Novos rostos do humor português

Manuel Cardoso e Carlos Pereira fazem stand-up, Mariana Cabral aposta nos vídeos. Três perspetivas de uma nova geração que quer pôr os portugueses a rirem-se, com referências deste milénio, com destaque para Ricardo Araújo Pereira.

"A vida não faz sentido, e todos nós fingimos que faz. O papel da comédia é demonstrar que não faz sentido e que não faz muita diferença de qualquer maneira." Quem o disse sabe do que fala (pelo menos no que respeita ao humor): Eric Idle, um dos artistas da trupe Monty Python, os geniais avozinhos do humor nonsense. Se três humoristas servirem como amostra - Manuel Cardoso, Carlos Pereira e Mariana Cabral -, em Portugal uma nova geração ignora os autores de A Vida de Brian. As referências são do século XXI e Ricardo Araújo Pereira é um clássico.

Quando tinha 17 anos, numa fase em que "todos os dias dizia à mãe que queria ir para um curso diferente", Mariana Cabral, que achava "graça à representação", concorreu ao Conservatório de Teatro. Na audição, os nervos pregaram-lhe a clássica partida e deu-se uma "megabranca". Desse "profundo e total trauma" resultou que ainda hoje, 13 anos volvidos, não encare a hipótese de pisar um palco e fazer stand-up, apesar de ser um caso de popularidade enquanto autora de vídeos humorísticos e blogger (Bumba na Fofinha).

E como era nos tempos da escola secundária? "Não era a engraçadinha, partilhava com a Joana Marques (hoje argumentista, apresentadora de TV e radialista) a parvoíce. A Joana sempre foi mais fisgada, eu fui dar uma grande volta, perdi muito tempo para saber o que queria fazer. Tinha crises existenciais e ainda vou tendo, mas menos." Essa volta incluiu um ano em que andava de autocarro todos os dias com o Darth Vader e a Mary Poppins, quando trabalhou na Disney World de Orlando. Ou quando foi para Barcelona trabalhar na empresa de tecnologias de informação Cisco Systems. "Pagavam bem e era uma das melhores empresas para trabalhar, para quem percebe do assunto, não para quem como eu não sabe o que é um servidor. Foi lá que escrevi mais, precisava de um escape e aquilo tinha muitas personagens" nas quais se inspirou, recorda.

Mariana Cabral, Bumba na Fofinha

Depois foi parar à publicidade, onde se manteve até há poucos meses, já depois de se formar na Escola Superior de Comunicação Social. "Saltitei muito, o meu CV é uma manta de retalhos. Nos outros trabalhos não sentia nada de especial, agora sinto que me dá gosto e que as pessoas gostam e não me sai do pelo, é natural."

Aos 23 anos, Manuel Cardoso parece um veterano do ofício. Não tanto pela frondosa barba, mas porque desde os 14 que se ligou à arte de fazer rir. "A primeira vez que fiz humor foi em 2008, era adolescente e tinha um blogue. Havia um concurso das Produções Fictícias na Antena 3, o Cómicos de Graça, no qual os aspirantes enviavam um áudio para o programa de rádio, que era moderado pelo Rui Unas. Perdi na final. Ficou aí o bichinho. Era muito jovem, não tinha o foco e nessa idade é difícil fazer networking. Parei nessa altura e voltei aos 18 a investir a sério. E desde aí tenho vindo a profissionalizar-me", conta Manuel Cardoso.

Manuel Cardoso

Também Carlos Pereira, de 25 anos, parou para repensar o seu ainda curto trajeto nas lides do humor. Nasceu e cresceu em São Tomé e Príncipe até aos 15 anos. Já em Portugal, quando frequentava o 10.º ano conheceu um indivíduo chamado António Graça, que lhe achava graça. "Disse que devia experimentar fazer stand-up, mas aquilo passou-me ao lado. Vinha de uma realidade completamente diferente." Mas, entretanto, foi vendo os Gato Fedorento e escrevendo umas coisas no Facebook. Anos depois, em 2013, o mesmo Graça inscreveu-o numa noite de humor open mic. "Eu senti que lhe devia isso, tentar pelo seu esforço. Quando entrei em palco via-se na cara das pessoas que estavam a estranhar, um africano a fazer isto. Mas no final deram-me os parabéns."

