"Não reconheci o Bono, tanto podia ser ele como um tipo de Gondomar"

Na estreia a solo, o fundador dos GNR apresenta-se em muito boa companhia. Entre os convidados estão Adolfo Luxúria Canibal, Selma Uamusse e até José Luís Peixoto a assinar uma letra.

Qual é a razão deste disco a solo? Porquê só agora, depois de mais de três décadas a compor para os GNR?

Já devia ter saído há muito mais tempo, mas o processo de composição, produção e de convidar as pessoas certas, tal como o próprio trabalho com os GNR, acabou por atrasar este projeto. Demorou um bocadinho a arrancar, reconheço, mas acaba por surgir no tempo certo.

Quando lhe começou a surgir esta vontade de fazer algo em nome próprio e tão diferente dos GNR?

Foi há cerca de cinco anos. A ideia inicial passava por fazer algo mais instrumental, talvez com um único convidado a cantar, que já seria o Ricardo Ribeiro. Foi a primeira pessoa em quem pensei, mas outros foram surgindo de uma forma muito natural, até porque começou a parecer-me redutor fazer um álbum apenas com instrumentais.

Acabou por convidar vozes bastante diferentes entre si, como o Ricardo Ribeiro, o Adolfo Luxúria Canibal ou a Selma Uamusse, que na sua diversidade acabam por dar uma certa unidade à música, concorda?

Sem dúvida, aliás, era esse o objetivo, quase como se fosse um livro de contos em forma de disco, em que cada um dos convidados conta uma história diferente. A própria capa, com aqueles floreados, remete para esse imaginário literário dos contos de fadas. Daí também ter havido da minha parte uma grande aposta nos letristas, pessoas como José Luís Peixoto, Tiago Torres da Silva, Mário João Alves, Adolfo Luxúria Canibal e Jónatas Pires, que tive a sorte de aceitarem este desafio.

No caso do tema Enlouquece Toda a Gente, a letra é do próprio intérprete, Adolfo Luxúria Canibal. É caso único no disco. Porquê esta opção?

Porque é o Adolfo e fazia todo o sentido que fosse o próprio a escrever. Nem sequer estou a ver o Adolfo a cantar outro autor. Poderia acontecer, claro, mas assim conseguiu sentir a letra de uma forma mais intensa, que era o que se pretendia, ter ali o Adolfo como ele é realmente. Esse tema era um instrumental muito bonito, um bocadinho melancólico. A dada altura percebi que o Adolfo seria a pessoa ideal para azedar aquilo tudo [risos].

Em relação ao seu trabalho com os GNR, o que representa este disco? Um escape, um complemento ou uma necessidade?

É mais uma necessidade. Tem vida própria, não necessita dos GNR para existir. Ainda assim, algumas das coisas que fiz com os GNR, temas como Coimbra B ou Macabro, já tinham uma linguagem musical parecida com esta.

Sendo atualmente o único dos membros fundadores dos GNR, como é que o Toli desses tempos olharia para este disco?

Seria uma total surpresa. Este trabalho é o resultado de uma evolução que fiz enquanto músico e compositor, ao longo de mais de 30 anos. Há coisas boas na passagem do tempo, não é só envelhecermos. Ainda me lembro do tempo em que os bateristas nem sequer eram considerados músicos.

Mas além de bateria também toca uma série de outros instrumentos nos GNR, como teclas ou guitarra.

Sim, mas a razão não tem nada que ver com nenhum tipo de afirmação pessoal, mas antes com uma necessidade. Sempre fui baterista e compositor, mas devido à nossa formação muitas vezes tínhamos de convidar músicos para fazer as partes da guitarra, o que por vezes acabava por desvirtuar as músicas. Nunca fui um grande guitarrista, mas pelo menos não vou alterar o que lá está. Foi por um desejo nosso de regressar a um som mais característico dos GNR que fui parar à guitarra. Percebemos que os nossos fãs preferem isso a ter lá um virtuoso que nos faz parecer outra banda.

Puxando novamente o filme atrás, tudo isto seria impossível à época do início dos GNR. Como encara todas estas as mudanças na indústria musical?

