Nuno Costa Santos: "Há várias formas de se ser açoriano"

Chegou o número dois da Grotta, a "revista-livro" açoriana. O diretor Nuno Costa Santos encara os Açores como "lugar de encontros" e está confiante nos novos autores que germinam na revista literária que, esta semana, é lançada em Ponta Delgada

Ele é escritor e guionista mas a convocatória para esta entrevista foi como diretor da Grotta, revista literária de timbre açoriano. O segundo número é lançado esta semana em Ponta Delgada, na Solmar, uma livraria cúmplice. Nuno Costa Santos não assina nenhum artigo nesta edição, mas na primeira deixou uma ponta solta em Monóculo. Saiu para comprar um pijama (faltava-lhe a inspiração para as primeiras linhas do romance que queria escrever) e descobriu nos jornais que "Lisboa é a melhor cidade portuguesa para se viver pela terceira vez consecutiva" - soube depois, segundo um ranking da Monocle. Seguiu caminho e deu de caras com a Casa Ferrador fechada. Para sempre. Após 84 anos de atividade. Sem pijama (e sem conforto), resolveu mandar um email à Monocle: "O mundo precisa de saber do fecho do Ferrador". Ainda não recebeu resposta, mas ele não tem pressa. Não surpreende. A Grotta - o nome alude, também, a um fenómeno geológico das ilhas - é, claramente, feita com vagar, contrariando o "tempo tecnológico". Ali aportam autores de vários paradeiros, idades e sensibilidades. O arquipélago como semente e marca, de quem está e de quem não está.

O que é a Grotta - não é "apenas" uma revista de literatura açoriana pois não?

A Grotta é uma revista literária que, assumindo a sua raiz açoriana, é aberta a todas as formas literárias de várias partes do mundo, desde que passem no nosso sempre subjetivo critério de pertinência editorial e de qualidade. Não temos medo de assumir o regional e até achamos que num universo que quer ser à força toda "global" e "cosmopolita" é importante atender ao local e ao regional, sem complexos. A palavra grota, que vem da designação que nos Açores se dá às ribeiras que, a partir de certa altitude, se tornam em regos longos e fundos, no território nacional só é usada no arquipélago. Sabemos que também é usada no Brasil. Como tem um duplo t - no nosso título, sob sugestão do vulcanólogo Victor-Hugo Forjaz - remete para uma formulação arcaica do termo e para a sua origem italiana. Entre os Açores e a Itália, com passagem por todo o lado. O subtítulo é Arquipélago de Escritores, que começa por ser o arquipélago açoriano, onde há, desde tempos imemoriais, muita gente que escreve e publica, mas acaba por se constituir como a família, espalhada por todo o lado, de escribas.

Entre os autores que colaboraram nas duas primeiras edições, há autores nascidos nos Açores. Mas outros com origens continentais. Na sua biografia diz-se "açoriano nascido em Lisboa". A Grotta vem, também, questionar o que é isso de ser açoriano?

Os Açores são um lugar de encontros muitos e penso que essa vocação marcará ainda mais o arquipélago nos próximos anos. Nesse sentido a Grotta é uma revista que alberga romeiros de todas as proveniências. Não direi que há um questionamento mas sim um aprofundamento de uma certa maneira. No primeiro número tivemos um diálogo com a Irlanda, através da edição em português de poemas de autores irlandeses contemporâneos. Neste número o diálogo mais evidente é com os escritores que escreveram sobre a cidade de Porto Alegre, que aqui é apresentada com diferentes temperaturas e vozes. No meu caso, essa nota representa um preciosismo biográfico. Os meus pais, açorianos, estavam a viver em Lisboa quando nasci. E depois voltaram à sua terra. Mas, sim, para nós ser açoriano é uma condição que não é exclusiva daqueles que nasceram no território das ilhas e que aí vivem. Há várias formas de se ser açoriano, cada vez mais evidentes num mundo de vasta circulação.

Encontramos novas e mais antigas gerações de escritores em vários registos - prosa, poesia, ensaio, fotografia, ilustração. São trabalhos, inéditos, que esperavam uma brecha para se mostrar?

Sim, são trabalhos que encontram aqui uma oportunidade. Este é um espaço que se abre e os pode acolher. A maior parte dos trabalhos é inédita. As pessoas têm escrito e ilustrado propositadamente para a Grotta. Também já publicámos trabalhos - no caso, ensaios fotográficos - que já estavam prontos antes da ideia de se fazer a revista. Foram convocados e aqui ganharam um sentido outro.

Victor Rui Dores, faz neste número uma breve resenha do "suplementarismo cultural dos Açores", em que saúda uma nova geração de autores empenhada na construção de um espaço cultural novo - geração essa "com mais imaginação que memória, gente que passa mais tempo nas redes sociais do que nas tertúlias dos cafés". Gente "que ainda não escreveu as suas obras maiores e de quem muito há ainda a esperar". Como vê esta nova geração?

Vejo esta nova geração como um grupo que tem o dever de estar à altura daquilo que as gerações anteriores fizeram: criar um corpo consistente de obras, diversas e representativas do esforço de uma época literária. Há que também retratar o que são os Açores hoje na sua multiplicidade, nos seus contrastes. Para isso é preciso trabalhar, pesquisar histórias, ir fazer investigação. E ler. É preciso desligar mais vezes o facebook para perseguir um exercício de disciplina diária na escrita - só esse é que poderá trazer resultados consistentes. A Grotta gostava de contribuir para que esse trabalho se faça de forma mais visível e com mais vozes.

Os Açores têm na sua biografia alguns nomes grandes da literatura portuguesa. Os autores que chegam são reféns ou herdeiros?

Uma mistura. São reféns quando estão demasiado presos à influência dos nomes do cânone. E herdeiros quando já se libertaram e, assumindo a herança, têm o seu sangue próprio. Depois há a questão, que deve ser considerada, de uma parte da comunidade de leitores e observadores ser um pouco dada à comparação fácil. É humano. É como querer comparar à força o neto ainda a mudar de voz ao avô que morreu com uma aura de qualidades. Nesses casos o melhor é, para quem ouve comparações escusadas, concentrar a atenção na sinfonia dos pássaros das ilhas.

Lançou em 2014 a Transeatlântico (Companhia das Ilhas). O que aconteceu a esta publicação?

A Transeatlântico ficou em pousio depois da primeira experiência. E com o descanso da Transeatlântico resolveu avançar-se com a Grotta, publicação de outro catálogo sediado nos Açores.

Em que consiste Açores Arquipélago de escritores, que acontecerá entre 26 e 28 de abril de 2018?

Sobre o evento, ainda não posso adiantar pormenores porque ainda há uma série de assuntos por definir. Mas posso dizer que será um gesto promovido pela Grotta e que, como encontro, manterá as características fundamentais do espírito da revista. Acolhimento açoriano, arquipélago de escritores, respeito pela tradição literária, comunicação com outras partes do mundo, diálogo entre artes.

Quando sairá a Grota nº 3?

No final de 2018 teremos o número 3. Até lá é questão de ir tendo ideias e ir convocando os autores para enviarem textos. Leva tempo porque a Grotta é uma revista-livro com bastante conteúdo e muitos pormenores.

A Monocle respondeu-lhe ao email sobre o encerramento da Ferrador?

Ainda não respondeu. Deve estar preocupada em fazer mais um ranking. Mas eu espero. Um antigo cliente do Ferrador não tem qualquer tipo de pressa gourmet.

O número 2 da revista Grotta vai ser lançada esta quinta-feira, dia 15 de Fevereiro, às 19.00, na Livraria SolMar, em Ponta Delgada

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