O espetáculo começou. Com festa na rua, mensagens #metoo e "Fuego" no palco

"Sonho de uma vida" para um espanhol, tradição para um casal inglês, a Eurovisão trouxe 27 mil estrangeiros a Lisboa. Cantaram 19 na primeira semifinal, apenas dez passaram à final

"É o sonho de uma vida". Assim, sem hesitação, descreve Ruben Piqueras, de Alicante, o que é viver a Eurovisão pela primeira vez. A proximidade com Portugal trouxe a oportunidade e ontem, ao fim da tarde, de bandeira espanhola ao pescoço, era um dos muitos que esperava a sua vez para entrar no Altice Arena, em Lisboa, e assistir à primeira semifinal do concurso de onde saíram os primeiros 10 países a juntar-se a Portugal, Espanha, Itália, França, Alemanha e Reino Unido.

"A Eurovisão é uma forma de vida", continua Ruben, fã garantindo que apoia Espanha. As muitas bandeiras dos 43 países que concorrem, os suíços de fato encarnado e camisa branca, as calças estampadas com os corações da Eurovisão com as bandeiras, os casacos com a mira técnica e os pins de cada um dos países que participaram na semifinal de ontem no casaco de Rebecca Williamson comprovam-no.

"Desde Malmo que vamos à Eurovisão, só não estivemos em Kiev [2017]", afirma apontando para a saia onde estão estampados os nomes de todas as cidades que visitou. A história simples, conta Rebecca ao lado do marido, Matthew. "Começámos a ver e a gostar em 2011. Em 2012 demos uma festa em casa e ele [o marido] prometeu levar-nos à Suécia". "Eu estava bêbedo", desculpa-se, contando logo a seguir que a paixão pela Eurovisão vai ao ponto de seguirem todos as seleções nacionais, com o irmão, Thomas, e Kevin O" Donnell, que se juntam à conversa. "O Reino Unido já está na final, escolhemos apoiar outra canção", dizem. Estão entre o Monsters, da finlandesa Saara Aalto, e La Forza, da Estónia.

O fogo de Eleni Foureira e os trunfos de última hora

A canção de Elina Nechayeva tem vindo a fazer uma escalada segura pelo top dos 10 preferidos do Eurovision World e entre os fãs e bloggers dedicados à Eurovisão é uma das mais comentadas e foi ganhando visibilidade á medida que os ensaios da última semana decorriam, à semelhança do que aconteceu com a grega Eleni Foureira. Com o seu Fuego, a artista pode levar a Eurovisão para o Chipre pela primeira vez. Ontem, também pela primeira vez, chegou ao lugar número 1 nas apostas. A atuação na semifinal confirmou favoritismo com uma coreografia sem falhas. Troy Cafferky, canadiano, com o telemóvel a passar a canção do Chipre, explica ao DN as razões da escalada do Chipre. "A preferida era a Jessica Mauboy [Austrália], mas depois de ver a performance de Eleni Foureira, sou Fuego".

Após dois ensaios oficiais e vários ensaios gerais, dois deles com público, na segunda-feira, ainda havia trunfos escondidos na manga. A belga Sennek introduziu dramatismo à sua Matter of Time com a mão a esconder-lhe o rosto. Franka, da Croácia, interpretou Crazy com um momento falado. A maioria, porém, preferiu ficar-se pelo guião, caso de Netta, com o seu hino de empoderamento feminino Toy, com umas das atuações mais coloridas da noite e apoio massivo na audiência.

Gal Lavi, Mich Kowalski e Yaron Alon, colegas da universidade, estão a estrear-se na Eurovisão e estão a dar tudo no visual, com brilhos, óculos excêntricos e t-shirts "I"m not your toy" (não sou o teu brinquedo), como no refrão de Netta. À medida que se aproximam da entrada vão saudando outros israelitas que vão fazendo fila para entrar na Altice Arena. Não conheciam a artista, antes da cantora ganhar um concurso de talentos local. Mas agora conhecem as suas bailarinas, a quem desejam boa atuação, quando se cruzam. E são eles também que apresentam ao DN Bella Medallie, a mãe de Doron Madalie que compôs Toy com Stav Beger. "É a terceira canção que ele leva à Eurovisão". "E também canções para Eleni Foureira", afirma, desvalorizando a competição entre países. Para ela, há outra razão para apoiar Netta. "Está na hora de levarmos a Eurovisão para Israel no nosso 70º aniversário". Dana International, com Diva, foi a última vitória, em 1998.

Show para famílias

No primeiro espetáculo do dia - que funcionou como último ensaio geral antes da transmissão televisiva da primeira semifinal - não houve grandes concentrações ou confusão na entrada. Sem o pavilhão esgotado para o primeiro family show, como são conhecidos os ensaios que acontecem na tarde que antecede as duas semifinais e a final, a chegada à Altice Arena foi feita de forma calma. Com exceção de algumas bandeiras, mal se percebia pelo exterior que estavam prestes a assistir a uma semifinal da Eurovisão.

Entre eles estavam, naturalmente, grandes fãs do espetáculo. Como é o caso do finlandês Resto Puustinen. "Estas são as minhas férias de verão. Doze dias em Portugal para ver a Eurovisão e depois cinco na Suíça", conta antes de entrar para a Altice Arena. Durante as férias, já teve oportunidade para ver o Porto, mas tem estado sobretudo na capital a preparar-se para a Eurovisão. Vai assistir ao ensaio da tarde e à semifinal à noite. Elogia a cidade e o bom tempo, mas queixa-se do tamanho do fan cafe: "É demasiado pequeno, os espetáculos ainda não começaram e já estão cheios. Não estão preparados para receber todas as pessoas."

Opinião diferente tem Maria Costa: "Quando fazemos as coisas, fazemos bem feito. É pena não termos oportunidade de mostrar mais vezes que sabemos fazer as coisas." Maria, que esperava por este momento há 62 anos, veio com o filho, Rafael, de Tomar. Com eles veio o amigo João Serra, que vive em Lisboa.

O espetáculo continua amanhã com o espetáculo de júri da segunda semifinal, concerto para famílias na quinta à tarde e semifinal na quinta-feira, com mais 18 países a concurso. A final é no sábado.

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