O Mike fez de Santa Isabel uma igreja a céu aberto

Michael Biberstein morreu antes de começar a sua maior obra: o teto da Igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique. Quase sete anos depois, a obra é inaugurada na terça-feira, numa cerimónia presidida por D. Manuel Clemente.

"Acha que o Miguel Ângelo era crente? Se calhar não era. E no entanto fez o teto da Capela Sistina", lança Julião Sarmento. Falávamos do seu amigo, e como ele artista plástico, Michael Biberstein (1948-2013), e do teto da Igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique. No final da habitual missa das sete, numa quarta-feira, quem entrasse veria todos os presentes - à exceção de duas pessoas ainda ajoelhadas - de cabeça inclinada para cima.

"É um céu, realmente é um céu, distante", dizia uma senhora para outra. Os andaimes, ali presentes desde novembro, finalmente haviam saído. Todos olhavam para aquele céu que seria a obra maior do pintor suíço-americano, e que acabou por ser a última. O Mike, como o tratam todos os que fazem parte desta história, morreu antes de pintar aquele teto, que projetou. Pintaram-no muitos por ele, como terá acontecido na Capela Sistina. Hoje, aquele é "o céu do Mike", que faz de Santa Isabel uma igreja a céu aberto, prodigiosamente pintado. A abóbada - aqueles agora 800 m2 pintados a 20 metros do chão - está terminada. Atrás do sacrário, está a maquete, essa sim ainda pintada por Biberstein.

Na terça-feira, o projeto Um Céu para Santa Isabel, que nasceu como um long shot há quase sete anos, será oficialmente inaugurado às 17.30. O cardeal-patriarca, D. Manuel Clemente, presidirá à missa. À sua frente, além de paroquianos e os demais que vierem, deverão estar todos os que pintaram aquele céu: a equipa da Factum com sede em Madrid, Londres e Milão; e outros, como Ana Nobre de Gusmão, viúva de Biberstein, que fizeram tudo, logo depois da morte deste, para que o céu viesse a existir.

A igreja antes da intervenção

A história começa em outubro de 2009. O pároco José Manuel Pereira de Almeida aponta para a cronologia de que nos socorremos e, num sorriso, diz: "Essa linha, que está com ar de grande formalidade, é tudo menos isso." Conta que na altura estava preocupado com a pedra da igreja. "Há um especialista inultrapassável em pedra em Portugal. Chama-se Nuno Proença. Esteve à frente do restauro da Torre de Belém, dos Jerónimos... Portanto, é menino desta envergadura. Combinámos que ele vinha aqui."

Nuno foi, e na terça-feira celebrar-se-á também o restauro das paredes da igreja. Limpando as cores do segundo registo da igreja e do coro alto, o céu e as paredes aparecem de forma "muito harmoniosa e natural, como se sempre tivesse sido assim", diz Nuno Proença, que comenta que ninguém, na equipa do projeto, "achou que iríamos encontrar-nos para pôr uma pintura de um artista contemporâneo no teto de uma igreja do século XVIII".

Depois, havia aquele teto, "que era assim azul e ficou um cinzento-escuro". Apareceu então o arquiteto João Appleton, e o seu irmão, Vasco. Há ainda um terceiro Appleton na história: Vera. Dirige a galeria Appleton Square e - "houve uma série de coincidências", haveria de dizer João muito mais à frente - nessa altura Michael Biberstein expunha lá Works on Paper. "Já várias vezes tinha estado na igreja a olhar lá para cima e a pensar: "Este teto tinha de ser pintado." E lembro-me de pensar: "Quem podia pintar isto? O Mike." Na altura o que lhe dissemos foi: 'Isto é um long shot'", recorda o arquiteto. Mike não conhecia a igreja, "achava que era uma capela". "Quando lá fomos, ele ficou a olhar para aquilo e dizia: obrigado..."

Michael Biberstein

Olhando para a pintura de Michael Biberstein, sobretudo na sua última fase, o céu aparece quase como consequência do que até ali ele tinha feito: céus - com algo do inglês William Turner - que foram nascendo em telas progressivamente maiores até aos dez metros de comprimento, como lembra Delfim Sardo ao DN. O curador relaciona este aspeto também com a corporalidade do pintor, homem de dois metros. Outra coincidência: Sardo, que em 2009 comissariava a Trienal de Arquitetura, convidara a Appleton Square para um projeto expositivo.

O Mike pintou então a maquete que seria exposta na galeria em 2010. Começavam as diligências: estudos, análises, procura de financiamento. Aparecem o BES, o BPI e alguns privados. Em janeiro de 2013 acontece uma conversa sobre o "céu" na galeria Cristina Guerra, que representa Biberstein, e que haveria de permanecer envolvida no projeto. Nesse ano foi feita a reparação superior da cobertura - telhas, algerozes, impermeabilizações. Depois, muito mais à frente, "seria feita a reparação da estrutura de madeira da abóbada pelo interior e criada uma estrutura em aço leve. Esta fixa uma camada de impermeabilização e suporta um teto falso que replica exatamente o desenho da abóbada superior", explica João Appleton. Sobre esse teto foi executada a pintura.

