"Não conseguimos sempre fazer bons filmes"

O realizador inglês Hugh Hudson é um apaixonado por Portugal. O homem que deu ao mundo o vencedor dos Óscares Momentos de Glória é o convidado especial do Cinecoa, que hoje termina.

Depois de fazer Altamira (estreado recentemente em Portugal e prestes a chegar ao home cinema), sobre as pinturas rupestres das Grutas de Altamira, está num festival numa região que tem o maior museu ao ar livre do Paleolítico do mundo. Como foi o seu encontro com estas gravuras rupestres?

Fiquei fascinado! É muito inspirador. Como artista, fiquei inspirado. Atenção, considero-me artista, mas estou num meio em que arte e comércio estão de mãos dadas... e isso é sempre complicado. Não, mas a sério, é incrível poder ver de perto estas pinturas com mais de 20 mil anos. Claro que é arte, mas também é instinto e comunicação. Trata-se da prova de que a natureza do homem passa por criar arte. Creio que todas as pessoas deveriam visitar este parque arqueológico. Concordo com Picasso quando disse que após as primeiras pinturas tudo a seguir é decadência. E estas gravuras são mais antigas do que as de Altamira, mas também penso que tudo está ligado.

No seu cinema há uma tendência para explorar personagens com uma certa inocência. Em Altamira, a personagem de Antonio Banderas defende a importância das pinturas com uma veemente inocência.

E é atacado pelos homens da ciência e da religião. Sabe, de alguma forma identifico-me com ele, pois também fui atacado em 1985 quando apresentei Revolução, que é um bom filme. Ninguém gostou de Revolução na altura, sofri imenso e o próprio Al Pacino também foi prejudicado com o fracasso nas bilheteiras. Agora, passados muitos anos, há críticos que dizem que foi uma obra-prima. É um pouco o que se passou com Barry Lyndon, de Stanley Kubrick. Uma coisa é certa, consegui o Al Pacino no melhor momento da sua carreira. A grande verdade é que não conseguimos sempre fazer bons filmes. O cinema é uma coisa muito difícil. Temos de filmar, sim, apenas aquilo em que acreditamos. Nem imagina como é difícil. Mas não me posso queixar. Não sou um cineasta que filme muito, mas consegui fazer alguns bons filmes.

E venceu o Óscar de melhor filme com Momentos de Glória, em 1982...

Sim, todos gostaram desse filme. Tocou mesmo nas pessoas! Lembro-me que venceu o Reds, de Warren Beatty - ninguém esperava! Tínhamos um pequeno filme britânico que, de repente , tocava em todas as partes certas. Fala de um tema de que as pessoas gostam: jovens a lutar pelas suas convicções.

E depois ajudou a música de Vangelis...

Não foi só isso, apesar de a música ser muito boa. Ainda hoje as pessoas estão a ver o Momentos de Glória. E cada vez que chegam os Jogos Olímpicos tenho muita sorte: o filme é reposto!

Lembro-me de alguns críticos terem ficado irritados com o slow motion nas cenas de clímax...

Pois... mas era a única maneira de captar aquelas provas tão rápidas de atletismo. Claro que depois disso fui sempre copiado [risos].

Mas o seu melhor filme é Greystoke - A Lenda de Tarzan, O Rei da Selva.

E aí fui também produtor. Sou daqueles realizadores que sabem também produzir. Lembro-me de que foi aí que descobri a Andie MacDowell. O Sexo, Mentiras e Vídeo veio depois.

Tem algum filme seu de que não goste?

África dos Meus Sonhos (2000), que até foi a Cannes e tudo... O Vincent Pérez e a Kim Basinger não ligavam. O segredo com os atores é o casting. Mas esse é mesmo um filme de que não gosto, tem problemas... Curiosa-mente, trabalhei com grandes atores como o Colin Firth, Antonio Banderas ou o meu amigo Al Pacino. Sou bom também a encontrar rostos femininos que imprimem bem na tela. Talvez seja um dom, não sei... É importante um realizador saber ter essa capacidade.

Está com 80 anos. Quer continuar a filmar?

Sim, o exemplo de Manoel de Oliveira mostra que ainda tenho muito para filmar. Por acaso, conheci-o em Cannes - na altura, era ainda um jovem: tinha 98 anos. Estou a desenvolver um novo projeto, mas ainda não quero falar, é muito cedo. Se começar agora a falar da história de certeza que inventaria! Quero, se calhar, ser menos clássico. Na volta, começarei agora a fazer um cinema mais radical... O meu cineasta de referência é Victor Erice. O problema agora é aturar esta Inglaterra que vai sair do brexit. Estragámos tudo! Lixámos tudo, que disparate isto do brexit! Veja-se como a Europa foi boa para vocês! Têm museus como este de Foz Coa e tantas estradas. E conheço muito bem Portugal, estive em todo o lado. Só não conhecia Foz Coa. Estou muito feliz por ter vindo!

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