O maestro italiano que irá transportar a Sinfónica para o século XVIII

Violinista e maestro Riccardo Minasi, especialista em música barroca, fará dois diferentes programas no Salão Nobre do Teatro São Carlos, nos dias 19 e 21

Aos 38 anos, Riccardo Minasi é já uma grande figura da cena internacional da música antiga, bastando afirmar que foi em dezembro escolhido para titular da Orquestra do Mozarteum de Salzburgo!

Estará em Lisboa na próxima semana para dois concertos com um ensemble da Sinfónica Portuguesa. Será, aliás, uma ocasião especial para ele: após aparições como violinista-diretor (dirigindo a partir do violino, como era prática no século XVIII) na Casa da Música, em 2013, e no Festival da Póvoa de Varzim, em 2014, esta é a primeira vez que atua nessa qualidade em Lisboa.

"Os programas foram inteiramete escolhidos pelo Teatro - diz-nos a partir de Lyon, onde por estes dias dirigiu um programa Haydn/ Beethoven -, mas como é tudo música que amo muitíssimo, não houve qualquer problema". A obra em que será solista (dia 19) é o Concerto em sol M de Haydn: "Gravei-o muito recentemente com o ensemble Pomo d'Oro [de que foi co-fundador em 2012] e essa gravação já recebeu alguns prémios!"

É prudente quanto àquilo que pode "ensinar" aos músicos da Sinfónica: "Seria exagero afirmar que irei ensinar algo. É uma orquestra de teatro de ópera, logo terão grande versatilidade estilística. Mas irei sublinhar o quanto esta música beneficia de uma execução regida pela clareza, que deixe ouvir todas as vozes; e ao mesmo tempo, dar luz às várias situações emotivas que esta música cria a cada compasso", algo que relaciona com "um pathos e emotividade sempre relacionados com a gestualidade teatral". De resto, declara, "deixei de fazer grande distinção no trabalho que faço com orquestras de instrumentos modernos e com orquestras de instrumentos de época".

No domingo, 22, o violinista viaja para Castelo Branco, para um Circuito Violinístico do Maneirismo ao Barroco, feito ao lado do cravista João Paulo Janeiro, no que será uma espécie de blind date musical: "Não nos conhecemos, na verdade, mas ele contactou-me em Itália, fez-me esta proposta e eu aceitei. Tão simples quanto isso".

Fala assim o novo titular da mui ilustre Orquestra do Mozarteum de Salzburgo, guardiã máxima das tradições do Classicismo, a começar, claro está, por Mozart: "É uma enorme honra, claro. Salzburgo é uma cidade que se radica positivamente numa tradição, experiência e atividade musicais impressionantes! Além do famoso Festival, há uma imensidão de coisas ao longo do ano, razão por isso mais que suficiente para que qualquer músico se sinta fascinado e fique afeiçoado àquele sítio!"

Entre as suas obrigações enquanto titular contam-se: "seis concertos duplos na Fundação Mozarteum, que é um verdadeiro Museu de Mozart; dois concertos no Festspielhaus, concertos e récitas de ópera no Landestheater [o teatro lírico da cidade] e participação no Festival de Verão, além de papel de proa na Semana Mozart - agora no final de janeiro - e de projetos extraordinários, como levar a Orquestra em digressão e realização de gravações".

Muito trabalho, em suma, a somar a tudo quanto já faz no domínio da música antiga... e não só, pois também já dirigiu, em Lyon, a Carmen de Bizet! - "Olhe, diverti-me como uma criança nessa produção!", começa por comentar. Diz do seu trabalho que consistiu mais em "restaurar uma certa coerência nas relações entre os tempi relativos das várias secções da obra". E explica: "É que Bizet foi bastante minucioso nas indicações que deixou quanto à velocidade a que cada número deveria ser tocado, mas a tradição foi impondo interpretações demasiado subjetivas". Em obra "tão icónica" como esta, arriscou-se: "Sim, as reações dos críticos foram muito contrastadas: alguns detestaram, mesmo..."

Se há teatro onde se sente bem será Zurique, mas sem razão especial: "eles vão-me convidando e eu vou aceitando!", afirma com bonomia. E só até junho aceitou "um projeto Rossini/Donizetti/ Verdi, já agora em janeiro; o Don Giovanni [de Mozart]em março e o Orlando Paladino [de Haydn] em maio".

No que a gravações diz respeito, igual abundância se adivinha: "um recital com repertório italiano para violino e baixo-contínuo; dois discos de recital com cantores, cujos nomes não posso ainda revelar; a continuação da série dedicada a Carl Philipp Emanuel Bach com o Ensemble Resonanz; e o início de um projeto com a harmonia mundi francesa visando repertórios de outras épocas e mais inabituais".

concertos de câmara (Lisboa) e recital (Castelo Branco)

Riccardo Minasi, violino e direção musical, ensemble da Orquestra Sinfónica Portuguesa
dias 19 e 21, às 18.00, Salão Nobre do TNSC
obras de Mozart, Haydn, Haydn/Rosetti e Paisiello
bilhetes a 20 euros

dia 22, 18.00, Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco
recital com João Paulo Janeiro (cravo)
bilhetes a 5 euros

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

Premium

Adriano Moreira

A crise política da União Europeia

A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.