O rio do desassossego de Hugo Vieira da Silva

Outra longa portuguesa, outra proposta única. Agora foi a vez de "Posto-Avançado do Progresso", de Hugo Vieira da Silva, a brilhar no Fórum. Nuno Lopes é o protagonista

E de repente paira sobre o festival a ave mais rara. Não, Posto-Avançado do Progresso, de Hugo Vieira da Silva, não é uma ave rara, é uma ave raríssima. Uma adaptação livre, completamente livre do livro homónimo de Joseph Conrad, imaginando dois colonizadores portugueses do século XIX a chegar ao rio Congo para tomar conta de um posto de comércio de marfim. À medida que o tempo passa e o marfim não chega, os dois começam a agonizar e a deixarem-se vencer por uma paisagem de selva e calor.

Depois de Body Rice (2006) e Swans (2011), o cinema de Hugo Vieira da Silva progride para uma dimensão mais simbólica. No meio de uma força plástica relevante, surge a habitual carga coreográfica e jogo de corpos. Os atores Ivo Alexandre (bela surpresa) e Nuno Lopes são atirados para um transe que às vezes parece improvisado, sobretudo na relação com os corpos dos não-atores, em especial os figurantes angolanos.

Em boa verdade, o filme toca em temas tabu da colonização portuguesa, ainda que com um estrondo universal. É sobre quem caça e é caçado. Depois, tira-nos o tapete e é uma variação do filme de fantasmas. Os brancos, muito brancos, são vistos pelos locais como mortos e fantasmas da selva. Daí que faça sentido a cadência de transe e a monumental pincelada de contraste. Claro, o espectador nunca fica em zona confortável - anteontem na sessão para a imprensa, na primeira parte, houve gente a desistir. Digamos que o desconforto (ó que doce desconforto!) é parte do contrato deste gesto selvagem em que cabe uma parábola imensa sobre o racismo dos portugueses, parábola essa que às vezes é servida com uma hipótese de burlesco.

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