O insultuoso romance em que Paul Beatty esventra a América

O escritor Paul Beatty

"Graças à carreira do meu pai como encantador de pretos" é uma das frases provocadoras deste romance de Paul Beatty.

A relação com um romance novo nem sempre é pacífica e O Vendido, de Paul Beatty, é um desses casos. Começa bem, continua bem a acaba (quase) bem, mas há uma sensação sucessiva de estarmos a ser insultados. O livro é forte, a narrativa encontra-se no domínio do inesperado e as soluções ao nível da escrita são em quatro quintos do livro pouco imagináveis e com surpresas numa frequência constante. Mas há a questão de insulto, que está inerente ao romance.

Paul Beatty não é aquisição recente para a literatura norte-americana, mesmo que o facto de ser o primeiro "estrangeiro" a vencer a edição do Man Booker Prize de 2016 lhe tenha aberto as portas para os leitores da Europa, com traduções para vários países como é o caso da portuguesa pela Elsinore. No caso, uma tradução assinada por Rita Figueiredo, que deve ter tido uma vida difícil com tantas referências próprias a um problema rácico que o primeiro presidente afro-americano dos EUA, Barack Obama, e a sua administração mais abafaram do que resolveu e uma sociedade partida em "etnias" que a vitória de Trump explora ao máximo.

A trama de O Vendido, segundo se escreve no resumo da contracapa (evitar spoilers), é assim: um afro-americano criado no gueto agrário de Dickens, nos arredores de Los Angeles, decide restaurar a escravatura e dinamizar a segregação na sua terra, que de tão problemática foi erradicada do mapa dos Estados Unidos. Na capa, aponta-se que O Vendido é a sátira mais dilacerante dos últimos tempos. Está indicado o caminho ao leitor que folhear distraidamente o livro a partir desta terça-feira, quando chega às livrarias, slogans que chamam à leitura deste romance feito "à medida para o despontar do século XXI", como dizem.

Paul Beatty não é novo nisto da literatura e, portanto, não se meteu à escrita sem rechear de pormenores deliciosos a sua escrita, situações tão inesperadas como a inicial, a apresentação radical do protagonista ao fim de cinco anos de julgamento pelas más práticas atrás referidas e outras mais.

Existe um outro protagonista no livro, omnipresente, que é o pai. Um sociólogo pouco ortodoxo que atravessa todo o argumento do romance e faz o anti-"herói" ganhar uma dimensão extraordinária. Aliás, é o seu treino do filho o capítulo mais bem achado do livro, bem como aqueles que levam ao pai os que mais encerram cenários inesperados e despertam velocidade à leitura, visto que Me - o protagonista - é do mais vulgar que existe. Ou seja, o presente só se valoriza em função do passado.

Quanto ao passado que se debate neste romance é o da emancipação dos negros norte-americanos, processo para que o sociólogo tem explicações que são assassinadas a sangue-frio pelo vagabundo do filho, herdeiro de uma cultura de rappers e de estrelas de reality shows, que pouco faz pelo fim da desigualdade racial.

O modo como conhecemos este último é nos bancos de um tribunal, a que só se volta no final, e a sua descrição enforma sempre do insulto que o leitor sente face a tantas décadas de lutas de Malcom X, Rosa Parks ou Martin Luther. O filho está sempre mocado, despreza as mulheres com que fornica e destrói qualquer base de evolução social. Tal não obsta a que o autor insira uma enxurrada de confrontos que demonstram como a questão racial ainda está muito longe de ficar resolvida, designadamente junto de outras raças, através de uma brilhante intervenção literária, aquela que lhe terá decerto valido o prémio.

O Vendido

Paul Beatty

Editora Elsinore

316 páginas

PVP: 19,90 euros

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