O Tarantino africano faz filmes de ação num bairro de lata

Isaac Nabwana filma no Uganda em tripés feitos de tratores e edita em computadores que constrói. Faz violentas comédias vistas por todo o mundo onde há explosões, lutas de Kung Fu e metralhadoras

Wakaliga é um bairro de lata nos arredores da capital do Uganda, Kampala, que anda nas bocas do mundo. Tudo porque um dos seus habitantes, Isaac Nabwana, começou a filmar violentas comédias de ação ali mesmo, onde cresceu. Hoje conta 45 longas-metragens, com um público que vai dali mesmo, do Uganda, a Hong Kong ou Alemanha.

Então Wakaliga passou a ter como referência Wakaliwood, nome do estúdio e produtora de Nabwana. E os seus habitantes, que podiam passar todas as suas vidas desconhecidos para o mundo inteiro, foram vistos por milhões de pessoas. Habitantes que conduziam mototáxis ou eram vendedores no mercado local, passaram a atores de violentas cenas de Kung Fu ou atos canibais. Um vídeo que apresenta o filme Who Killed Captain Alex foi visto mais de onze milhões de visualizações no Facebook.

As referências de Nabwana? Chuck Norris, o "ranger do Texas" ou os filmes da saga Rambo, com Sylvester Stallone, conta ao Wall Street Journal. E outra, que o realizador revela naquela espécie de carta de intenções que apresenta e em que diz querer "entreter o mundo": "Espero que em breve o senhor Tarantino seja comparado a mim!"

Recorde os orçamentos das grandes produções de Hollywood e compare-os com o custo de produção de um dos filmes do Tarantino africano: 160 dólares (147 euros). Quando Wakaliwood lançou uma campanha de crowdfunding para esse valor, juntou 15 mil.

Num pequeno filme de apresentação produzido por aqueles estúdios do Uganda, Nabwana explica: "Quero fazer o melhor filme que o mundo já viu. O mais doido. Com helicópteros, tanques, metralhadoras. Quero destruir o mundo inteiro com esse filme", dizia o realizador naquele bairro onde as crianças rodeiam um set em que os seus vizinhos portam armas feitas com objetos do ferro velho, e preservativos cheios de um líquido que imita sangue, para simular ferimentos de bala.

Tudo isto enquanto são filmados com câmaras assentes em gruas e tripés feitos de peças de trator. Nabwana edita os seus filmes em casa em computadores que ele próprio construiu com placas e teclados que foi recolhendo. No set o realizador troca a sua língua materna pelo inglês e grita Action e Cut, conta a Playboy. A revista recorda ainda que o realizador cresceu tanto a ver cinema ocidental como a assistir à sangrenta rebelião que Yoweri Museveni, atual Presidente, travava contra o regime ditatorial de Ida Amin.

Alan Hofmanis é o único ator branco que se vê nos filmes. Um nova-iorquino que se mudou para Wakaliga em 2012. Foram os filmes de Nabwana que o levaram ali. "Trabalhei em cinema durante uma década e ninguém está a inovar tanto como este tipo. Eles são heróis de ação da vida real." Hofmanis e Nabwana estão a filmar a primeira trilogia do Uganda, que querem levar ao Festival de Cinema de Cannes. Se não, por certo farão o que sempre fazem em Wakaliga: venderão, de porta e porta e de figurinos vestidos, os seus filmes.

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João Gobern

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