Nove super-heróis erguem-se da Nigéria para salvar o mundo

Os heróis da Comic Republic surgiram em 2013 para mostrar que nem todos os super-heróis são americanos

De dia, Tude Jaiye é um jovem de 25 anos, mas pode facilmente transformar-se em Guardian Prime, um super-herói que usa a força da fé e dos seus músculos delineados para lutar por uma Nigéria melhor. Marcus Chigozie é um jovem rico mas com problemas de controlo de raiva que descobre que consegue mover-se a uma velocidade supersónica e que pode usar essa capacidade para fazer o bem. Avonome é Hilda Avonemi Moses, uma mulher da remota aldeia de Etunor que tem a capacidade de ver espíritos. Estes são alguns dos heróis africanos da Comic Republic, uma empresa de Lagos, na Nigéria, que está a conquistar fãs de comics em todo o mundo com as aventuras que publica no seu site e que podem ser lidas gratuitamente.

A Comic Republic nasceu em 2013 depois de ter andado muitos anos a germinar na cabeça de Jide Martin. Em pequeno, Jide passava o tempo a desenhar e a construir histórias gráficas. "Em todo o lado, nos cadernos e até nas paredes dos quartos." Leitor ávido de banda desenhada e de histórias de super--heróis, quando precisava tomar decisões pensava: o que faria o Batman? O que faria o Super-Homem? Terá sido nessa altura que também se começou a perguntar: e porque é que não há nenhum super-herói africano?

Martin estudou Direito e acabou por criar uma empresa de consultoria em imagem. Mas isso não era suficiente para dar uso à sua criatividade. Então decidiu juntar-se ao seu amigo de infância Wale Awelenje, que, como ele, era um apaixonado pelos comics e pelos jogos vídeo mas que tinha um emprego das 09.00 às 17.00 no Banco da Nigéria, e mudar de vida. Foi assim que nasceu a Comic Central Media, que mais tarde viria a chamar-se Comic Republic. Uma terceira amiga, Eduvie Oyaide, juntou-se à equipa, para pensar todo o lado do marketing e comunicação.

É ela que explica ao DN, por e-mail, como, desde o início, as histórias que criavam "tinham como objetivo estimular a confiança dos jovens, para que eles acreditem que vão conseguir concretizar os seus maiores sonhos desde que acreditem em si próprios". O lema da Comic Republic é: "Todos podemos ser super-heróis."

Quando lhe perguntamos se sentiam que era importante ter super-heróis africanos, Eduvie contrapõe: "A questão deve ser: porque não? Precisamos de algo que nos motive." Entre os fãs, os heróis da Comic Republic são conhecidos como os "Vingadores Africanos" - numa referência ao grupo de heróis americanos que inclui Hulk, o Homem de Ferro e Thor. A comparação não lhes desagrada, diz Eduvie Oyaide: "Como todos os heróis, estes também são humanos que decidem usar os seus poderes para fazer o bem. Cada um tem um fato e os seus gadgets que lhe permitem salvar pessoas. Mas a diferença é que os nossos heróis nasceram na Nigéria, têm nomes nigerianos e travam as suas batalhas em locais que ficam na Nigéria e em África." E as histórias podem incluir causas muito particulares, como a luta contra a malária. Num país onde os jovens procuram os seus modelos na América (por exemplo, através do cinema e da música), ter um super-herói na porta ao lado de casa pode fazer a diferença.

Até agora, os autores da Comic Republic já criaram nove heróis, dos quais quatro são mulheres. As suas histórias estão publicadas em www.thecomicrepublic.com. A última aventura, publicada no mês passado, já teve mais de 25 mil downloads. Eduvie Oyaide revela que os leitores da Comic Republic têm entre 7 e 35 anos e estão na Nigéria (30%) e noutros países africanos, assim como nos EUA e no Reino Unido (metade dos downloads são feitos nestes dois países) e ainda na Espanha, no Brasil, nas Filipinas, etc. O que significa que apesar do foco local, as histórias têm potencial universal. Ou então que, tal como tem vindo a acontecer com a música e as artes plásticas, está na altura de o mundo descobrir os comics africanos. O sucesso deverá continuar a crescer e até já há negociações para que a história de Aje (que em dialeto Yoruba significa bruxa) seja transformada em filme. Mas Eduvie Oyaide sublinha que mais do que boas intenções, o importante, sempre, é "ter boas histórias", e é isso que vão continuar a fazer.

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