"Não acredito que não haja negros com qualidade suficiente para estar em lugares visíveis"

Almoço com Djaimilia Pereira de Almeida

Chegou antes da hora e está a fumar à porta do restaurante, um dos poucos peruanos de Lisboa, cujo ceviche (peixe cru marinado) lhe gabei. Traz um casaco grosso de fazenda e um cachecol largo, e não os tirará mesmo à mesa: "Tenho sempre frio." Antes de pensar no assunto, estou a tratá-la por tu, apesar de na combinação do almoço (por sms) nos termos tratado por você. No fim, à despedida, peço desculpa: não sei por que o fiz, e atendendo a um dos principais temas da conversa foi um gesto arriscado. Tratar por tu é uma forma de familiaridade que pode também pressupor desconsideração, infantilização: vi isso por exemplo em Moçambique (na atual Moçambique, não na colonial) como tique racista dos brancos em re- lação aos negros. Ela ri: "Prefiro assim, nunca sei como hei de tratar as pessoas."

Há uma coisa que não lhe disse e que só vai saber quando ler isto. Não li o livro dela, Esse Cabelo, que é o primeiro e que foi publicado em setembro, com unânime aclamação crítica. Mas li-a a ela. Desde logo no Observador, onde, depois de ter acolhido o convite de Rui Ramos - "com muitas dúvidas", confessa - se estreou como colunista em dezembro, e na revista Forma de Vida, uma publicação do departamento de literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e de cuja direção ela, 34 anos, doutorada em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa, nascida em Angola filha de dois jornalistas, uma angolana e um português, que a nomearam a partir de um livro ("Djamila é um nome bastante comum em Angola. Mas o meu tem mais uns is."), faz parte. E gostei de tudo o que li, muito. Tive a reação de êxtase que se tem ao descobrir uma nova voz, uma nova escrita e, no caso dela, uma nova forma de pensar. Comecemos por aí, pela maneira como ela pensa nos textos. A maneira como percebemos como vai pensando e como vai percebendo o que pensa à medida que escreve. E isso, que é talvez muito pouco incomum (quase toda a gente que escreve se vai percebendo enquanto escreve) é encantatoriamente sensível nos textos dela: vemos mesmo um pensamento a avançar, em questionamentos sucessivos, em avanços e recuos, numa espécie de movimento fluido, elíptico.

Desenho vários círculos no ar para explicar o que se sente ao lê-la: porque é assim, avançando circularmente, e não em linha reta, de um ponto A a um ponto B, que somos conduzidos. Ela sorri. "As pessoas fazem muito esse gesto para descrever a minha escrita. Há muitos anos alguém me disse uma frase sobre isso que nunca esqueci: "A velocidade da escrita está a par da descoberta."" Foi, concretiza, um dos elementos do júri da sua tese de mestrado. Mas, ao contrário da sensação que dá lê-la, escrever é-lhe penoso. "Fico angustiada, sofro horrivelmente. E, como não estou nas redes sociais, não faço ideia se as pessoas gostam."

E se percebem. "É preciso ter a coragem de não temer ser compreendido", escreveu ela, tão ao contrário do senso comum. Concordo: revelarmo-nos é um risco terrível; quem não temer que lhe vejam a alma não está bom da cabeça. Já temos os ceviches à frente (o meu com ají amarillo, um dos muitos tipos de malaguetas usados na comida peruana, o dela sem picante) quando lhe conto que partilhei no Facebook um dos textos de que gostei mais, "Chegar atrasada à própria pele" (Buala, janeiro de 2015), e logo vários amigos disseram ter encomendado o livro dela. Não é para menos. Djaimilia começa o texto a contar uma história: "O meu irmão branco [mais novo do que ela 14 anos] descobriu que éramos de raças diferentes, no jardim de infância, aos cinco anos. Chegou a casa de beicinho por eu nunca lho ter contado, dizendo-me "tu afinal és preta e nunca me disseste". Nunca me ocorrera dizer-lhe." Depois, confessa ter sofrido da mesma cegueira. Se cegueira é a palavra certa; talvez seja antes inconsciência - o não estar consciente de fazer parte de uma história, de uma condição: "Sem que o pudesse alguma vez prever, aconteceu-me a certa altura ter-me sido dado viver a descoberta do meu irmão a meu próprio respeito. Não sei dizer se saí do armário nesse momento. Se o seu reconhecimento da minha raça teve para o meu irmão o impacto de uma descoberta, na minha vida tal reconhecimento assemelhou-se a ver uma evidência desmascarada aos meus próprios olhos." Isto é do texto, ainda. Isto não: "Aconteceu tal e qual. E depois de ter escrito e publicado pessoas da minha família contaram-me histórias de que não me lembrava. Por exemplo de como em miúda estava a brincar com os meus primos e havia alguns que tinha visto pela primeira vez. E uma das minhas primas foi dizer à mãe, muito chateada, que um deles estava a dizer que eu era preta. Eles eram todos brancos e não tinham qualquer noção." Como ela não tinha.

