"O que Florence e Natália tinham em comum é que só ouviam os aplausos, não as gargalhadas"

Natália de Andrade dedicou a vida ao sonho de ser cantora lírica e considerava-se à altura de Maria Callas. Figura excêntrica, foi caricaturada por Herman José

Portugal também teve a sua "diva iludida". Natália de Andrade dedicou toda a vida ao sonho de ser uma cantora lírica de renome e chegou a gravar cinco discos, o primeiro aos 54 anos, em 1964.

Caricaturada por Herman José, que imitou recorrentemente num tom esganiçado o tema O nosso amor é verde, morreu em 1999 sozinha num lar em Tábua. É a partir daqui que Catarina Gomes, jornalista, reconstrói o possível da história desta mulher, reportagem que dá depois origem ao documentário Natália, a Diva Tragicómica, realizado por João Gomes.

"Como toda a gente eu tinha visto a caricatura do Herman. Um músico meu amigo disse-me que ela tinha tido uma família muito rica que patrocinou a sua carreira como a Florence Foster Jenkins e acabou por ser um boneco de humor", conta ao DN Catarina Gomes. Partiu para o terreno e começou por ir ao local onde Natália vivia na zona do Príncipe Real, em Lisboa. "Importunava toda a gente, vivia num mundo muito particular". A jornalista do Público seguiu a pista desta mulher até Tábua, no lar para artistas da Fundação Sarah Beirão, onde morreu.

Ninguém reclamou os pertences de Natália de Sousa e há no lar um salão de festas com partituras, fotografias. E um diário "de 500 e tal páginas" que Catarina Gomes leu na esperança de desvendar algo sobre esta mulher. Tal como na vida, também o diário enaltecia a "ilusão do seu talento". Nos escritos "dizia que era espetacular, melhor que a Maria Callas", conta a jornalista. Há ainda notas de uma "infância infeliz" e de uma relação obsessiva com a mãe (após a separação desta do pai, funcionário do jornal O Século) em que as duas alimentavam o ego uma da outra.

A luta de Natália de Andrade para gravar um disco levou-a a extremos como ver todo o recheio da casa penhorado, sobrando apenas o piano. A cantora que queria ser lírica, de voz estridente e pose excêntrica recebeu uma crítica promissora a um disco que "replicou de forma obsessiva" ao longo de toda a vida. "Natália morreu na miséria e foi alvo de aproveitamento artístico. A Florence com o dinheiro pôde proteger-se. O que as duas tinham em comum é que só ouviam os aplausos, não as gargalhadas".

Tal como Catarina Gomes, também João Gomes, o realizador do documentário Natália, a Diva Tragicómica (2011) já viu o filme de Stephen Frears que hoje se estreia nas salas portuguesas - e saiu da sala "angustiado com as pontes entre Natália e Florence". A diva americana ainda assim foi mais protegida, pelo marido, considera. Natália, depois da morte da mãe, ficou sozinha. "A história de Natália é mais triste, mais degradante, mais indigna e mais fascinante. Também por isso não deixa de ser assustador", considera.

Natália de Andrade "é uma pessoa que quer acreditar, quer ser amada e fazer da música uma espécie de elevador". Mas o que fica neste filme "é um mar de interrogações". Isto porque toda a vida da diva iludida foi uma mise en scene: "Até no diário ela deixava instruções para quem viesse a fazer a biografia dela, "notas para um filme sobre a minha vida" para quem viesse a biografá-la com toda a sua grandeza", conta João Gomes. O documentário que realizou reflete "o caso humano e os limites éticos", considera. "Isso inclui-nos a todos, com diferentes graus de culpabilidade: as pessoas que contribuíram para que ela acreditasse que era uma grande cantora; como as pessoas que a ridicularizaram em público." Natália de Andrade estava "rodeada de pessoas que lhe garantiam aquela encenação permanente para que ela acreditasse que era uma diva do belcanto".

O filme conta com vários depoimentos. Armando Carvalheda descreve Natália como "uma figura pitoresca" que se vestia de forma desadequada à época. Herman José, "apaixonado" por Natália, refere: "Há uma coisa que une as duas [Florence Foster Jenkins e Natália de Andrade] que é a loucura pela música e ultrapassarem toda a noção de ridículo em função da sua paixão pela música".

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