O artista que já foi assessor do PS e frade faz arte ao domicílio

António Colaço tem 64 anos e é artista plástico há quase 50. Diz ainda sentir o "estigma de assessor" da bancada socialista e lançou-se agora numa nova aventura: Ânimo - Arte ao Domicílio. Dêem-lhe "tralha", ele transforma-a em obras de arte

António Colaço é artista plástico há quase 50 anos, aniversário que pretende comemorar em 2018. Agora decidiu transformar a sua garagem, no Montijo, no ateliê do seu projeto Ânimo - Arte ao Domicílio. É simples. Quem tem "tralha" (expressão dele) em casa pode, através da sua página de Facebook e do email lá indicado, contactá-lo. Ele desloca-se até à dita "tralha", faz a proposta de uma obra artística que dela pode resultar e executa-a, vendendo-a depois ao proprietário da outrora "tralha".

Mas para apresentar o artista que nasceu em Gavião e cedo se mudou para Mação é preciso dizer que, colateralmente às suas obras, aconteceram muitas coisas nos seus 64 anos de vida. Jorge Lacão convidou-o um dia para ser assessor de imprensa da bancada parlamentar do Partido Socialista - os dois eram amigos de infância e os pais foram padeiros no mesmo sítio. Acabaria por ocupar o cargo durante 21 anos, até 2010, ano da reforma.

Antes disso, era depois do trabalho - "e chegava-se tarde" - que ia para a cozinha pintar e fazer as suas obras plásticas. "Eu vivo um bocado com o estigma do assessor do PS. Não tenho vergonha nenhuma do que fiz como assessor, e nunca deixei de fazer arte também, nunca deixei de fazer exposições. Agora ando a contactar aí umas catedrais do mundo da arte, porque isto é um mundo de cão", diz Colaço no seu ateliê, entre duas obras que fizeram parte da sua mostra Poderes, em 2013, na Sede Nacional do PS, no Rato.

Uma delas é a Trituradora de Toda a Dívida, feita a partir de uma varinha mágica avariada. A outra é uma balança que encontrou no lixo. Num dos lados figura ouro, que na verdade é chocolate, e no outro a Constituição portuguesa. "As pessoas são convidadas a comer porque a balança está a pender para o lado do ouro, e a constituição a ser violada", diz. Conta que nessa altura, já fora do gabinete de imprensa, se "soltava" um pouco mais. "Mas nunca deixei de dizer o que tinha de dizer", esclarece aquele que já expôs em locais como o Bar Botequim, na Associação 25 de Abril, ou o Museu Mãe d"Água.

Jaime Gama disse dele que era um "místico desterrado em ambiente político trepidante". É amigo do juiz Carlos Alexandre, com quem fundou em Abrantes a extinta revista Ânimo. Além de assessor, aconteceu-lhe também ser frade franciscano num convento do Porto onde fez "um curso clandestino de pintura por correspondência". Saiu aos 18 anos sem terminar o curso de Teologia e Filosofia e foi dar a notícia, ainda de hábito, à família do Cardeal Cerejeira, em cuja casa a sua mãe trabalhava e cujo irmão lhe pagou os estudos. O nome de António Colaço está ainda na história da rádio como o do primeiro jornalista para quem o general Eanes falou numa rádio pirata.

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