O funeral da editora Amor Fúria será uma festa

Após nove anos de atividade, a editora musical fecha as portas. Manuel Fúria explica o que vai acontecer no funeral na segunda-feira: um concerto com alguns músicos da Amor Fúria no MusicBox, em Lisboa

A morte oficial já aconteceu mas o funeral está previsto para segunda-feira e vai acontecer no palco do Musicbox, em Lisboa. Ali vão juntar-se alguns dos músicos que ao longo dos últimos nove anos estiveram ligados à editora Amor Fúria. "Montámos uma espécie de super-banda que intitulámos Real Orquestra do Campo Grande e vamos interpretar os grandes êxitos da editora", explica Manuel Fúria, o fundador, agora convertido em agente testamentário da Amor Fúria. A noite termina com Gonçalo Mendonça, Rui Pregal da Cunha e Pedro Ramos a animarem a pista de dança. "Tudo isto embrulhado no imaginário do funeral", avisa. Pede-se roupa escura, a preceito, preferencialmente casaco e gravata para eles, rendas negras para elas.

"Vamos aproveitar para fazer mais um espetáculo, para que este ato de morrer seja uma festa. Mais uma razão para estarmos todos juntos. É isso que os funerais são. O funeral é para celebrar e homenagear aquele que morreu, é um ritual de comunidade e também de esperança." No discurso de Manuel Fúria há um toque de tristeza mas não muito acentuada. Depois da morte, virá a ressurreição, acredita. Seja sob que forma for.

A Amor Fúria surgiu na sequência dos 400 Golpes que era banda que agora é conhecida apenas como Os Golpes. "Eu andava a tentar criar um imaginário forte para a banda e percebi que faria sentido que a editora que albergasse os eventuais discos dos 400 Golpes também tivesse um imaginário forte, em vez de ser uma editora sem cara. Comecei a pensar como é que poderia ser essa casa e fazer sentido também para outros artistas."

Ouça Vá Lá Senhora, um dos temas mais conhecidos de Os Golpes:

A Amor Fúria nasceu em 2007. Para criar uma editora é preciso apenas, segundo Manuel Fúria, "vontade, alguma lata e ter ideias fortes em relação àquilo que se quer", ou seja, ter um critério editorial. No manifesto que escreveu, nesse princípio de atividade, Manuel afirmava a vontade de "reconciliar a língua portuguesa com os códigos pop-rock" e de "acrescentar ao cancioneiro popular português". "Também dizia que queríamos trabalhar com projetos e artistas que não quisessem fingir que são de Nova Iorque ou de Londres, que assumissem os seus bairros, os sítios de onde são e as suas próprias idiossincrasias", lembra o músico.

E também se inspiraram na frase do Padre António Vieira: "para nascer, Portugal; para morrer, o mundo". Ou seja: "Para dizermos alguma coisa que seja verdadeira, e que seja verdadeira para um holandês ou para um japonês, primeiro o meu vizinho tem que perceber o que estou a dizer."

Naquela altura, havia outros coletivos editoriais, como a Flor Caveira e a Catadupa (que já não existe) com que a Amor Fúria trabalhou muito. "Criou-se uma espécie de vibração, de coisas a acontecerem, bandas a tocar. Não era só editar discos. Organizávamos concertos, fazíamos festas. As bandas que editávamos eram de pessoas mais ou menos próximas, outras que descobrimos e outras que inventámos." Os Velhos, Tiago Lacrau, Feromona, Os Capitães da Areia, Pedro Lucas, Os Quais são alguns dos nomes associados à Amor Fúria (os discos do catálogo estão à venda "a preços simpáticos" na loja de discos Flur, em Lisboa).

Ouça Dezassete Anos, de Os Capitães da Areia:

Ter uma editora não é um bom negócio e essa é uma das "causas naturais da morte da Amor Fúria", após nove anos de atividade. "É comum isto acontecer a este tipo de projetos, mesmo quando os discos eram um negócio." Pior ainda neste momento. Manuel Fúria admite alguma frustração por, nos últimos anos, o ritmo editorial já não corresponder às suas exigências, e pela incapacidade de renovação do catálogo. Faltou o dinheiro, faltaram também a "energia, entusiasmo e disponibilidade". Assim, decidiram anunciar o fim, em vez de deixar o projeto morrer lentamente.

"O meu gosto por estar no contexto da cultura pop, de acompanhar bandas, de pensar discos, de organizar concertos, isso vai continuar", garante. E, feito funeral e o luto da Amor Fúria, Manuel vai colocar as suas energias no seu próximo disco, com os Náufragos, a lançar no próximo ano. Resta saber por qual editora.

Este é 20.000 Naves, de Manuel Fúria e os Náufragos, o segundo single do álbum que está prestes a sair:

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