O regresso de Hope Sandoval, sem truques nem exibicionismos

"Until the Hunter" marca o regresso de Hope Sandoval exatamente no ponto em que a esperávamos. E sem pressas, como é costume

Quem venha aqui em busca de música para uma festa, vai bater com o nariz na porta. Pode passar adiante, que Hope Sandoval - hoje uma saudável cinquentenária que só usa o Google quando precisa de inspiração para novas receitas culinárias, que considera a sua ligação às canções como um "destino inquebrável, mas nem sempre agradável" e que se apresenta como uma implacável defensora da criação "orgânica", rejeitando os sofisticados truques contemporâneos - continua a habitar e a gerar beleza exatamente no mesmo cenário em que a deixámos, quando, em 2013, se aplaudiu a ressurreição (episódica?) do projeto que a tornou figura de culto, os Mazzy Star, que, com 17 anos de intervalo, deram novas notícias, com Seasons of Your Day.

Isto significa que as dádivas da senhora ao universo das canções continuam a encaixar-se no capítulo dos prazeres solitários, pessoais e dificilmente transmissíveis. Agora, este terceiro disco com os Warm Inventions - que têm como segunda figura destacada um homem com o nome Colm Ó Ciosóig, aqui chamado aos papéis de compositor e de corresponsável pelas guitarras, mas que conhecemos como baterista dos My Bloody Valentine - é uma espantosa companhia para as longas noites, frias e escuras, deste inverno. Da mesma forma que, daqui a meio ano, valerá como inultrapassável parceiro para os demorados crepúsculos do verão, desde que possamos reservar-lhe a atenção que merece.

Além do seu valor real - enorme, mesmo que a única surpresa de monta seja a "concessão" de um dueto de Hope, em Let Me Get There, com um afirmativo Kurt Vile, que tem ganho peso específico com os discos a solo e com o grupo War On Drugs -, este álbum, terceiro de uma série iniciada em 2001 com Bavarian Fruit Bread e prosseguida em 2009 com Through the Devil Softly, vem relançar um passatempo já antigo: como classificar as canções de Sandoval.

Vale tudo: gothic country, sad-core, dream pop, trip-hop-soul e psicadelismo de "câmara lenta". O que, como acontece com cada vez mais frequência nestes rótulos, pode pura e simplesmente traduzir falta de rigor e utilidade nos conceitos. Por isso se opta pelo método comparativo para localizar efetivamente (sem GPS prefabricados) aquilo que mais uma vez aguarda quem aborde este álbum: por exemplo, a certeza de que muitos dos caminhos explorados por Lana Del Rey terão passado pelo contacto com Hope Sandoval, espécie de madrinha da top model da pop atmosférica. Ou a sensação crescente de que, se Angelo Badalamenti, o homem que criou e modelou o som que associamos a David Lynch (Twin Peaks, mas também Blue Velvet ou Wild at Heart), tivesse começado por escutar Hope, Julee Cruise não teria tido o seu passaporte dourado para um local de culto.

Espaço de respiração

Como se disse, Until the Hunter não se afasta das traves-mestras que sustentaram os seus antecessores: guitarras acústicas lineares e simples, guitarras elétricas com distorções inteligentes e com uso frequente de pedais, aqui e ali um órgão de fundo para confortar a alma, uma percussão pausada mas efetiva, um baixo que parece apresentar-se apenas como alicerce, o tempero de um violoncelo, de um vibrafone, de um gongo.

Com estes parâmetros instrumentais, os verdadeiros fatores distintivos provêm de uma clara opção "atmosférica" - cada canção, por mais rústica que surja ou por mais densa que se sinta, vale como um imenso espaço de respiração, o que permite valorizar esse elemento crucial e tantas vezes subvalorizado chamado silêncio - e a vocalização da própria Hope Sandoval, despida de truques e exibicionismos, capaz de pairar sempre acima do que vai acontecendo com os outros contributos.

Muito mais vezes fada do que bruxa, a cantora não precisa de forçar a(s) nota(s) para transmitir, com abundância suficiente para nos remeter ao tal prazer onde só cabe um de cada vez, uma tristeza, uma melancolia, uma nostalgia, um spleen, estados de espírito que alternam ou se somam.

Convirá acrescentar que, face aos antepassados, este novo registo de Sandoval & C.ª parece mais consistente, sem hesitações ou ruminanços do primeiro ao último tema (e são 11), e mais inspirado ainda, se analisado do ponto de vista da melodia.

De resto, as regras continuam a ser metodicamente quebradas, desde logo por uma abertura, a canção Into the Trees, que chega aos nove minutos de duração. Consequência: nunca tomará assento nas estações de rádio mais formatadas.

O mesmo acontecerá com o segundo single mostrado em avanço, Let Me Get There, no qual se dá o auspicioso encontro das vozes de Hope e Kurt Vile... durante sete minutos e meio. A única canção mais convencional (sem exageros) é Isn"t It True, que permitiu a muitos a primeira abordagem a um todo que, de uma forma tão exemplar como rara, dispensa os tempos mortos. Parece muito mais simples do que é, até porque, como alguém disse recentemente, "a simplicidade dá muito trabalho".

Se essa ideia servir como aferidora, será forçoso reconhecer que Ó Ciosóig e Sandoval fizeram horas extraordinárias. E ainda bem: se uma terceira colaboração de Hope com os Massive Attack (a atração dos opostos ou os múltiplos caminhos para chegar ao destino?), concretizada já neste ano, serviu para matar saudades, ouvi-la assim, a tempo inteiro, é outra coisa.

Dizem os mais precavidos que pode ser mau sinal quando se começam a ouvir vozes dentro da nossa cabeça. Atreva-se a ressalva: se a voz que ressoa for a de Hope Sandoval, tão perto de estabelecer uma medida-padrão para o sussurro afirmativo, não há perigo nenhum. Há uma bênção, isso sim.

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