O clique entre um senegalês de sangue azul e a ex-harpista real de Gales

Um tocador de corá - instrumento do antigo império africano Mandinga - e uma tocadora de harpa. Tocam como a mão esquerda com a direita. Hoje às 21.00 na Gulbenkian

A ausência da música para apresentar o senegalês Seckou Keita e a galesa Catrin Finch, ela harpista clássica, ele tocador da corá - espécie de harpa feita de 21 ou 22 cordas em meia cabaça revestida a couro -, torna o discurso quase enciclopédico. Por exemplo: o álbum dos dois, Clychau Dibon (2013), que hoje apresentam no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

Clychau é palavra galesa para "sinos", Dibon é aquele pássaro que pode ser avistado em torno nas margens guineenses do rio Níger e é reconhecido pelo seu chilrear. Pelo tom mais grave em que - naquela espécie de pássaros monogâmicos até ao fim da vida - o macho chama a fêmea, que responde num mais agudo. Som de tal forma singular que foi passando para as canções de caça e de trabalho dos homens naquela região. Dibon deu nome à segunda corda da corá, que remonta ao antigo império Mandinga, a que pertencia aquela zona, tal como o Senegal de Seckou.

Ele, que nasceu em Ziguinchor, perto do rio Casamansa, vem de uma casta com pelo menos 700 anos: é griot pela família da mãe, os Chissoko, contadores de histórias, vozes de poemas épicos e tocadores de corás. Pelo pai, pertence à família real dos Keita, descendentes do fundador do império Mandinga, Sundiata Keita. O que é dizer que, se o sangue real fosse de facto azul, aquele seria do mais azul que já foi visto. Ela nasceu em Aberystwyth, Oeste do País de Gales.

Menina prodígio da harpa, instrumento que dedilhou pela primeira vez aos seis anos, foi escolhida por Carlos, o Príncipe de Gales como harpista real entre 2000 e 2004. Formação clássica do londrino Royal College of Music, poderíamos ir ouvi-la a tocar as Variações de Goldberg, de Bach. Mas não. Vamos ouvi-la ao lado de um homem que, com o polegar esquerdo faz o baixo, com o direito a melodia, e com os dois indicadores improvisa ao longo das 22 cordas do instrumento.

O que tem tudo isto de extraordinário? Talvez nada mais do que a própria Finch aponta: ser "apenas é o que é." Mas isso que aquela música é contem o antigo império Mandinga e a África Ocidental que hoje conhecemos, contem a cultura celta, a par do País de Gales.

E o extraordinário, se aqui existir, reside naquilo que Seckou, ao telefone de Bristol, onde vive, diz: "Acredito que estes dois instrumentos são harpas e quase falam a mesma língua, mesmo que venham de duas partes diferentes do mundo. Parece que os nossos antepassados comunicaram antes do nosso tempo. É quase como se nos tornássemos um canal de algo que existia antes do nosso tempo." Se algo de extraordinário houver nesta história, será, então, que eles toquem como a mão direita toca com a esquerda.

A história começa quando Seckou estava em Roma, num concerto das Nações Unidas, e recebe um telefonema a pedir que regresse a Inglaterra, onde vive desde 1999 (à exceção dos invernos, passados no Senegal).

Catrin Finch preparava-se para uma série de concertos com o grande mestre maliano da corá, Toumani Diabaté, mas este estava retido em Paris. E ela precisava de alguém com quem ensaiar. Apareceu-lhe o primeiro tocador de corá com quem tocou na vida.

Seckou, músico que, como griot que é, cresceu com o instrumento "à frente, acordava e ele estava lá". Encontrou-se com esse músico que tocava as corás construídas pelo avô enquanto os seus "amigos iam jogar à bola".

Dos concertos que Finch acabou por fazer com Diabaté em 2012, Keita participou em dois. E foi aí. "Deu-se um clique totalmente diferente entre mim e a Catrin." "Não me parece que se possa descrever o que é um clique. Conseguíamos comunicar. Porquê, não sei" conta, por sua vez, Catrin.

Ela vem da música clássica, ele não lê música. E todavia, há naquelas canções uma melancolia alegre, ou uma alegria melancólica, que torna difícil destrinçar o que vem de quem. E quem, entre os dois, cresceu com aquelas canções, ou quem, entre eles, acabou por conhecer o que elas contam.

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