Natalie Portman: "Olhava-me ao espelho e sentia-me numa outra era"

Enquanto ainda está em exibição nos cinemas portugueses Música a Música, esta quinta estreia-se Planetário. Em ambos os filmes, a presença da atriz. Conversa com um dos grandes talentos de Hollywood.

Natalie Portman em setembro passado estava com uma bela barriga de grávida. No Festival de Toronto, num restaurante amaneirado, a atriz está descalça mas muito maquilhada devido à enxurrada de red carpets. Além de Planetário, está a promover no festival Jackie, o tal filme que uns meses depois iria chegar para mais uma justíssima nomeação ao Óscar.

Portman cumprimenta o DN com um sorriso feliz. Por esta altura, já lhe chegaram aos ouvidos as críticas entusiásticas aos seus desempenhos. Natalie não é uma estrela de Hollywood como as outras. Em pleno pico da fama foi para a universidade, teve filhos e quis realizar. É uma mulher de ideias fixas e diz-nos estar muito satisfeita com o trabalho de Rebecca Zlotowski, a francesa que a dirige neste drama sobre duas irmãs (a outra irmã é Lily-Rose Depp) americanas espíritas em plena ocupação nazi em França. Um filme dentro de um filme que inclui ainda uma participação especial de Louis Garrel - e que se estreia esta semana em Portugal.

Em Planetário, a câmara está constantemente em modo de close-up com as atrizes, facto que não deixou Natalie indiferente: "tive dificuldade em ignorar a câmara em cima de mim e toda a equipa de filmagem, aliás, tenho sempre esse problema. O que faço é tentar absorver todos, sobretudo quem opera a câmara. Chego mesmo a fazer um contacto visual com o operador. Em Planetário, era o próprio diretor de fotografia quem operava a câmara e ele foi muito importante. Fez um trabalho incrível. Ao fim ao cabo, o público acaba por experienciar o seu olhar, as suas escolhas...A decisão do foco é sempre deles! Quem opera a câmara tem sempre uma grande importância! É mesmo capaz de mudar a maneira como o espetador sente o filme. De alguma forma, mudam a nossa interpretação e acabam por representar connosco. Aliás, num plateau todos estão a contracenar com os atores. Isto é uma coisa em conjunto. Às vezes, acontece magia, magia para todos. Tem a ver com sincronização e parece uma orquestra, coisa muito bela".

Cada vez mais, o "acting" de Natalie Portman está livre, dinâmico. É como se esta atriz tivesse a capacidade de se reinventar por completo. Quem a vir agora nos ecrãs como esposa infeliz de Michael Fassbender em Música a Música, de Terrence Malick, percebe que é capaz das mais vulcânicas transformações interiores. Trata-se de um dos grandes tesouros da representação no contexto de Hollywood, mas que também reclama a liberdade para vir até França filmar um filme como este ou em 2005 Freezone, de Amos Gitai, rodado na sua pátria, Israel.

Ainda em relação a Planetário, a atriz diz que o guarda-roupa e todo o cuidado visual na construção visual da personagem ajudaram imenso no seu trabalho: "olhava-me ao espelho e sentia-me numa outra era. Devo dizer que o olho da Rebecca era muito exato, ajudou e muito! Todos aqueles vestidos eram lindíssimos!".

É sabido que uma mulher grávida tem picos de felicidade. Antes do encontro, a sua agente ou publicista ia dizendo que a Natalie "está em dia muito positivo". Nesta conversa confirma-se: "é muito reconfortante estar aqui em Toronto com dois filmes que amo. Estou tão orgulhosa deles! E não me canso quando me elogiam, a sério. Sinto que é ótimo fazer parte de uma certa conexão entre os filmes e o público. No caso de Planetário é ainda mais especial pois é a primeira vez que sou filmada por uma mulher numa longa-metragem...".

A atriz que o ano passado mostrou ao mundo que também quer ser cineasta com Uma História de Amor e Trevas, baseado num romance de Amos Oz, salienta que a sua estreia nas longas atrás da câmara mudou a sua maneira de ver a indústria de cinema: "percebi que é tudo uma questão de escolhas. Dou um exemplo, na utilização da música há um infindável rol de opções: qual a música, onde a introduzimos e quando a cortamos... Depois há também que escolher todos os detalhes, do vestuário à decoração. Aprendi que tudo é muito específico. Tudo mesmo, ao ponto de ter de optar entre filtros para as lentes! Agora vejo cinema de uma maneira diferente".

Parte da piada deste Planetário é ver a simbiose entre Natalie Portman e a filha de Johnny Depp, Lily-Rose Depp, que foram a fundo no jogo de manas: "claro que me senti um pouco infeliz em obrigar a a Lily a fingir que o seu francês não era tão bom. Ela teve de fazer isso para passarmos por irmãs. Mas nós duas demo-nos muito bem, a Lily é uma delícia, tem um talento incrível e é muito excitante estar perante uma descoberta como ela. Estar a fazer cenas com ela todos os dias foi incrível, fiquei eletrizada com o seu talento. Fiquei com aquela sensação de privilégio de ser a primeira a vê-la antes de o mundo a descobrir", conta Natalie. Na verdade, Lily-Rose já tinha feito outros filmes, mas este é o primeiro com relevo internacional (em A Dançarina, de Stéphanie Di Giusto, feito a seguir, tinha um papel menor).

A seguir, Natalie Portman será vista em dois dos filmes mais esperados dos próximos tempos, os novos de Alex Garland e de Xavier Dolan.