O dia do 8 e do 80, das filas, da chuva e da música pop

Eram esperadas 85 mil pessoas no Rock in Rio e cobriram todo o espaço disponível. Houve chuva e filas longas para tudo. Do cachorro, ao WC passando pelo sofá de plástico. O primeiro-ministro também lá esteve.

O dia em que mais pessoas foram ao Rock in Rio, o dia em que nem o primeiro-ministro António Costa quis falhar e apareceu pela tenda VIP, o dia em que houve filas para comer ou comprar uma camisola, e em que nem as casas de banho inteligentes valeram. Foi o dia de esperar duas horas e meia por um sofá de plástico que ainda havia de servir de guarda-chuva no concerto dos D.A.M.A. Ontem foi o dia em que o parque da Bela Vista encheu. Em que era quase impossível vislumbrar um pouco de chão. Em que viram mais velhos e crianças, anónimos e famosos (o ator Jorge Corrula a empurrar o carrinho com a filha, com a mulher, Paula Lobo Antunes), das famílias e dos grupos de amigos e dos adolescentes.

Ontem foi o dia de vestir para ir ao festival e para algumas pessoas fazer de conta era Coachella, o festival norte-americano conhecido por ditar tendências de moda no que diz respeito aos festivais de música: Pôr os jeans justos, as túnicas esvoaçantes, arriscar com t-shirts com brilhos. Foi o dia de usar coroas de flores e tranças no cabelo e o dia em que os ténis de marca reconhecida pelas suas três listas estiveram em maioria.

Sábado foi o dia para dançar como Mick Jagger, ao som dos Maroon 5, os cabeça de cartaz, foi o dia de D.A.M.A e de uma espécie de serenata à chuva, que acompanhou parte do concerto. Foi também o dia em que Ivete Sangalo cantou e em que foi confirmada a oitava edição portuguesa do Rock in Rio, em 2018. Se ela não vier para tirar o pé do chão, será inédito. A baiana tem estado em todas.

As 85 mil pessoas esperadas eram uma estimativa da organização, por confirmar à hora do fecho desta edição, mas credível, tendo em conta a multidão que encheu o parque da Bela Vista.

O quarto dia do evento foi o que mobilizou mais crianças por metro quadrado, e foi também o dia em que mais fotos foram tiradas junto à fonte na entrada principal e junto às letras, e respetivo #, onde se lê Rock in Rio. "Estamos na época das partilhas", notou Roberta Medina. "A gente tem de saber ver e tirar proveito", disse a gestora, anteontem, em declarações ao DN. Tornou-se ritual: chegar, fazer pose e boquinhas, tirar uma selfie, solitária ou em grupo.

As letras estão em local privilegiado, alto e sem perigo de afetar a visibilidade dos concertos. Foi lá que o DN descobriu Paula Dueñas, Laura Losada e Salomé Madrid, três colombianas a fazer mestrado em Barcelona que vieram de propósito a Lisboa para ver uma das bandas em cartaz. Qual? Os tops pretos com as palavras "Yes, please", denunciam-nas. Trata-se de uma parte da canção Sugar dos Maroon 5 e foi por Adam Levine e a sua banda que apanharam o avião. Tinham chegado ontem de manhã e vão ficar três dias. "Saber que eles vinham foi o detonante [para conhecer Lisboa]", diz Paula Dueñas.

É o nome mais mencionado no vox pop do DN pelo recinto e, desde logo por Mariana e pelos pais, Luísa e Jorge Coelho, que vieram do Brasil. Para ela, criança, era uma estreia ("muito legau", mas os pais têm vários RiR no currículo, entre eles, o primeiro, em 1986. "O ambiente é muito mais tranquilo, é mais fácil para chegar", disseram ao DN, enquanto esperavam por um lugar na roda gigante, uma das melhores vistas do festival e um dos locais mais frequentados, junto ao Palco Vodafone. Tinham mais 50 pessoa à frente e nenhuma intenção de desistir.

Duas horas e meia de espera, foi o que esperou um casal de Barcelos por dois sofás cheios de uma das marcas que mais gritam a sua presença no parque da Bela Vista. Eram o rosto da vitória, uma vez superada a prova. De longe, e a partir da colina, a fila era uma lagarta encaracolada de muitos metros. Tinham entrado poucos minutos antes no recinto e a viagem começou "às 5 da manhã". No caso de Carlos Araújo e de Glória Pedrosa, o cartaz não era a única fonte de atração. Preferem falar do "espaço e da experiência".

As portas abriram, como de costume (e como acontecerá hoje, derradeiro dia do festival), às 16.00, e muitos quiseram ser os primeiros, mas a maior enchente aconteceu cerca das 18.45. Às 19.00, o Palco Mundo arrancava com mais uma sessão de Rock in Rio - o Musical, o espetáculo com o ator português Isaac Alfaiate, que assinala os 30 anos deste evento nascido no Rio de Janeiro (onde a próxima edição acontece em setembro do próximo ano). Seguiram-se os D.A.M.A. que assim que se estrearam na qualidade de artistas depois de terem passado por aqui, em outras edições, como público. Foram os primeiros a serem brindados com a chuva, algo que não estava nos planos duas horas antes do concerto quando o DN os encontrou nos camarins para uma breve conversa.

Dos Maroon 5 nem sinal. O grupo estava marcado para as 23.45 e nem eles nem a sua equipa tinham ainda chegado. "Vamos partilhar o ar com Maroon 5", dizia, divertido, Francisco Pereira dos D.A.M.A., ao lado de Miguel Cristovinho, e sem Miguel Coimbra (a fazer uma massagem) e com Gabriel o Pensador a descansar após o sound check. "Uma das nossas exigências foi não nos encontrarmos com ele, se virem ele está numa zona reservada. Porquê? Porque nós pedimos!", brinca Francisco. "O Adam é muito intenso. Farta-se de ligar", continuam. Também ainda não se tinham cruzado com Ivete Sangalo, a cantora, que, segundo Miguel Cristovinho, as suas amigas realmente queriam ver. "As minhas maiores amigas de infância gostam mais de Ivete do que algum dia vão gostar de D.A.M.A.".

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