O futuro de Blade Runner é igual ao nosso presente?

Chega hoje às salas a muito aguardada sequela do clássico "Blade Runner". No novo filme, dirigido pelo canadiano Denis Villeneuve, Ryan Gosling é o herdeiro de Harrison Ford.

Nas últimas décadas, habituámo-nos a desconfiar das sequelas cinematográficas. Sobretudo por causa dos produtos dos estúdios Marvel, a sequela tornou-se uma monótona rotina, com super-heróis a destruir arranha-céus e bandas sonoras saturadas de ruídos ensurdecedores... Pois bem, valeu a pena esperar pela suprema ironia: uma das incontornáveis novidades da nova temporada e, por certo, um dos grandes filmes de 2017 é uma sequela - passados 35 anos sobre o original, chegou Blade Runner 2049 (estreia esta quinta-feira, 5 de outubro).

Convém separar as águas. Blade Runner, o filme que o inglês Ridley Scott lançou em 1982, três anos passados sobre o impacto do seu Alien - O 8.º Passageiro, está longe de poder ser considerado uma típica aventura de ficção científica. Adaptando um romance de Philip K. Dick (Do Androids Dream of Electric Sheep?), dir-se-ia que Scott criou um território à parte no interior da própria ficção científica, na altura dominada pela saga Star Wars (de que já tinham surgido os dois primeiros títulos).

Pelo tema da relação dos humanos com os replicantes e, sobretudo, pelo seu sofisticado visual, o primeiro Blade Runner tornou-se uma matriz continuamente copiada mas, de facto, nunca repetida; na altura, o seu impacto comercial foi apenas mediano, embora com o passar dos anos se tenha transformado em objeto de culto.

A primeira e essencial virtude do novo filme, realizado pelo canadiano Denis Villeneuve (cujo título anterior foi Arrival/O Primeiro Encontro) decorre do seu genuíno espírito de sequela: não se trata de "repetir" o original, mas de assumir a herança do seu negrume narrativo e também do seu espírito filosófico. Ponto certamente importante: Hampton Fancher, argumentista do primeiro, regressa desta vez em associação com Michael Greene.

Encontro com Harrison Ford

Deparamos, assim, com o mesmo dramático conflito, agora centrado na odisseia de um blade runner interpretado por Ryan Gosling. O enquadramento empresarial do seu trabalho não é exatamente o mesmo do primeiro filme, mas a missão permanece: encontrar e "reformar" os replicantes, esses humanoides que, desafiando o equilíbrio entre homens e máquinas, podem ser as sementes (o simbolismo da palavra não se perdeu nesta sequela) de uma nova ordem social.

Como já sabíamos através da promoção de Blade Runner 2049, Gosling irá encontrar Harrison Ford, o blade runner Rick Deckard que conhecemos do filme de 1982. Não será tanto uma passagem de testemunho, mas mais o desenho de uma genealogia cujo enigma central está por decifrar.

O essencial decorre da sensação crescente, porventura ainda mais intensa do que no primeiro filme, de que a "reforma" dos replicantes deixou de ser a mera aplicação de uma lei humana, ilustrando antes uma angustiada interrogação: até que ponto todas as personagens pertencem já a um mundo onde a fronteira entre humanos e replicantes se tornou definitivamente instável? Pormenor sintomático: Gosling dá pelo nome de K, por certo herdando o fantasma de Josef K., o "herói" de todas as alienações, inventado há um século por Franz Kafka.

Em boa verdade, este é um mundo de hipóteses fantasmáticas. A saber: a transformação da organização económica em sistema policial, o triunfo das máquinas sobre a vulnerabilidade humana, enfim, a redução do amor à instrumentalização do sexo. Moral da história: o futuro está demasiado próximo dos medos do nosso presente.

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