Houve coisas que mudaram para melhor, como os processos de gravação, que hoje são muito mais fáceis e baratos. A Dom La Nena, por exemplo, gravou o tema dela em Paris. Mas depois há o outro lado que é o da indústria e nesse campo tudo piorou. Deixou de haver editoras e distribuidoras, como eu mais uma vez percebi com este disco, que é uma edição de autor, com o apoio da SPA. Os próprios discos tornaram-se apenas um capricho, uma espécie de cartão-de-visita para os músicos, porque já não vendem, a música é hoje consumida nas plataformas de streaming. Já a parte da comunicação está bem melhor, apesar da rapidez com que a informação circula, tornando tudo muito mais efémero, passou a ser gerida pelos músicos.

Como é que os GNR enquanto banda lidaram com todas essas mudanças?

São questões que também nos atingem, claro. Por exemplo, já há alguns anos que apenas lançamos discos em edição de autor. Tivemos de nos adaptar, tal como os taxistas terão de se adaptar à Uber. O mundo evolui e não nos podemos deixar ficar para trás. Continuamos a tocar bastante, mas temos noção de que, se a nossa música passasse nas rádios, podíamos dar muito mais concertos. É um negócio complicado esse das rádios.

Mas mesmo assim continuam a ter público...

Sim, isso temos, graças a Deus. Mas as gerações mais novas já não nos conhecem tão bem, começo a reparar nisso, especialmente em festivais.

Neste ano regressam a Vilar de Mouros, onde tocaram em 1982. Que recordações tem desse festival?

Foi tudo muito bom. Vi os U2 em cima do palco e adorei. Anos mais tarde voltei a vê-los em Alvalade e sai a meio [risos]. Conheci o Pete de Freitas, o baterista dos Echo and the Bunnymen, que tocou com uns pratos meus. Lembro-me também de que emprestei a minha bateria ao Paul Motian, um baterista americano de jazz muito conhecido. Vi a Neneh Cherry, que na altura era uma adolescente, o Sun Ra, os Stranglers... Não só vimos os concertos como convivemos com todos estes músicos nos camarins.

Hoje é impensável esse convívio com as bandas de primeira linha que vêm a Portugal...

Não tem nada que ver. Lembro-me de estar ao lado do Bono e não fazer ideia de quem ele era, apesar de na altura já conhecer e gostar bastante dos U2. Na altura não o reconheci, tanto podia ser o Bono como um tipo qualquer de Gondomar, com as calças por dentro das botas [risos].

Como foi o vosso espetáculo na altura?

Foi muito estranho. Estávamos a atravessar uma fase difícil. Fomos apenas três para palco, eu, o Rui Reininho e o Vítor Rua, e não correu assim tão bem. Tinha havido ali umas cisões e ainda estávamos a refazer-nos como banda.

Até nisso os GNR são uns sobreviventes, pelo muito que já passaram também a esse nível, de abandono de músicos ou até de processos de antigos membros, como o Vítor Rua, na altura do In Vivo...

Sim, há sempre um que aparece a dizer que é o presidente da junta. Mas isso até acaba por ser divertido. Já sou o único dos fundadores, mas o Rui entrou logo a seguir, no final de 1981, antes do Independança, por isso também pode ser considerado como tal.

Agora o futuro. O que poderá ser este Espírito a partir daqui. Já confirmou que quer fazer um segundo disco, será feito neste formato com convidados?

Sim, pretendo continuar a ter convidados, mas de certeza que vou fazer algo diferente. Até posso mudar por completo as regras e não ser só cantado em português como este foi. Já tenho algumas ideias e no meu bloco de notas também já há alguns nomes e há pessoas que, com certeza, vou repetir. O objetivo principal de um projeto como este é ser um espaço de liberdade que me permita surpreender. Se fosse para fazer igual aos GNR, não fazia sentido.

E porquê este nome, Espírito, e não apenas Toli?

Tem que ver com o que me vai na alma e também com uma pergunta que me foi feita de forma recorrente enquanto estava a fazer o disco: "Mas qual é o espírito disto"? E Espírito ficou, porque também era um nome que deixava tudo em aberto.

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