"O 25 de abril foi o maior dia da minha vida até então"

Entrevista ao escritor brasileiro Ruy Castro.

O jornalista, escritor e aclamado biógrafo brasileiro Ruy Castro lançou no Brasil nos últimos dias Trêfego e Peralta, seleção de textos jornalísticos de todos os géneros, da reportagem à entrevista, passando pela crónica, publicados na imprensa brasileira ao longo dos últimos 50 anos. Oportunidade para falar com o colunista do jornal Folha de S. Paulo, e muitas outras publicações, da tensa atualidade política brasileira e nomeadamente de Lula da Silva, o antigo presidente que pode até ser preso e de quem Castro é crítico. Mas também de Carmen Miranda, "a maior cantora do Brasil de todos os tempos" e de Garrincha, "talvez o maior individualista que o futebol conheceu", duas das três grandes personagens que biografou - a terceira foi Nelson Rodrigues, o Anjo Pornográfico. E ainda de Chico Buarque e Caetano Veloso, com quem travou guerra por causa das biografias não autorizadas, ou Alfredo Marceneiro, que chegou a ouvir ao vivo e a cores. Mas sobretudo sobre o 25 de Abril, que por um golpe de sorte, aconteceu quando trabalhava em Lisboa a lançar as Seleções do Reader"s Digest.

O que nos pode dizer de Trêfego e Peralta?

É um livro, digamos, sobre jornalismo. Contém entrevistas, reportagens, artigos, memória, humor - géneros que pratiquei nesses 50 anos de imprensa. A ideia era mostrar que não importa o que o jornalista sai para fazer - precisa fazer bem feito. Se um texto publicado num jornal ou revista sobreviver para publicação em livro 40 anos depois, é porque foi bem feito. Muita gente que tem lido disse que está se divertindo.

Nos últimos tempos, tem sido crítico em relação a Lula e ao PT. Qual a sua ideia da situação que Lula atravessa?

Não nos últimos tempos. Sempre fui crítico dele, assim como dos presidentes que o antecederam e sucederam, inclusive o atual. Trêfego e Peralta contém artigos ridicularizando José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, todos publicados originalmente quando eles eram presidentes. Se nos últimos anos me concentrei mais em Lula é porque ele passou 13 anos - os seus oito e os cinco de Dilma Rousseff - levando o país à falência. Mas acho que, agora, com a justiça nos seus calcanhares, ele chegou ao fim.

E qual a sua relação com ele e com o PT, chegou a ser eleitor e sente-se desiludido? Ou nunca se situou nessa área política?

Desde a redemocratização, nos anos 80, nunca votei em qualquer candidato à presidência. E não poderia me desiludir com Lula, porque nunca acreditei nele. Se me pedir alguma definição política pessoal, posso responder com uma grande frase que Millôr Fernandes me disse: "Não gosto da direita porque ela é de direita. E não gosto da esquerda porque ela é de direita". No Brasil, então...

Como era a Lisboa que conheceu nos anos 70, quando lançou as Selecções do Readers' Digest? Onde viveu e por quanto tempo?

Cheguei a Lisboa com mulher e filha no dia 3 de janeiro de 1973 - tinha 24 anos! - e fiquei até setembro ou outubro de 1975. Morei primeiro num apartamento em Campo de Ourique e, depois, numa casa em Alvalade. Outra filha nasceu em Lisboa, em 1974, e já foi registada com dupla nacionalidade. Havia então pouquíssimos brasileiros na cidade. O trabalho nas Selecções era mole, o que me deixava muito tempo para ler, percorrer livrarias e alfarrábios e flanar a pé pela cidade, subindo e descendo ladeiras. Um dos lugares que frequentava era o Pabe, então uma espécie de central dos jornalistas estrangeiros em Lisboa - dos quais, antes do 25 de abril, eu era o único brasileiro na ativa. Voltei para o Rio ao fim de quase três anos, mas nunca fiquei muito longe. E minha filha Bianca, nascida em Campo de Ourique, foi morar para Lisboa há 15 anos, casada com um português e mãe de de um maravilhoso casal - meus netos alfacinhas...

Como foi viver o 25 de Abril de 1974 in loco?

