"O governo só pode fazer uma coisa no Museu de Arte Antiga: avançar. Ou apanhar os cacos"

Almoço com António Filipe Pimentel

Enquanto atravessava as alas do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) para ir almoçar, António Filipe Pimentel pensou em como há seis anos os seus passos ecoavam no vazio do edifício devido à ausência de visitantes. Nos dias que correm, o diretor do museu público mais importante do país já não consegue fazer esse percurso sem se cruzar com várias pessoas e ouvir as conversas em surdina próprias de quem comenta as obras que observa.

No restaurante escolhido para o almoço, Pimentel tem de aumentar o tom de voz para se sobrepor às obras no prédio ao lado e às conversas animadas dos que vão à Brasserie de l"Entrecôte do Chiado. Tinha escolhido um outro local, mas a chuva obrigou a alterar os planos e a Brasserie é dos restaurantes aonde vai sempre com gosto. Assim deve ser, pois o empregado cumprimenta-o imediatamente.

Não está com muita fome e sugere dividir-se a dose de entrecôte e iniciar-se por uma salada de salmão marinado. Escolhe um vinho do Douro, que acompanha os patés de entrada. Sobremesa não, só café. A única exceção é o cigarro, prazer facilitado por estar na zona de fumadores - pedido feito logo ao combinar o almoço.

Vê-se que gosta bastante de falar e o que está no prato vai esfriando. Antes de se avançar para tópicos mais sérios comenta-se algumas situações recentes do MNAA, um museu que está sob o olhar nacional após ter realizado uma ação pública que deu que falar, a exposição de 31 réplicas de quadros nas ruas de Lisboa tão perfeitas que pareciam originais - alguns dos quais foram notícia por terem sido roubados -, e a bem-sucedida subscrição "popular" para a instituição adquirir o quadro A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira.

Ainda se comentam superstições populares, a inexistência de futebol na sua vida - no máximo, a Académica -, embora admita que vai "perder o apetite" se for obrigado a escolher a obra do acervo do MNAA caso só pudesse salvar uma: "Seria uma questão dramática, mas não hesito: os Painéis de São Vicente." Se pudesse adquirir quadros? "Rembrandt, Rubens e Vermeer."

Comida a salada, lança-se a primeira provocação. A operação de crowdfundig para adquirir o quadro de Domingos Sequeira é o ponto alto da sua carreira na direção de museus? Desta vez, Pimentel não divaga: "Espero bem que não, que o ponto alto da direção do Museu Nacional de Arte Antiga seja quando tiver finalmente condições de trabalho, ter autonomia e verificar-se a sua ampliação. Isso, sim, seria o ponto alto na minha carreira no museu." Para o diretor do MNAA, o "projeto do Sequeira foi um entre muitos", e desde logo avisa que não trabalhou "seis anos para chegar ao Sequeira, este é um incidente no percurso que tenta dar ao museu o protagonismo que deve ter em Lisboa e cumprir a missão que diz respeito a ser o primeiro museu nacional".

A adesão popular não surpreendeu Pimentel, pois considera-a fruto de um trabalho em equipa constante: "É uma consequência lógica do que temos vindo metodicamente a fazer nestes seis anos. Há uma reflexão estratégica que foi transposta para o dossiê MNAA 2020 e que tem metas, porque o momento que vivemos não acontece num ano. Encontrei uma instituição congelada em formol, que se sabia vagamente da existência, como a Torre do Tombo ou a Biblioteca Nacional de Portugal. Importante para os investigadores mas sem fazer parte do nosso lifestyle. A campanha do Sequeira veio demonstrar que os portugueses têm orgulho no museu e que não é uma vaga e pindérica instituição como a que estava para lá, subnutrida." Faz questão de referir o facto de ter posto o Estado de lado:

"Desde o princípio que não quis um cêntimo, para que a sua contribuição não deslustrasse o esforço de cidadania."

Em jeito de remate, o diretor do MNAA volta à pergunta: "Espero que o ponto alto da minha carreira, ou do meu serviço como gosto mais de dizer, seja garantir futuro ao museu. Nestes seis anos, até à tutela foi necessário explicar a importância deste equipamento. Vou no sexto titular da pasta da Cultura e sexto diretor-geral!"

