"O Círculo Delaunay" e mais três novas exposições

Exposições de artistas que se refugiaram em Portugal como Sonia e Robert Delaunay, e, mais tarde, Hein Semke, a visão de Willie Doherty sobre o terrorismo do IRA e as Casas na Coleção do CAM estão a partir de hoje no Centro de Arte Moderna, em Lisboa.

O Círculo Delaunay, em torno das obras de Sonia, Robert, pintadas no período em que se refugiaram em Vila do Conde. Hein Semke, Um Alemão em Lisboa, um ex-combatente da IGuerra que se refugia em Portugal. O trabalho de Willie Doherty, da Irlanda do Norte, a propósito do terrorismo. As casas na coleção do CAM. As quatro novas exposições que inauguram hoje no Centro deArte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian foram pensadas há dois anos e "têm tanto a ver com o mundo que estamos a viver hoje", sublinhou, ontem, a diretora, Isabel Carlos, na apresentação deste programa, patente até 12 de fevereiro.

No hall e no piso 1 estão velhos conhecidos da casa. Sonia e Robert Delaunay, Amadeo Souza-Cardoso, Eduardo Viana e Almada Negreiros, os artistas que se cruzaram em Portugal quando os dois primeiros chegam a Portugal, exilados, a fugir da IGuerra Mundial. Aabrir um Marché ao Minho (Mercado no Minho), de 1916.

Ocasal chega a Lisboa em maio de 1915, vindo de Espanha, com um projeto: a Corporação Nova, que pretendia levar arte em exposições itinerantes pelo mundo. Aideia revela-se um fiasco. Une-os, porém, a Eduardo Viana e Amadeo Souza - Cardoso, que já conhecem de Paris. Chegam entusiasmados com o simultaneísmo, uma teoria cromática desenvolvida por um químico francês no final do século XIX. Instalam-se em Vila do Conde. Acasa chama-se L a Simultanée, na rua Bento de Freitas.

Os pintores deixam Portugal, mas regressam em 1916 e vão para Valença do Minho. A Misericórdia da cidade encomenda uma grande painel para o edifício do asilo Fonseca (hoje Escola Superior de Ciências Empresariais). O mural, que devia passar a azulejo, nunca chegou a ser concretizado, resta o seu estudo, trazido das reservas do Centre Pompidou -Museu de Arte Moderna, em Paris, para esta exposição. Chama-se Homenagem ao Doador e, e, como em outros trabalhos de Sonia (e de Robert) traz a vida minhota para a tela.

Éum tema que retoma em 1937 quando faz o mural Portugal para a escadaria da Exposição deArtes e Técnicas de Paris, cuja réplica foi pintada no hall do CAM. "Ganha a medalha de ouro", lembra Ana Vasconcelos, curadora da exposição. Éum trabalho que antecipa aquele que a artista (1885-1979) viria a fazerna área do design têxtil.

Do piso 1 para o -1, onde se fala de outra guerra, a Segunda. Hein Semke é o protagonista da exposição também com curadoria de Ana Vasconcelos, a partir da doação da viúva do artista, Teresa Balté. Refugiado e orfão, estreia-se em Portugal com uma escultura, hoje desaparecida, para o pátio da igreja evangélica alemã em Lisboa.

Isabel Carlos fez a curadoria da "mini-retrospetiva"do trabalho de Willie Doherty, que se tem dedicado sobretudo ao vídeo e à fotografia. Dois desses trabalhos (em slide), dos anos 90, abordam o tratamento dos media ao IRA. "Interessava-me muito na altura", disse, durante a apresentação. Quem são os seus membros? "Assassinos" ou "voluntários", dependendo da perspetiva. São estes, e outros adjetivos, que usa para os catalogar.

Na nave central do CAM, a casa é a personagem principal. "Acasa como refúgio mas também como sítio onde se passam coisas estranhas", lança Isabel Carlos, comissária da exposição em parceria com Patrícia Rosas. Com trabalhos de artistas como Vasco Araújo, Ana Vidigal, Filipa César, Cabrita Reis, Lourdes Castro e Carlos Nogueira, num total de 23 artistas.

A fuga à guerra e as posições anti-belicistas atravessam a vida de artistas estrangeiros que viveram em Portugal, como o casal Delaunay e Hein Semke, cuja obra estará em foco a partir de hoje, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

"A vida destes artistas já desaparecidos tem muito a ver com a situação que se vive atualmente no mundo, de guerra e de refugiados", comentou Isabel Carlos, diretora do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian.

