No interior da mente de Álvaro Siza Vieira

O arquiteto foi o primeiro orador do ciclo de conferências que acompanha a exposição Inside a Creative Mind, na Fundação Gulbenkian. E trouxe histórias.

Como é que Álvaro Siza Vieira começa um projeto? "Assustado", responde o próprio, no seu tom pausado e sotaque nortenho. Composta maioritariamente por estudantes de Arquitetura, a plateia que ontem esgotava o auditório da Gulbenkian - e as salas da Fundação onde a conferência era transmitida em ecrãs - ria quase em uníssono.

Era a primeira conferência do ciclo Inside a Creative Mind: Arquitetura Portuguesa | Criatividade e Inovação. Eduarda Lobato Faria, que conduzia a conversa com o arquiteto, perguntou-lhe "o que diria a um estudante de arquitetura". "Para estudar", responde Siza.

Mas tornemos ao princípio, ao momento em que Siza começa um projeto - como o Museu de Serralves ou o Pavilhão de Portugal para a Expo'98. "Vencer o susto é começar imediatamente a pôr hipóteses no papel, muitas vezes disparatadas."

É sempre do desenho e do esquisso que Siza começa. É a sua forma de "ver no espaço". A culpa é talvez daquele tio que - tinha ele uns seis anos - o sentava ao colo e incitava a desenhar. Um dia disse-lhe: "Assina o teu nome aqui." AJ, de Álvaro Joaquim.

Depois, é preciso dizer que um arquiteto não projeta "com total liberdade". "Nem queria, ficaria perdido, num vazio. As dificuldades num projeto são material precioso para a sua conceção. Se não houver dificuldades não há respostas." Voltamos ao desenho. A certa altura, a entrevistadora pergunta-lhe se os edifícios são "filhos obedientes". Não. "Os edifícios são filhos desobedientes."

O arquiteto, prémio Pritzker de 1992, recorda depois uma passagem de um livro em que o autor referia "a vida própria" que ganhavam as suas personagens. O mesmo acontece, dizia Siza Vieira, nos edifícios. "Os projetos em determinada altura começam também a ganhar vida própria. As soluções começam a aparecer quase por milagre." É preciso, todavia, atentar ao facto de esta ser uma "fase perigosíssima. É preciso deixar correr, mas conter, sob pena de se criar monstros."

Ainda antes de passar a palavra ao público, Lobato Faria perguntou ao arquiteto se havia alguma diferença entre conceber habitação social ou outro qualquer projeto. A resposta foi negativa. Siza Vieira recordou os tempos do Processo SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local) no pós 25 de Abril.

"Houve colegas que me disseram: 'Tu não serves para isto. Só fizeste casas para burgueses.' É por isso que é o meu campo. Quando se faz, tem de se falar com o senhor, com a sogra, com a vizinha... Não muda nada, é mais alargado, mais fecundo." A resposta de Siza veio pouco depois de este ter criticado "a ideia de hoje de que um arquiteto é um luxo, e que a arquitetura é para ricos."

Da plateia, perguntaram-lhe depois que qualidades o arquiteto deve ter. "No fundo, o arquiteto faz sempre a casa para ele. Depois tem de ter capacidade de dialogar, de perceber desejos e necessidades."

A Siza Vieira seguem-se as conferências que acompanham a exposição patente até 6 de junho na Fundação Calouste Gulbenkian até 6 de junho. A 7 de abril, com Gonçalo Byrne, a 14 de abril, com José e Nuno Mateus (ARX Portugal), a 28 de abril, com Francisco e Manuel Aires Mateus, a 12 de maio, com João Luís Carrilho da Graça, a 19 de maio, com Inês Lobo, e, a 2 de junho, com Eduardo Souto de Moura.

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