"Fui criada por pessoas brancas e afastada das pessoas de Angola. Esqueci-me completamente de que não era igual àquelas pessoas. Porque ali não era uma questão." E na escola? "Na escola havia uma cena ou outra. Mas em minha casa havia um tal cuidado que cresci simplesmente a não pensar no assunto. Ao aperceber-me tarde de que tinha este aspeto de alguma maneira é como se tivesse chegado atrasada a mim mesma." Hesita: "Mas não sei explicar bem."

Faz isto muitas vezes: dizer que não sabe explicar, ou que não sabe se percebe isto ou aquilo. Ou que nunca pensou no assunto. Nunca pensou, por exemplo, se é bom ou mau que por interdição constitucional seja impossível saber quantos portugueses têm como ela esta cor de pele. Ou este cabelo - o cabelo com o qual levou tanto tempo a saber lidar e que dá o nome ao livro (que, já agora, foi recusado por várias editoras, explica, acrescentando: "E, pelo caminho, em relação a muitos textos que fiz antes recebi respostas desagradáveis, de pessoas que diziam que aquilo não lhes interessava.").

A questão é sensível e paradoxal. Trata-se, afinal, de discriminar para aferir da discriminação e combatê-la. Contar os negros portugueses para aquilatar da igualdade de oportunidades; para saber se a sua sub-representação nos lugares de visibilidade corresponde à dimensão da população; e quantos estão nas universidades, quantos nas direções de empresas, quantos estão desempregados. Djaimilia reflete. "Nunca tinha pensado nisso. Talvez se possa ter um quadradinho para autodefinição no Censo. Isso sucede em candidaturas de projetos internacionais em que um dos objetivos é ter pessoas o mais diversificadas possível. Mas numa coisa não acredito: que não haja pessoas negras com qualidade suficiente para estarem em lugares visíveis."

Precisamente, a primeira vez que uma pessoa negra chegou à frente de um ministério na história de Portugal foi em 2015. "Fiquei muito entusiasmada. Nem sequer tive uma reação racional. E não percebi logo que estava a haver uma discussão sobre o facto de haver quem frisasse que Francisca Van Dunem é a primeira negra a assumir o cargo de ministra. E quando percebi achei simplesmente absurdo. Porque havia pessoas a tratar essa ocasião como se não houvesse nada de assinalável. Ora, a minha reação mais imediata, a que tive naquela tarde e que acredito que tenha sido a de muitas pessoas, de espanto misturado com alegria, não teria lugar se assim fosse."

Suspira enquanto partilhamos a sobremesa, que se chama, precisamente, suspiro de limeña (e que é deliciosa). "Até parece que a questão da discriminação foi muito discutida em Portugal. Ou que existe uma preponderância do discurso politicamente correto. Esse é um discurso que nunca existiu cá. Mas quando se fala destas coisas aparece logo imensa gente a protestar como se o problema da discriminação estivesse superado, resolvido, e houvesse uma saturação com o politicamente correto. Até há quem fale em tentativa de vitimização. Faz-se tudo para evitar o assunto." Sorrio: esse tipo de argumentação antipoliticamente correto é típico da maioria dos colunistas do Observador. Mas, ironia, foi o Observador que quis convidar uma negra que escreve sobre ser negra (Djaimilia acabaria por só publicar três textos no jornal, por ter pouco tempo). E como isso tem faltado cá, negros a falar em lugares onde todos os oiçam - sobretudo, mas também sobre serem negros, aqui. Temos de passar por isso antes de arrumarmos o assunto e podermos, como o irmão de Djaimilia e ela própria antes de ele a interpelar sobre isso, ser cegos a essa diferença: quando ela não existir.

qosqo

› Ceviche

› Suspiro de limeña

› Chicha morada (refresco de milho roxo)

› ÁguaTotal: 37,5 euros

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Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.