Falando de autoridades, pergunta-se se a doação de 150 euros do Presidente da República não foi pequena. "Não", é a resposta imediata. "Foi ao museu entregar os seus 150 euros mas não era isso apenas o que lá ia fazer. Como cidadão deu uma verba simbólica, mas quem fez dobrar o cabo Bojador do crowdfunding foi a Casa de Bragança (de que foi administrador) com a doação de 35 mil euros. Principalmente, alertou para a necessidade do novo estatuto jurídico do MNAA quanto antes."

A partir deste momento, chega a hora de questionar diretamente António Filipe Pimentel sobre o seu braço-de-ferro com o Ministério da Cultura em relação à tão pretendida autonomia do MNAA. O Presidente está do seu lado? Resposta: "Está, completamente." Quanto ao braço-de-ferro, o diretor garante que não existe. Mas por três vezes irá fazer afirmações nesse sentido.

A primeira: "É o país que precisa de estar confrontado com uma decisão de fundo sobre se quer posicionar-se internacionalmente no pequeno círculo dos países que tem grandes museus ou se prefere ter um parque temático do género da Disneylândia."

A segunda: "Não faço pressão, o museu não é meu. Limitei-me a aceitar um desafio louco durante estes seis anos. A opinião do cidadão António Filipe Pimentel não interessa, a tutela é que tem de saber se está interessada em ter um equipamento desta natureza ou não. Aqui chegados é o momento da mudança. Ou muda ou obviamente não ficarei eternamente."

A terceira: "Se houver uma elementar lucidez política, serão dadas condições mínimas de trabalho ao museu. Alguém tem de tomar esta decisão política, eu já fiz a parte técnica."

Então a sua saída é para breve é a pergunta que se segue. Pimentel argumenta: "Não é isso que penso, vivo um dia de cada vez. Foi demonstrado que, a partir de aqui, ou isto tem sentido ou não. Não faço tenções de ficar a correr como os hamsters na roda." No entanto, o desabafo posterior é perturbador: "O museu posicionou-se, mesmo que não tivesse de ser ele a fazer o trabalho. Neste momento, o governo só pode fazer uma de duas coisas: numa decisão que será universalmente saudada, avançar com coragem ou apanhar os cacos. Lealmente, avisei tanto o ministro João Soares como agora Luís Filipe Castro Mendes. Tanto mais que este ministro sabe o que é a gestão de um equipamento desta natureza, o que é bom porque está nas suas mãos o processo de decisão. Portanto, tem todas as condições, só lhe podem faltar as condições políticas."

Com o avançar da hora, o ruído das conversas na Brasserie diminui e já se pode falar mais à vontade. Recorda-se que em tempos sugeriu a mudança de instalações, que esclarece ser uma situação que já não está sobre a mesa: "A Câmara de Lisboa tornou-se agora aliada do museu por precisar que o museu cumpra um papel-chave na gestão da frente ribeirinha na Avenida 24 de Julho, permitindo que se possa crescer, haja estacionamento e acessibilidade."

Prefere a privatização? "Não, já mostrámos o que podemos fazer. Quando recebi o museu ele tinha dez salas no piso 3 fechadas e toda a ala da Capela das Albertas e salas adjacentes. Isso acabou."

Não se pode deixar de falar no Caso Crivelli, o quadro que saiu de Portugal e que tanta polémica tem gerado: "Dificilmente voltará, creio. Depende da gestão que o Ministério fizer do assunto, porque fez-se o pior ao deixá-lo sair. Em todo o caso, existe um espaço de manobra porque quem o comprou também não está confortável no litígio internacional e não o pode apresentar em público. Isso exigirá capacidade do Estado para o adquirir. O que é estranho, pois Espanha está a viver uma crise e acaba de adquirir por 18 milhões um Fra Angelico para o Museu do Prado. E o governo italiano aumentou em 27% o orçamento do Ministério da Cultura."

Em jeito de despedida, ainda recorda o convite da ministra Gabriela Canavilhas para ser diretor do MNAA: "Evitei fazer a pergunta sobre os meios, porque iria dizer-me que não havia e eu teria de lhe perguntar se era uma partida para os apanhados."

Brasserie de L"Entrecôte
Couvert 2,30
Seleção patés 3,75
Saladas 9,80
Entrecôte 25,50
Vinho vale de cavalos 21,10
Cafés 3,20
Total: 65,65 euros

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