Foi talvez o maior dia da minha vida até então. Fui avisado muito cedo, antes das sete da manhã, de que algo estava acontecendo. Saí à rua, vi o movimento dos tanques na autoestrada e, dali a pouco, estava no Parque Eduardo VII quando me espetaram um cravo na lapela. Pouco depois, comprei o República, vespertino do velho socialista Raul Rego - foi o primeiro jornal a sair e trazia na primeira página um quadradão dizendo "Este jornal NÃO foi visado pela censura", no lugar do quadradinho onde até então se dizia que fora. Parecia que haviam-se passado muitas horas, mas talvez ainda não fossem 10 da manhã. Nos dias seguintes, foi emocionante ver o povo nas ruas dia e noite, cantando, marchando. Lisboa, naqueles dias, devia ser a cidade mais interessante do mundo.

Portugal parece viver um momento de aparente bonança segundo as suas crónicas. Esteve lá há pouco tempo, o que achou?

Naturalmente, não conheço a realidade portuguesa a fundo, mas, do ponto de vista de um estrangeiro, a sensação de prosperidade de Portugal é evidente. Basta ver a quantidade e qualidade de projetos em andamento de que fico sabendo.

É grande divulgador da música brasileira. Ouve alguma portuguesa?

Fui criado ouvindo toda espécie de música - de sambas, marchinhas de Carnaval, choros, big bands americanas, jazz, tangos argentinos e boleros cubanos e mexicanos, até canções francesas, valsas vienenses, polcas alemãs e... fados! Minha mãe, como todo mundo, era fã de Amália. Havia cantores portugueses que trabalhavam e viviam no Rio, como Gilda Valença e Francisco José, e eram muito populares entre nós. Em Lisboa não descansei enquanto não ouvi ao vivo o extraordinário Alfredo Marceneiro - finalmente isso aconteceu numa festa particular -, numa quinta perto de Lisboa, e ouvi-o a menos de dois metros de mim. Em Campo de Ourique, eu era vizinho do Fernando Farinha, também grande cantor. Ele tinha uma loja de roupas ou coisa assim por ali e passava o dia, elegantíssimo, sempre de pé, na porta da loja. A própria Revolução dos Cravos produziu uma banda sonora interessantíssima, inclusive com músicas de humor, como o Fado do Alcoentre.

Na polémica contra as biografias não autorizadas, que colocou Chico Buarque ou Caetano Veloso do outro lado da barricada, ficou desiludido com esses e outros músicos excecionais?

Não, não fiquei nem um pouco "desiludido" e nem mesmo surpreendido. Conheço bem esses compositores e já contava com essa atitude deles, de defesa da censura às biografias - apenas não acreditava que se atrevessem a tê-la. Mas eles são assim, omnipotentes. Como este problema foi superado pelo Supremo e as biografias não autorizadas estão agora liberadas, vamos esperar que, um dia, eles sejam assunto de biografias para valer, e não apenas de panegíricos em livro, como as dezenas que existem a respeito deles...

Portugal também entrou no seu caminho através de Carmen Miranda. Em que lugar Carmen está na história da música brasileira?

Para mim, Carmen Miranda foi a cantora mais importante do Brasil em todos os tempos. Sem ela, não teríamos o samba, a marchinha de Carnaval, o próprio Carnaval, a indústria fonográfica, a indústria radiofónica, as excursões de artistas brasileiros ao estrangeiro... Ou não os teríamos da mesma maneira. Ela começou tudo. Dos quase 300 fonogramas que gravou no Brasil de 1930 a 1940, pelo menos 50 são obras-primas. Mas, até hoje, a maior parte dos brasileiros - até mesmo os estudiosos - só conhece a Carmen que foi trabalhar em Hollywood e, para isso, teve de deixar seu lado de cantora para trás, transformando-se numa comediante e numa personalidade.

Concorda que Garrincha possa ser, até acima de Pelé, o símbolo maior do futebol brasileiro e do que ele representa no mundo - e para não o deixar esquecido outro biografado seu, pergunto-lhe que opinião tinha Nelson Rodrigues do jogador?

Não. Nunca haverá ninguém tão completo e vitorioso como Pelé. Os grandes craques de hoje, como Messi, Cristiano Ronaldo ou Neymar, apesar de extraordinários, nunca chegarão onde ele chegou no futebol. Não terão tempo. A carreira de Garrincha, infelizmente, mistura-se à sua tragédia pessoal, e isso compromete a avaliação. Mas talvez se possa dizer que Garrincha foi o maior individualista que o futebol conheceu. E aquilo que Nelson Rodrigues mais admirava nele é que Garrincha "não pensava", dizia Nelson - sua genialidade com os pés dispensava essa intermediação lenta e precária -, que era o pensamento. O Brasil foi apenas privilegiado por ter, ao mesmo tempo, de 1958 a 1962, um Pelé e um Garrincha - com os dois juntos em campo, a seleção brasileira nunca foi derrotada, sabia?

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