O filme maldito para o governo perde corrida ao Óscar no Brasil

Aquarius, cujo realizador e atores protestaram contra o impeachment, perdeu nomeação para Pequeno Segredo.

Aquarius não será o pré-candidato ao Óscar de melhor filme estrangeiro de 2017, anunciou na noite de segunda-feira na Cinemateca de São Paulo o júri formado pelo Ministério da Cultura do governo liderado pelo novo presidente Michel Temer, do PMDB. A notícia adensou a suspeição de interferência política na escolha. O eleito foi Pequeno Segredo, ainda por estrear no Brasil.

O jornalista do Estado de S. Paulo, Luiz Carlos Merten, classificou o momento do anúncio de "constrangedor". "O presidente do júri, o cineasta Bruno Barreto, alegou um compromisso e abandonou rapidamente a Cinemateca", descreve. Acabou por ser o produtor Beto Rodrigues, rodeado por apenas quatro dos oito jurados, a fazer a breve comunicação.

A escolha para a vaga de melhor filme estrangeiro saiu do âmbito artístico para entrar no político. A produção de Aquarius, do realizador Kléber Mendonça Filho, mesmo atraindo 200 mil espectadores na primeira semana de exibição e conquistado a preferência da crítica, temia que o filme fosse perseguido depois do protesto da sua equipa contra a destituição de Dilma Rousseff, do PT, nas escadarias do Festival de Cannes, em maio. Primeiro, pela indicação etária "para maiores de 18", entretanto substituída por "para maiores de 16", que prejudicaria a bilheteira, e depois pela escolha para o júri de um jornalista que criticara o protesto.

Na sequência da controvérsia, dois dos integrantes da comissão demitiram-se e, em solidariedade com Aquarius, três dos filmes pré-selecionados, entre os quais o de Anna Muylaert, a realizadora de Que Horas Ela Volta?, o escolhido de 2015, retiraram-se da corrida.

Para o crítico do jornal O Estado de S. Paulo, Luiz Zanin Oricchio, "ao promover um protesto contra o impeachment no tapete vermelho de Cannes em maio, Mendonça e a sua equipa escolheram um lado (...) por enquanto, Aquarius é o filme "contra o golpe", adotado por quem pensa da mesma maneira, e, claro, execrado por quem tem opinião contrária".

A comissão justificou a escolha de Pequeno Segredo com base em dois critérios: além do artístico, também o de que se adequaria melhor ao gosto da Academia de Hollywood. David Schürmann, realizador da obra escolhida, concorda: "Aquarius tem a cara de Cannes, mas o meu filme tem a cara dos Óscares". Quem já viu, como o crítico do Folha de S. Paulo, Alcino Leite Neto, no entanto, considera-o "um oceano de clichés, dos piores filmes brasileiros recentes".

Pequeno Segredo narra a história da irmã adotiva do realizador, portadora de HIV. Aquarius, com a participação de Sônia Braga, conta a luta da protagonista contra o mercado imobiliário.

Os cinco escolhidos da Academia para a nomeação final serão conhecidos a 24 de janeiro. O Brasil nunca venceu nenhum Óscar.

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