"O assassínio do meu pai impediu-me de ser escritor durante cinco anos"

O novo romance do colombiano Héctor Abad Faciolince, "Oculta", esteve para não existir devido a uma profunda crise de fé na profissão de escritor, que só foi ultrapassada após ter desistido de tudo e empregar-se numa biblioteca. Ter ficado rodeado de livros obrigou-o a voltar à escrita

Héctor Abad Faciolince está desde o início do mês na Holanda numa residência para escritores, onde se sente num mosteiro, tal é o silêncio, a escrever um romance começado na Colômbia, intitulado O Centro. Diz que Portugal é o país onde mais livros seus foram publicados, daí que vir ao Correntes d"Escrita pela terceira vez seja um prazer. Um escritor que aos 17 anos parou de estudar um ano para ler os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust.

Gosta de vir ao Correntes?

Sim, muito, e tenho pena de não ficar tanto tempo como antigamente. Da primeira vez foi muito emocionante pois nunca tinha estado em Portugal.

Espera alguma coisa destas sessões?

Uma pessoa muda muito ao longo da sua vida, por isso há 15 anos parecia uma esponja que absorvia tudo o que era possível. E tinha tempo para me sentar nos cafés do Porto e ir à livraria Lello & Irmão. O triste de envelhecer é que a esponja já absorve muito menos, pois estamos mais concentrados nas nossas preocupações. É o que me acontece agora, porque estou focado no romance e só vim dois dias, para interromper ao mínimo o processo de escrita. Portanto, a condição psicológica é diferente. Não vim para conhecer colegas, ouvi-los, ver os seus livros - o que era muito mais apaixonante. Agora venho em trabalho.

Quando for a sua vez de falar quer mudar a cabeça dos espectadores?

Quero contar uma história, e elas mudam sempre o pensamento das pessoas. Sem nos darmos conta, é um exercício da imaginação que nos obriga a sair de nós próprios, e isso altera as pessoas.

Não é estranho estar a falar para desconhecidos?

É, mas acredito que todas as pessoas do mundo são parecidas, pois quando olho as pessoas vejo no brilho do olhar o desejo de querer saber. Também mudei muito - de casa, de amigos, de países - e sei como tudo é efémero.

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