O 3.º piso do Museu de Arte Antiga tem mais um Tesouro Nacional

Quadro do século XV que o Estado comprou por 30 mil euros em leilão, a caminho da lista dos tesouros nacionais. Uma obra portuguesa rara, que está no MNAA

"É uma peça que já tratamos como cá da casa", diz satisfeito o diretor adjunto do Museu Nacional de Arte Antiga. Fala-nos do quadro Virgem com o Menino e Dois Anjos, com a porta entreaberta para ser classificado como Tesouro Nacional, após proposta da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), ontem publicada em Diário da República. "É como se já lá estivesse", diz José Alberto Seabra, lembrando a história atribulada de uma das raras obras portuguesas da segunda metade do século XVI. "Não estou eufórico mas estou muito feliz."

O quadro, óleo e têmpera sobre madeira, é atribuído ao Mestre de Santa Clara. A pintura chegou a ser dada como desaparecida. "Tinha sido vista pela última vez em 1940 neste museu e regressou para ficar com um novo estatuto que tem que ver com a sua raridade", refere. A obra surgiu num leilão do Palácio do Correio Velho, em 2015, com um valor-base de cinco mil euros. Acabou por ser comprada por 30 mil euros pela DGPC, num leilão muito disputado.

Após restauro, foi colocada há um ano na Galeria de Pintura e Escultura Portuguesas, inaugurada nessa altura, no terceiro piso do museu da Rua das Janelas Verdes. "Está na sala de pintura do século XV. Este museu tinha obras do pintor mais importante desse tempo, Nuno Gonçalves, mas não tinha nenhuma obra do Mestre de Santa Clara", diz José Alberto Seabra. "Uma sala que já de si tem uma dúzia de Tesouros Nacionais", refere. "É uma sala muito forte deste ponto de vista. Sobram-nos muito poucas obras da segunda metade do século XV, devemos ter dezenas de pinturas de norte a sul do país, as de melhor qualidade estão no MNAA, nesta sala."

No site do museu, é referido que este inclui "o maior número de obras classificadas como "tesouros nacionais"". O diretor adjunto do MNAA é cauteloso nesta contabilidade, referindo que "o património não se mede aos palmos. "Sei que o Dr. António Carvalho, do Museu de Arqueologia, contesta essa conta. Do ponto de vista quantitativo é capaz de haver mais [tesouros nacionais] lá do que aqui. Do ponto de vista da quantidade estamos em segundo lugar. Do ponto de vista histórico e simbólico, de calhar estamos à frente", refere.

Portugal tem mais de mil obras classificadas como tesouro nacional, entre pintura, escultura, ourivesaria e peças arqueológicas, todas em coleções de museus públicos. Estas obras têm medidas especiais de proteção. Virgem com o Menino e Dois Anjos terá, após a classificação, "limitações de circulação e de empréstimo", lembra o diretor adjunto do MNAA.

Um pintor misterioso

Não se sabe exatamente quem foi o Mestre de Santa Clara a quem é atribuída a autoria desta obra, assume José Alberto Seabra. O pintor é também autor do políptico de Santa Clara-a-Velha de Coimbra, datado de cerca de 1486, atualmente no Museu Nacional Machado de Castro. Segundo informa o MNAA, a pintura do seu acervo "terá sido designada por Nossa Senhora da Graça, uma das mais populares devoções nas igrejas portuguesas no final da Idade Média. (...) O quadro sofreu alterações, não sendo claro tratar-se de um tríptico ou de três fragmentos de uma única pintura. Mesmo na construção material, o painel é algo invulgar, utilizando madeiras diferentes. Pode contudo associar-se ao pintor conhecido como Mestre de Santa Clara, por um tríptico feito para este convento de Coimbra, documentando assim uma oficina talvez sediada nessa cidade."

A proposta de classificação do quadro foi ontem publicada em Diário da República e é fundamentada numa deliberação favorável da Secção de Museus, da Conservação e Restauro e do Património Imaterial do Conselho Nacional de Cultura, datada de 8 de fevereiro de 2017.

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