"Não sou uma pessoa fascinada pelo crime"

O escritor Francisco José Viegas vai publicar na próxima semana um conjunto de cinco histórias policiais do inspetor Jaime Ramos. O novo romance chegará até ao fim do ano.

Há décadas que Francisco José Viegas se diverte a escrever livros e crónicas com o nome próprio e sob pseudónimo, escondendo-se atrás de dois protagonistas que criou para dar a conhecer a sua visão do mundo. O primeiro é Jaime Ramos, um inspetor que aperfeiçoou até conseguir emprestar-lhe uma coluna vertebral que poderia dobrar até certo ponto e colocar-lhe quanto baste o feitio que lhe convinha. O segundo, um cronista dos velhos hábitos portugueses, o tradicional doutor António Sousa Homem, através do qual vai ditando correções aos desvios morais e políticos da atual sociedade portuguesa.

O inspetor Jaime Ramos sobressai na produção literária de Viegas se houver comparação, até porque tem a obra mais vasta e traduzida (Alemanha, Brasil, Colômbia, França, Itália, Sérvia e República Checa), e está a celebrar 25 anos de intensa atividade policial. Como a escrita do romance policial é residual em Portugal, talvez seja Francisco José Viegas o mais teimoso nela. Daí que o seu mais recente trabalho, A Poeira Que Cai Sobre A Terra E Outras Histórias de Jaime Ramos, um livro que chega às livrarias esta semana, esteja a criar alguma ansiedade entre os adeptos do inspetor que a partir do Porto investiga num jeito muito próprio mortes e outros crimes.

Este novo livro antecede um romance que deverá sair ainda este ano, um périplo pela nossa História, e reúne cinco textos escritos entre 2000 e 2014, que coincidem no facto de terem sempre uma personagem feminina principal: "Coincidência." Uma entrevista no ano em que o inspetor Jaime Ramos faz 25 anos de carreira literária e em que só os temas políticos foram evitados, apesar das sucessivas tentativas.

Em todas as histórias deste livro há uma mulher. Foi propositado?

Não é um livro sobre mulheres, deve-se a uma soma de coincidências. Já nos meus três primeiros livros os culpados eram mulheres. Desta vez não me tinha dado conta até isso me ter sido dito e, tal como antes, aconteceu que todas as histórias sejam feitas em redor de uma personagem feminina. Não houve intenção, até poderia dizer que é uma homenagem à mulher, mas não foi de propósito.

Jaime Ramos "está" muito pouco preocupado com crimes de colarinho branco. Contra a corrente?

Jaime Ramos é o representante de uma classe em vias de extinção, dos que gostam de um crime cometido com uma certa cerimónia.

Há muita gente a fazer-lhe a vontade em Portugal?

Como não temos estatísticas, de vez em quando descobrimos que somos o país onde há mais violência nesta ou noutra área. Houve uma altura em que se dizia que não havia crime em Portugal e, numa das críticas sobre o livro que tinha então publicado, dizia-se que no nosso país nunca houve e nunca haveria literatura policial porque o crime inexistia. Só que uma semana depois do lançamento há os acontecimentos do Mea Culpa, em Amarante, e de repente apercebemo-nos que a vida em Portugal não é só melros nas oliveiras e a Blimunda a subir aos céus. Pessoalmente, não sou uma pessoa fascinada pelo crime, mas sim pela biografia do próprio Jaime Ramos e das personagens com que se encontra. Como os detetives e polícias, que são pessoas excecionais porque vivem uma vida que não podemos ter, muito no fio da navalha e quase do outro lado da moral.

Pode dizer-se que se estas histórias tivessem fôlego seriam romances?

A intenção era mesmo fazê-las mais curtas. Já agora aviso, não são contos. É coisa que não sei fazer, nem sou muito sensível à arte do conto, nem à moda sobre a sua superioridade. Gosto de romances grandes e nestas histórias há personagens que não cabem no conto. Reconheço que há em Tchekov coisas que são maravilhosas e que há ótimos contistas portugueses.

O Professor Marcelo seria um grande personagem de romance?

É, mas ainda lhe falta a espessura dos mandatos presidenciais... Tudo leva a crer que devem ser dois, nem estou a ver alguém que a cinco anos o desafie. Creio que é um típico presidente para dez anos.

Como vê a existência de um Ministério da Cultura, aquilo que não teve enquanto tutelou a pasta?

Vejo como uma coisa normal. O sítio é o mesmo e o João Soares é a pessoa indicada nestas circunstância. Mas sobre cultura não tenho mais nenhum comentário.

Nem sobre...

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