O filme de Wei Wei para conhecer o drama dos refugiados

Ai Wei Wei viajou por mais de 20 países para dar conta de um problema atual: Refugiados é o confronto com um drama global.

O artista chinês Ai Wei Wei decidiu fazer um documentário sobre o drama global dos refugiados, agora lançado no mercado português, precisamente com o título Refugiados. Vale a pena referir que, no original, o filme se chama Human Flow. E é disso mesmo que se trata: dar a conhecer os movimentos globais dos muitos milhões de pessoas que tentam escapar à violência de conflitos armados e formas brutais de repressão.

Ai Wei Wei viajou por mais de duas dezenas de países, de Itália ao Quénia, do campo de refugiados em Calais até à fronteira entre México e EUA... Poderá, talvez, dizer-se que o filme perde consistência e pertinência pelo facto de nem sempre conseguir condensar o mínimo de informações suscetíveis de nos fazer compreender a complexidade das situações expostas (mesmo tendo a duração de 140 minutos). Ainda assim, importa sublinhar a energia de reportagem que marca muitos momentos registados pela equipa de Ai Wei Wei.

Sabemos que, hoje em dia, no universo das imagens e sons, muitas destas situações são tratadas em peças televisivas de breves minutos. Para além do maior ou menor cuidado narrativo, há que reconhecer que, na maior parte dos casos, elas nos dão uma perspetiva esquemática sobre os problemas (quase sempre condensada numa voz dominadora), alheando-se da vida que, realmente, se vive nos campos de refugiados. Refugiados consegue, pelo menos, expor-nos alguns momentos emblemáticos dessa vida através de mecanismos genuinamente cinematográficos. A saber: mostrar a dimensão física dos espaços e fazer-nos sentir a duração concreta de muitas ações que lá se vivem. A utilização de entrevistas com personalidades empenhadas em enfrentar o drama do global dos refugiados acrescenta informações pertinentes. Mas é a verdade dos lugares e dos gestos que nos fica na memória, quer dizer, a sua vibração humana.

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João Gobern

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Ganha-se balanço para o livro - Espaço para Sonhar, coassinado por David Lynch e Kristine McKenna, ed. Elsinore - em nome das melhores recordações, como Blue Velvet (Veludo Azul) ou Mulholland Drive, como essa singular série de TV, com princípio e sempre sem fim, que é Twin Peaks. Ou até em função de "objetos" estranhos e ainda à procura de descodificação definitiva, como Eraserhead ou Inland Empire, manifestos da peculiaridade do cineasta e criador biografado. Um dos primeiros elogios que ganha corpo é de que este longo percurso, dividido entre o relato clássico construído sobretudo a partir de entrevistas a terceiros próximos e envolvidos, por um lado, e as memórias do próprio David Lynch, por outro, nunca se torna pesado, fastidioso ou redundante - algo que merece ser sublinhado se pensarmos que se trata de um volume de 700 páginas, que acompanha o "visado" desde a infância até aos dias de hoje.