"O Círculo Delaunay", que fica patente até 22 de fevereiro de 2016, tem curadoria de Ana Vasconcelos e explora o contexto criativo, surgido em torno dos artistas Robert e Sonia Delaunay, e do qual fazem parte vários artistas portugueses.

O casal viveu um curto exílio em Portugal, em Vila do Conde, de junho de 1915 a janeiro de 1917, juntando em seu redor artistas como Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Viana, José Pacheco e o pintor americano Samuel Halper.

De acordo com a curadora Ana Vasconcelos, a exposição resulta de uma investigação na troca de correspondência entre os artistas - ela de origem russa e ele francês - que está na base de várias revelações, como a encomenda de uma pintura mural para ser realizada em azulejo, na fachada do Asilo Fonseca, em Valença do Minho.

"O casal de artistas parece ter sido atraído pelo surgimento da revista Orpheu em Portugal", apontou Ana Vasconcelos, sobre a escolha de Portugal na sequência da eclosão da primeira Guerra Mundial.

Sonia e Robert ficaram fascinados pela região minhota, e a sua pintura foi bastante influenciada pela cultura popular, as cores dos lenços minhotos e, segundo a curadora, aprofundaram as pesquisas sobre o 'Simultaneismo', que cruza determinadas cores para provocar efeitos na perceção.

"Para Robert [Delauney] poder pintar, Sonia viria a criar ateliês de vestuário e de decoração em Paris e em Madrid, que serviram para sustentar o casal, mas também foi um trabalho pioneiro na área do design", apontou.

Nesta exposição foi reunida uma centena de obras do casal e dos artistas portugueses do seu círculo: meia centena é da coleção do CAM, e as restantes foram cedidas por museus e coleções particulares de França, Espanha, Reino Unido e uma do Museu Metropolitan de Nova Iorque.

"É realmente fantástico que a região do Minho tenha sido lugar de residência destes artistas vanguardistas naquela época", apontou a curadora, acrescentando que a Corporation Nouvelle foi uma iniciativa deles, para a internacionalização de artistas.

Outro artista que se refugiu em Portugal, mas ao contrário dos Delaunay, fixou residência até ao fim da vida, aos 96 anos, foi Hein Semke (1899-1995).

"Hein Semke. Um Alemão em Lisboa", exposição com a mesma curadora e patente no mesmo período que a dedicada ao casal Delaunay, vai apresentar aspetos pouco conhecidos da produção artística, e atualizar o conhecimento sobre a obra e o contexto criativo.

Artista quase autodidata - que visitou Portugal em 1929 e que aqui se radicou, nos anos 1930, com a ascensão nazi na Alemanha - a sua vasta atividade artística abarca várias linguagens, da escultura à gravura, pintura, colagens, tendo produzido 34 livros de artista entre 1958 e 1986.

A exposição incide sobre as obras de arte que integraram a doação feita ao CAM, em 2013, pela família, e os livros de artista entretanto doados à Biblioteca de Arte da Fundação.

Semke foi alvo de uma retrospetiva, no Museu do Chiado e na Fundação Arpad Szénes - Vieira da Silva, na passagem dos dez anos da sua morte, em 2005.

"Willie Doherty. Uma e Outra Vez", com curadoria da diretora do CAM, Isabel Carlos, fica patente no mesmo período no Centro de Arte Moderna (CAM), mostrando, com caráter ontológico, sobretudo o trabalho mais recente do artista nascido em Derry, em 1959, e duas vezes selecionado para o Prémio Turner (1994 e 2003).

Willie Doherty trabalha sobretudo com vídeo e fotografia e, segundo a Gulbenkian, o seu universo é singular, dominado pela tensão entre indivíduo e sociedade e entre natureza e espaço urbano.

Hoje também é inaugurada a exposição "As Casas na Coleção do CAM", que fica patente até 31 de outubro de 2016, com curadoria de Isabel Carlos e Patrícia Rosas Prior.

A mostra parte da coleção do CAM e reúne obras que relacionam arte e arquitetura, o corpo e a casa, e percorre o século XX, com trabalhos de escultura, pintura, vídeo, fotografia e instalação de artistas como Ana Vieira, José Pedro Croft ou a britânica Rachel Whiteread.

Inclui também obras produzidas recentemente pelo austríaco Heimo Zobernig, a quem o CAM dedicou uma exposição em 2009, o alemão Thomas Weinberger, e os protugueses Gil Heitor Cortesão e Leonor Antunes, que este ano também expôs em Nova Iorque e Berlim, entre outros artistas.

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