O bom gigante de Gales na Gulbenkian

O baixo-barítono britânico Bryn Terfel, um dos maiores do nosso tempo, apresentou-se pela primeira vez em Portugal (na Fundação Gulbenkian) na passada 4.ª feira, num concerto em que dividiu o palco com a Orquestra e o Coro Gulbenkian, cabendo a direcção a Gareth Jones, maestro muito experiente em ópera, galês como Terfel e um velho companheiro de muitas "viagens" do cantor.

O programa, de feição muito apelativa, alternava costumeiramente trechos protagonizados por Terfel com números orquestrais, estes com colaboração ou não do Coro. O repertório que Terfel trouxe era muito variado, ilustrando as várias facetas do seu repertório e terminando com dois trechos de musicais ("South Pacific" e "Fiddler on the Roof"). No que ao repertório lírico concerne, tivemos árias dos papéis titulares do "Mefistofele" de Boito, do "Falstaff" de Verdi e do "Boris Godunov" de Mussorgsky, bem como da "Valquíria" de Wagner (Cena Final/Wotan).

Do "Falstaff", cantou a ária do 1.º ato "Ehi! paggio!" (a ária da honra) e do "Mefistofele", a ária do 1.º ato "Son lo spirito che nega" (ária da negação): dois personagens diametralmente diferentes, em dois momentos também eles muito contrastantes, mas que partilham uma enorme dose de teatralidade e histrionismo. E é nesta fusão de caráter vocal com a exploração da teatralidade inerente que Bryn se revela supremo intérprete. Esses pendor e postura prolongaram-se no início da 2.ª parte, com a cena da morte de Boris, do "Godunov" - que Bryn terminou de joelhos e cabeça pendente -, aqui valorizada ainda pela pronúncia muito fidedigna do russo por parte do cantor.

meio houve a cena final da "Valquíria". Momento orquestralmente arrebatador, no qual Bryn, conquanto esforçando-se, não conseguiu atingir os mesmos cumes dos trechos acima referidos. Terfel, ainda que baixo-barítono, pende de mais para o barítono para conseguir ser um Wotan verdadeiramente convincente: este papel não é para baixos, apenas, mas sobretudo para baixos cuja tessitura abrange a região baritonal. E depois, esta Cena Final não pede teatralidade ou histrionismo, com que Bryn pudesse "compensar", mas apenas uma postura digna, grandiloquente, quase solene (se bem que passível de algum distanciamento irónico, mas este é difícil de "passar" num concerto enquanto trecho isolado) do início ao fim da sua longa intervenção. E aí só em breves lampejos Bryn mostrou o timbre e a projeção (desse timbre) que "aquele" Wotan exige.

Excelentes foram as intervenções do Coro Gulbenkian, quer no "Coro dos Peregrinos" do "Tannhäuser", quer no "Coro dos Ciganos" do "Trovador", ou ainda no famoso "Va, pensiero" verdiano. Junto com Terfel, cantaram ainda, em tom adequadamente sentimental, "Homeward Bound", de Marta Keen.

A solo, a Orquestra tocou a Abertura do "Nabucco", aquela da "Traviata" e um trecho de "South Pacific" (este, com um material inicial interessante, mas que depois se banaliza).

Na parte final, mais ligeira, do seu recital, Bryn cantou "Some Enchanted Evening" (de "South Pacific") e o famoso "If I were a rich man" d""O violino no telhado", neste aparecendo em palco provido dos tradicionais kipá e talit dos rabinos judeus.

Em extra, Terfel interpretou uma canção de embalar do seu País de Gales natal (no gaélico original), tornada famosa pela sua utilização no filme "O Império do Sol", de Steven Spielberg.

Em suma, como poderia este concerto não ter sido um enorme sucesso?

Crítica

Concerto Bryn Terfel, com Orquestra e Coro Gulbenkian

Direção: Gareth Jones

4 de abril 2018, 21.00

Grande Auditório Fundação Gulbenkian

Lotação esgotada

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