O escritório de Ferreira de Castro

Mário Cláudio estreia-se no DN e escreve sobre Ferreira de Castro.

O cavalheiro que todos os anos, e ao longo da década de sessenta, ocupava a mesa ao fundo do comedor do Hotel das Termas, o único das Caldas das Taipas, oferecia aos respectivos hóspedes uma identidade que sem dúvida os honrava. Quem não o reconhecesse poderia tomá-lo por um despachante da alfândega na reforma, e se se desse o caso de lhe ouvir o sotaque aqui e além abrasileirado, por um derradeiro representante da raça dos torna-viagem que Camilo Castelo Branco caricaturara. Mas naquele estabelecimento, obsoleto já por essa época, e maioritariamente frequentado por casais idosos, e por solteironas em fim de carreira, o festejadíssimo Ferreira de Castro constituía uma presença indispensável.

Vestido com muita formalidade, e sempre de colete apesar do calor, sentava-se sozinho ao almoço, de jornal desdobrado diante dos olhos, e espremendo sobre o que quer que lhe servissem as metades de limão que pontualmente lhe colocavam num pires. Parecia um velho triste, mas compadecido da condição humana, o que de resto se evidenciava de quando em quando, ao confessar ele a curiosidade com que lia as necrologias, registando o júbilo que lhe suscitava a notória subida da média etária dos falecidos. Ao jantar apresentava-se mais aprumado, e sem jornal, mas ainda fumando antes e depois dos dois pratos do costume. Acompanhavam-no então uma senhora loira que constava ser poetisa nas horas vagas, e que exercia as funções de secretária do escritor, e uma volumosa matrona, de luto impecável, que patentemente desempenhava o ingrato papel de pau-de-cabeleira. Homem casado, e pai de uma menina, o ficcionista Ferreira de Castro vivia por sistema em unidades hoteleiras, mas inserindo--se na categoria dos "cidadãos verticais", intransigentemente observantes da respeitabilidade que a ordem social exigia.

E o pós-adolescente que eu era, se bem que familiarizado com a obra do mestre, e tendo escolhido A Lã e a Neve, e o prefácio à Eternidade, como seus momentos superlativos, via naquele senhor uma espécie de símbolo de uma arte ambicionada, e inventava-lhe um dia-a-dia de incansável labuta nas letras, metido no quarto do dito Hotel das Termas, improvisado em oficina de feiticeiro. A medo, e nas noites de lua cheia, incorporava-me entretanto no grupo dos aquistas que, guiados por ele, empreendiam vagarosas passeatas, escutando-o a cantar dolentes modinhas sertanejas, e a declamar os requebrados poemas de Catulo da Paixão Cearense. Não raro enveredando nessas ocasiões por alguma confidência, o reverenciado narrador dos infortúnios das classes trabalhadoras iria ao ponto certa vez de despeitorar connosco a sua angústia, e a tentação que o assaltara, aquando de um doloroso internamento no hospital da CUF, de sumariamente pôr termo à existência.

Mais tarde, e com a ligeireza característica do romancista que se acredita "feito", principiaria eu a considerar Ferreira de Castro como o "bota-de-elástico" recorrente na auto-suficiência dos novatos. Pois não se afirmava que escrevia mal, distraindo-se em risíveis possessivos como "o cão abanava a sua cauda"? E não ironizara um colega seu, esse sim, admirável estilista, que o nosso autor, traduzido em inúmeras línguas, e viajando à volta do planeta a soldo de grandes periódicos cosmopolitas, prefigurava muito mais "um escritório" do que "um escritor"? No entanto, e repare-se na miserável duplicidade, acabaria por lhe enviar, ornamentado com a florida dedicatória da praxe, o primeiro livro impresso que me saíra das mãos. E graças à generosidade de Ferreira de Castro, a cuja produção literária, e publicamente, andava a torcer o nariz com outros da minha laia, ser-me-ia proporcionada uma inteira semana de alegrias. O prosador de A Selva detectara com efeito aquilo que logo se empenharia em exarar em carta, que anunciavam os versinhos do seu jovem seguidor "uma aurora largamente promissora".

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