O percurso e todos os santos que ajudam o padroeiro de Lisboa

O DN foi conhecer o percurso da Procissão de Santo António e, seguindo as explicações de Clara Ferreira, do serviço educativo do Museu de Santo António, traça o caminho de uma das mais antigas procissões da capital, que pelas 17.00 volta a sair pelas ruas de Alfama.

Conta a tradição que foi ali mesmo, onde hoje está instalado o Museu de Santo António, em Lisboa, que por volta do ano de 1191 nasceu Fernando Martins Bulhão (ou Bulhões), imortalizado com o nome de Santo António. Nada mais natural pois que tenha saído daí a visita guiada que, no domingo, percorreu as ruas de Alfama, passando pelos mesmos locais da Procissão de Santo António, uma das mais antigas de Lisboa, que logo, pelas 17.00, volta a sair à rua.

Procissão de Santo António em Alfama

O Museu, renovado em 2014 e que em 2016 recebeu 15 mil visitantes, fica fora deste percurso. Mas é aí que se conta a história do santo padroeiro de Lisboa, que viveu os seus primeiros 20 anos na capital, e que morreu em Pádua (Itália) em 1231, ao longo de três salas: uma dedicada à iconografia, onde se podem ver as mais variadas representações do santo, outra mais virada para as tradições populares a ele associadas e uma área multimédia na qual, por exemplo, são lidos vários milagres como o da aparição do Menino Jesus por Maria Bethânia ou o da ressurreição do menino Taveira por Carminho.

Clara Ferreira, do serviço educativo do museu, faz a introdução sobre a falta de certeza quanto à data em que terá começado a realizar-se a procissão, havendo apenas a certeza que partia do Convento dos Franciscanos (onde hoje está instalada a Faculdade de Belas Artes, no Chiado), e que deixou de se realizar em 1834 por causa da extinção das ordens religiosas, tendo voltado a fazer-se em 1895. Altura em que saía do Mosteiro de São Vicente de Fora, onde Santo António estudou durante dois anos, antes de, aos 20 anos, se mudar para Coimbra. Só em 1952 terá sido realizada a partir da Igreja de Santo António, paredes meias com o museu, local da casa dos pais de Santo António que, no século XIV foi adquirida pelo Senado de Lisboa, havendo então uma ermida dedicada a Santo António.

Já no largo da igreja, Clara Ferreira explica que o projeto de se fazer um templo maior dedicado ao santo data da época de D. João II, mas que apenas foi posto em prática por D. Manuel I. Com o terramoto de 1755, a igreja ficou praticamente destruída, restando apenas o altar-mor, o primeiro quadro que se pode ver do lado direito dentro da igreja, e a imagem de Santo António - com mais de 300 quilos, já não é esta a imagem de Santo António que sai em procissão. Por questões de conservação e para facilitar o transporte, foi mandada fazer uma réplica, nos anos 1970 e é essa imagem que hoje voltará a sair à rua, "precedido pelo corpo sacerdotal e pelos acólitos", pormenoriza Clara Ferreira.

A primeira de seis paragens da procissão é ali perto, na Igreja de Santa Maria Maior, a Sé de Lisboa como é conhecida. Foi aí que Fernando Martins foi batizado e numa escola adjacente fez os primeiros anos de estudo. "Aqui junta-se à procissão uma relíquia de Santo António e o Patriarca de Lisboa", refere a guia.

Seguindo a Rua de São João da Praça chega-se ao largo da Igreja de São João Baptista onde haverá nova paragem. Aqui, um andor com este santo - "primeiro mártir do Cristianismo", assinala a guia - entra na procissão e Clara Ferreira explica como a história deste templo está ligada a Santo António. A primeira ermida aí edificada foi mandada construir pelo pai de Santo António em sinal de agradecimento por ter sido salvo da forca, mais um dos milagres atribuídos a Santo António.

Já no Largo de São Miguel, local da paragem seguinte, quase dá vontade de dizer que é um milagre o jipe dos Sapadores Bombeiros de Lisboa conseguir passar por estas ruas transportando a imagem de Santo António. É aí que se junta o andor de São Miguel, o Arcanjo, "comandante supremo do exército de Deus e, por isso mesmo, sempre representado vestido com uma armadura, com espada e lança", diz Clara Ferreira. O que se pode comprovar na estátua, ao alto, no centro desta igreja, também ela construída originalmente ainda no século XII, no seguimento da reconquista da cidade de Lisboa ao mouros, em 1147, por D. Afonso Henriques, tal como a maioria das igrejas por onde esta procissão passa.

Deixando a Rua de São Miguel, segue-se pela da Regueira e, já lá no alto, nova pausa, agora nas traseiras da Igreja de Santo Estêvão onde o andor com a imagem deste diácono, represento com o Livro Evangélico, toma a dianteira da procissão.

Seguindo pela Rua das Escolas Gerais, o atual percurso poupa a multidão à subida ao Mosteiro de São Vicente de Fora e é a imagem deste santo, do século IV, cujos restos mortais foram trazidos para Lisboa por D. Afonso Henriques, que também passa a integrar o cortejo. Que segue então em direção às Portas do Sol e começa a descer a Rua do Limoeiro, parando logo a seguir à Igreja e Miradouro de Santa Luzia (à esquerda) para se concentrar na Igreja de Santiago Maior, no lado contrário da rua. É aí que a procissão fica completa, com o sexto andor, também este, como a maioria dos outros, "carregados por mulheres", destaca Clara Ferreira.

Cortejo completo, tempo de todos os santos ajudarem na descida até à Igreja de Santo António. E, quando isso acontecer, mais logo, pelas 19.00, pode ser que outra tradição, cheia de fé e convicção, se realize: no regresso da imagem de Santo António à sua igreja, há sempre quem afirme que assiste ao milagre do sol.

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