Além de ser africano, fala sobre ser africano, um tema que tem sucesso entre o público, mas que cai mal nos outros comediantes. "Trouxe-me alguns dissabores, mais no que toca a colegas. Eles acham que é um bocado abusivo da minha parte, como se estivesse a fazer batota, falar da infância em África e de ser preto. As pessoas não estão habituadas a ver um preto dizer aquelas coisas e quando ouvem apegam-se mais a isso do que às outras coisas do quotidiano de que falo. Fiquei conotado como o preto que só faz piadas pelo facto de ser preto", conclui. O que lhe trouxe ainda outro grupo de poucos amigos: "Os pretos não gostam de mim. Acham que sou uma espécie de desertor, acham que há coisas confinadas para certas culturas e o humor, pelo menos stand-up, não é para pretos. Se és alto jogas basquete, se és preto gostas de kizomba. Estou a tentar não abordar tanto este tema, mas há coisas que são inevitáveis: vou falar sempre da minha mãe e se vir algo de que goste neste registo [racial] faço", afirma o homem formado em Ciência Política no ISCTE.

Carlos Pereira

Manuel Cardoso frequentou dois cursos superiores, mas desistiu para se dedicar por inteiro ao que gosta de escrever. "Gosto do quotidiano, de tendências, das coisas de que se fala, as modas, temas de geração e de ser pessoal." E a política? "Depende. Colaborei para o Sol e para o i nos últimos quatro meses, fazia três vídeos por semana sobre atualidade e incluía política. Tenho algumas dificuldades em definir o que mais gosto de fazer. Se as pessoas acabarem por ver associado a um nome vários tipos de coisa de que gostem, parece-me um caminho tão bom como focar-se só num tipo de público."

Já Mariana Seruya Cabral (como assinava os textos na revista Mundo Universitário) prefere o humor de observação. "É olhar para as coisas do quotidiano e dar um novo olhar parvo. Não há muitas mulheres a fazer isto. Há poucas mulheres a fazer vídeos parvos como eu, não tenho muita concorrência. Já o humor do quotidiano não me interessa tanto", diz a blogger, que não se define como humorista: "Não me considero humorista porque vejo os humoristas como pessoas que vivem profissionalmente e sinto que ainda não me encaixo aí. O Bumba na Fofinha começou há cinco ou seis anos quando decidi fazer um blogue para a família e amigos." Estes foram o "tubo de ensaio" que lhe deram alento para expor-se. "Foi-me fugindo ao controlo e espalhando por outras pessoas, amigos de amigos, um fenómeno contagioso, estranho, que acontece nas redes sociais, em que as coisas se vão espalhando." Foi para o Facebook e para outras plataformas e agora os seus vídeos estão no YouTube.

E quem os inspirou antes de chegarem a este ponto? Manuel Cardoso foi influenciado pelos Gato Fedorento e depois por Ricardo Araújo Pereira. Carlos Pereira também se divertiu com o grupo, mas foi ao ver Salvador Martinha em palco que se deu o clique. Mariana Cabral também refere Martinha, mas o grande exemplo de "entertainer total" é Rui Unas.

Profissionalização

Agora também na SIC Radical às sextas-feiras como apresentadora do Curto-Circuito, ao lado de outro humorista, Dário Guerreiro, e de Super Swing no Canal Q (em dupla com Guilherme Fonseca), Mariana Cabral afirma que "dá para viver q.b.": "É como ter uma pequena empresa à nossa volta, mas implica suar do bigode." Para um blogue render o segredo está (além da popularidade) em fazer parceria com marcas. "É o que tento fazer com alguma cerimónia. As marcas querem estar no digital e não sabem como chegar às pessoas e por isso tentam valer-se dos influenciadores, este nome que não dou a mim própria, mas que nos dão." Já as visualizações no YouTube, esclarece, não são um el-dorado. "Pouca gente consegue viver bem do YouTube, só seis ou sete youtubers. É preciso ter muitas, muitas, muitas visualizações para se receber uma pequenina parcela."

Longe dessa realidade está Carlos Pereira. O homem que integrou o grupo Comicalate parou para refletir sobre o caminho a tomar e experimentou as bases para um novo espetáculo no Palco Comédia do NOS Alive. Sabe que tem de apostar mais no YouTube e, enquanto procura "novas histórias, novas referências e novas abordagens", trabalha como barman no Lux.

Manuel Cardoso, que integrou a digressão Overdose de Tourette em conjunto com Diogo Batáguas, Paulo Almeida e Rui Cruz, diz que viver só da comédia "não é fácil e é uma incógnita. "É difícil perceber se dá para viver para sempre ou durante quanto tempo. Isto é uma carreira de exposição. E quando é assim nunca se sabe quando está totalmente esgotada. Hoje, num mundo em que saberes vender-te vale mais do que ter um curso ou uma especialidade, o humor pode ser um caminho, mas não é uma profissão que se recomende a ninguém. É para poucas pessoas hoje e vai continuar a ser para poucas pessoas.

Apesar de não haver "nem um livro nem uma formação específica de como se fazer piadas em palco", Manuel Cardoso elege o stand-up como a melhor forma de chegar ao público: "Não depende de meios técnicos, basta um microfone, e é a que mais recompensa." Por isso, está a preparar o seu segundo espetáculo a solo para estrear no próximo ano.

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