser tão bela e no entanto a situação retratada é tão horrível", explica. "Costumo dizer que ela é a Mona Lisa da fotografia. A cara é tão elegante e digna e no entanto esta mãe atravessa um período terrível a tentar alimentar e vestir os filhos."

Estes fotógrafos pioneiros das décadas de 1920, 30 e 40 escreveram uma nova linguagem da fotografia. "Neste período, [a fotografia] deixou de seguir as regras da pintura e começou a experimentar e a criar uma linguagem visual própria", diz a curadora Shoair Mavlian. Esta linguagem continua a ser influente hoje em dia, numa era de smartphones e selfies - uma era em que a fotografia como objeto físico, como a que existe na belíssima coleção de Elton John, passou a ser uma raridade.

Informação útil:

"The Radical Eye: Modernist Photography from the Sir Elton John Collection"

Tate Modern, Londres

Bilhetes: 15 libras (17 euros)

Até 7 de maio, todos os dias das 10.00 às 18.00 (sextas e sábados até às 22.00)

Em Londres

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