"O trabalho da vida dele"

A 5 de maio de 2013, Mike morre de acidente vascular cerebral súbito no Alandroal, onde vivia e trabalhava no monte da Fonte Santa com a sua mulher, a escritora Ana Nobre de Gusmão. "Íamos ter uma reunião, íamos discutir as bases da pintura", conta João Appleton, referindo que a morte do pintor "passou isto para outro patamar: muito mais caro [Mike trabalharia sem receber pela pintura do céu], as decisões muitíssimo mais complexas, e sempre diferente do que seria."

"Ganhou uma força, uma aura, indescritível", diz Vera. Ela que, a 30 de maio, quando a equipa da Factum já pousara os compressores com que pintara e se preparava para voltar a Madrid, foi a última a descer os dois andares de andaimes que, durante meses, permitiram uma proximidade àquele céu que dificilmente se repetirá. Terá ficado ali sozinha, a olhar em redor. Antes, dizia: "Chegou ao fim, a minha parte chegou ao fim. Está espetacular."

Foi Ana Nobre de Gusmão quem, logo no dia da cerimónia fúnebre, que embora não católica aconteceu na Igreja de Santa Isabel e em que falaram o pároco José Manuel e o curador Delfim Sardo, procurou a Vera e disse: "Temos de continuar, isto não pode parar." A escritora conta que, "nos últimos três anos, isto tornou-se o projeto principal para ele, ironicamente acabou por ser o último. Não seria o seu primeiro teto, ele pintou o de um castelo pequeno na Suíça, mas era uma escala muito mais pequena". Viveram juntos 34 anos, e foi Julião Sarmento, com quem Mike chegou a partilhar o ateliê, quem os apresentou e convidou Mike para vir a Portugal.

A propósito da pintura na igreja, Ana afirma que o marido "nunca se disse ateu, ele sempre disse que era agnóstico. Achava que havia uma energia, uma explicação, mas não o conceito de Deus". Dizia-se "profundamente espiritual". O padre José Manuel Pereira de Almeida descreve o pintor como "um homem inquieto". "É muito importante que a Igreja Católica não tenha só católicos a fazer arte na Igreja, se não é quase uma subcultura católica. Católico quer dizer universal, aberto, rasgado, sem fronteiras, não excluindo ninguém e dialogando", acrescenta o pároco. Antes ainda da pintura do teto, dizia: "Era bom que fosse um céu que falasse do outro céu, que nos fizesse viver essa paz que ele sentia quando vinha aqui. E acho que o projeto dele consegue fazer isso."

Joris Dalle, que trabalhou como assistente de Mike, arrepiou-se ao entrar na igreja, mesmo que nessa altura a pintura ainda não estivesse terminada. "Senti o traço dele, a mão dele." Iria trabalhar com Mike neste teto - "íamos acampar aqui". "Não diria que o Mike rezava, mas era muito espiritual, como artista e como homem. Deu muito valor à vida e este ia ser o trabalho da vida dele."

"Restauro de algo que não foi feito"

Com a morte de Michael, ficaram a maquete e alguns estudos. Estudos esses que poderão ser vistos a partir de hoje na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva na exposição Estudos para Um Céu, uma colaboração com a galeria de Michael em Paris, e outra dos participantes no projeto, a Galeria Jeanne Bucher Jaeger.

João Appleton chama ao que aconteceu "um restauro de algo que não chegou a ser feito". Adam Lowe, diretor da Factum, durante a sua visita à obra descrevia o projeto como "absolutamente mágico, porque não é uma ilustração de uma das suas obras, é como uma obra dele".

A equipa de quatro pintores, dirigida pelo espanhol Jordi García Pons, que acabara de pintar Natividade com São Francisco e São Lourenço, quadro de Caravaggio roubado em 1969, e assim devolvido ao Oratório de São Lourenço, em Palermo, diz que o trabalho do céu do Mike foi "bastante semelhante". "Tens de estudar o artista, ver como trabalha, imaginar como faz as coisas e ver as suas obras para perceber como resolve certos problemas." Depois, afirma, é como se fosse "um intérprete de música: a maquete seria uma partitura e tenho de interpretá-la". É o maior trabalho que já fez; inicialmente "esmagado" pela escala, disse que logo percebeu ser possível executar a pintura, feita com tinta acrílica maioritariamente através de compressores, e usando de vez em quando o pincel. O britânico Luke Caulfield, outro pintor, contava numa das visitas da equipa à obra - eram semanais - que trabalhar àquela escala era "como dançar, o corpo sempre a mexer, num movimento sempre circular".

A Santa Casa da Misericórdia, através de um protocolo assinado com aquela igreja em 2015, doou 222 mil euros, tornando-se assim financiadora de mais de metade da obra. Acrescem ainda o então BES, o BPI, e alguns doadores privados, como uma paroquiana, que doou 15 mil euros. A pintura foi parcialmente oferecida pela Factum Art Foundation.

O Mike dizia que a Igreja de Santa Isabel era "como uma pedra preciosa guardada dentro de uma caixa escura com uma sombria tampa cinzenta". Agora, a luz e o céu foram-lhes devolvidos, por ele e, em certa medida, para ele. E, quanto aos que acabaram por pintar aquele céu com o Mike, a missão está cumprida. "É um processo incrível, acho que vamos sentir falta. É daquelas coisas que nos fazem companhia durante tanto tempo...", termina João Appleton.

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