"O Ernesto ainda não é aceite de forma aberta"

A galeria Quadrado Azul, em Lisboa, mostra mais de 20 provas de contacto de Ernesto de Sousa, artista pioneiro

Fotógrafo, cineasta, crítico, curador, pioneiro em muito do que fez, do cineclubismo à organização de happenings ou às técnicas que usou (e misturou). A conversa sobre Ernesto de Sousa (1921-1988) tem de andar sempre à velocidade que era a sua: "Com o Ernesto as coisas passavam-se sempre a 200 à hora", conta Isabel Alves, a sua viúva. Falávamos a propósito das 22 obras do artista expostas até 11 de novembro na galeria Quadrado Azul, em Lisboa: 21 provas de contacto de 1972 a 1980, e a série Olympia, com 41 imagens e um poema. Pedimos-lhe que identifique aquelas figuras humanas, mas Isabel escusa-se. Ernesto não o quis fazer, justifica. As provas são "tiradas do negativo e feitas analogicamente, como o Ernesto fazia".

Uma das provas mostra a artista Helena Almeida. Ali não há equívocos. Isabel segura depois n"A Fuga das Ninfas. "Acho que esta é icónica." Passamos por outra que mostra um coreto. "Vou-lhe contar uma história. Ele disse-me: "Temos de ir a Caneças à hora de almoço." Fomos. Fez as 36 fotografias e voltámos. Estava sempre em movimento."

Isabel - "amor à primeira vista com Ernesto", ela com 22 anos, ele com 44 - conta mais uma história. Anos 70. Numa conferência em Belgrado, Ernesto de Sousa falaria depois da comunicação do teórico Abraham Moles. Os alunos de Artes quiseram contestar o primeiro. Não havia tempo: era preciso passar a palavra a Ernesto de Sousa. Este, porém, abdicaria dela para a ceder aos estudantes. Entre eles: Marina Abramovic. Voltariam a encontrar-se várias vezes depois. Num vídeo chamado "Marina Abramovic meet Ernesto de Sousa", a artista recorda a "infindável curiosidade" do artista português, "por tudo o que estava a acontecer; ele estava na hora certa no lugar certo". E a afirmação ganha substância quando ouvimos as histórias de Isabel.

"Em 1966/67 nós íamos quase todas as noites a Letras, a Medicina, às universidades todas. Ele falava. Ou era sobre o papel da mulher, ou sobre isto e aquilo. Acho que foi importantíssimo para o derrube da ditadura." Como? "A ensinar os outros a libertarem-se, a serem livres, a resistir. Através da qualidade, sempre. Dizia sempre: "Extremo rigor em tudo, em tudo o que fazes.""

Conta que Ernesto "queria transformar o país, amava profundamente Portugal". O seu filme Dom Roberto, que ganhou o Prémio da Jovem Crítica do Festival de Cannes - a caminho do qual seria preso pela PIDE - em 1963, valeu-lhe vários convites para ficar em Paris, onde viveu entre 1949 e 1952. Ele recusou. Em 1977 assinava a curadoria da polémica exposição Alternativa Zero, escolhendo ou encomendando obras a Alberto Carneiro, Jorge Pinheiro, ou Helena Almeida. Nela atuou a vanguardista companhia norte-americana Living Theatre pela primeira vez no país. "O Ernesto ainda não é aceite de forma aberta e unânime. Porque ele questionava tudo", lança Isabel.

Três anos antes de morrer, pintou a sua primeira tela para a exposição 10 Quadros para o Ano 2000, organizada por Leonel Moura. Ele que fabricara cores no curso de Físico-Química, abandonando-o no último ano. Claro que na tela, conta Isabel, estava "uma tela branca, pequenina, para projeções". Ele que fabricara cores no curso de Físico-Química, que só abandonou no último ano. Quando morreu, trabalhava no projeto Aldeia Global, usando material informático e a criação em rede. Se cá estivesse, diz Isabel, estaria "a acompanhar tudo de certeza, a ter ideias".

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Anselmo Borges

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