Nesta arena negra as criadas lutam pela sobrevivência

Marco Martins encena "As Criadas", de Genet: um espetáculo íntimo e visceral que estreia hoje na Sala Estúdio do Teatro D. Maria II.

Uma arena. Um ringue de box. Um tribunal. Um poço. Um palco que é um quadrado negro, praticamente vazio. Três atrizes no meio, sem conseguir escapar, numa luta pela sobrevivência. Em cima, as luzes brancas que iluminam tudo. Os espetadores em volta, olhos nos olhos. E as palavras de Genet.

"Queríamos que fosse um espaço de intimidade. Este espaço faz com que seja um espetáculo muito mais visceral", explica o encenador Marco Martins. Uma arena. Um ringue de box. Ou a cela de uma prisão, também. "Um espaço como uma tela em branco, onde tudo é produzido e fabricado pelas atrizes." Com giz branco elas desenham no chão o cenário - a cama, a cómoda, o roupeiro, o despertador da cozinha trazido para o quarto da senhora, as flores por todo o lado. "Como dois presos a recriarem o crime já realizado." E depois apagam tudo e voltam a desenhar.

Beatriz Batarda, Sara Carinhas e Luísa Cruz são as três atrizes que interpretam As Criadas, a partir do texto que Genet escreveu na prisão em 1947, inspirado na histórias das irmãs Papin, como recorda Marco Martins, "que mataram a sua patroa e a filha, esvaziando os olhos e esquartejando os corpos, e foi talvez o primeiro caso de serial killer em França, muito seguido pelos media da altura e que influenciou uma série de intelectuais na altura." Também aqui há duas irmãs criadas - Clara e Solange - e o desejo de matar a patroa.

"É um texto infinito, no sentido em que é sobre a condição humana, é metafórico. Isto não é um texto sobre duas criadas", diz o encenador. "É um texto que tem um mistério que só se descobre fazendo. É muito poético e muito negro. Essa negritude foi-se revelando nos ensaios. No início, quando começámos a trabalhar, ainda havia um certo humor, mas desapareceu." Não há espaço para o humor naquele quadrado. Há algum espaço para a música que sai dos headphones imaginários de Clara - como se fosse essa a única escapatória possível para aquelas mulheres. "Partimos da claustrofobia: duas mulheres que estão fechadas em casa, muito centradas sobre elas próprias, conhecem pouco do mundo fora da casa."Duas criadas que, todos os dias, quando a senhora se ausenta, imaginam como seria matá-la. Agora eu sou a criada, agora eu sou a senhora com pós-de-arroz na cara e vestidos bonitos. Marco Martins não vês estas encenações caseiras tanto como momentos de teatro dentro do teatro mas antes como um ritual: "Neste caso, um ritual de galvanização que permita o assassínio." Uma preparação para o crime imaginado.

"E partimos também da forma como construímos a nossa identidade, projetando-nos um no outro", explica o encenador. Solange e Clara têm uma relação visceral. São quase gémeas, têm o mesmo corte de cabelo, roupas parecidas, talvez até usem palavras semelhantes. "Têm uma relação fusional", diz Beatriz Batarda. E continua: "É uma peça sobre a exaustão do trabalho e é dessa exaustão que começa a surgir o desejo de morte daquele inflige o sofrimento. Mas o esforço físico acaba por ser mesmo real, até à nossa real exaustão. Até que a exaustão é tão grande que já não há bem limites entre um corpo e outro, e já se tocam e já se mexem sem sensibilidade. Tanto para se magoarem ou para se excitarem sexualmente. É preciso ir ainda mais longe na violentação do corpo para sentirem qualquer coisa."

As duas irmãs, tão parecidas quanto diferentes, também elas presas neste jogo de quem domina quem, acabam por perder-se no seu jogo de faz-de-conta. Uma mata, outra morre: "Até que enfim a senhora está morta. Estrangulada por luvas de lavar a loiça. Estendida no chão."

As Criadas
De Jean Genet
Encenação de Marco Martins
Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa
Até 18 de dezembro

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