Nancy Vieira: "Há dor e melancolia em muitas mornas mas não me faz chorar"

São onze canções em crioulo e uma em francês: Manhã Florida, o novo disco da cantora nascida na Guiné-Bissau que tem dupla nacionalidade - cabo-verdiana e portuguesa.

A música faz parte da vida dela desde a choradinha do violão do pai e as férias na ilha da Boavista entre canções e mergulhos na praia. Mesmo se a voz é mais segura e a atitude menos tímida, ela é a mesma menina de 19 anos que, sem saber como, ganhou um concurso de vozes africanas onde foi acompanhar um amigo. Nancy Adelaide Vieira, residente no Barreiro há mais de 20 anos, nasceu em fevereiro de 1975 na Guiné-Bissau, filha de dois fundadores do PAIGC, Henriette (secretária de Amílcar Cabral até à morte deste) e Herculano Vieira. Aos quatro meses, foi para Cabo Verde com os pais, cujos amigos a tratavam por "Independência". Acompanhou um amigo a um concurso de vozes africanas na discoteca IF, em 1995, e acabou por conquistar o primeiro prémio. Gravou cinco discos a solo e participou em trabalhos de outros artistas.

Estamos a gravar esta conversa num dia especial [26 de março] porque está a ser apresentada na Unesco a candidatura da morna a património da humanidade, pelo ministro da Cultura de Cabo Verde, Abraão Vicente.

Hoje é um grande dia e esperamos daqui a alguns meses, um ano e pouco, viver outro grande dia, o dia em que sairá o resultado que esperamos seja positivo.

Não há razões para não ser, a morna é um património da humanidade mesmo que não seja classificada como tal.

Mesmo que não seja oficial, para nós, os cabo-verdianos, e para as pessoas de todo o mundo que têm ouvido e acarinhado a morna e os seus cantadores, a morna é um património muito valioso.

Está a lançar o disco Manhã Florida, no qual tem uma parceria que me parece que é nova em disco com o Teófilo Chantre.

Em disco é. Tenho tido o privilégio, ao longo dos últimos anos, de estar com o Teófilo em palco, com outros artistas também em concertos. Fizemos há dois anos um concerto só os dois em que o Teófilo tocava violão e cantávamos os dois composições dele e não só. Foi no B.Leza, em 2015. Correu muito bem, mas não nasceu daí a ideia de convidar o Teófilo para fazer a produção do disco. É um sonho tornado realidade este disco com produção musical do Teófilo que é um músico cantor, compositor e pessoa que me inspira muito.

Eu pensei nele sempre como uma pessoa mais velha, já oiço falar dele há tanto tempo, mas tem pouco mais de 50 anos.

Ele começou muito cedo e já fez muita coisa. Se não me engano, ele faz 56 [de facto são 54] anos no dia 26 de outubro.

Ele é uma inspiração, tornou-se central da música de Cabo Verde, não é?

Tornou-se central e mais conhecido através das suas composições cantadas pela Cesária Évora, em quase todos os discos da carreira dela, e ele próprio com vários discos editados, composições belíssimas cantadas por outros artistas também. É muito respeitado e acarinhado em Paris [onde reside]. Estamos a falar do meu álbum Manhã Florida mas é inevitável estar embevecida a falar do Teófilo, porque é realmente uma grande inspiração.

Ao trabalhar com ele, sente que o apoio, as indicações que dá são diferentes do que costuma sentir numa gravação ou no palco?

Talvez sejam. É inevitável também neste ponto falar dos produtores anteriores. É delicado estar a fazer este género de comparação. O meu primeiro disco, tinha eu 19 anos [Nós Raça, 1995] foi produzido pelo José Afonso, um grande músico cabo-verdiano que é branco de cabelo liso e é confundido muitas vezes com um português, um europeu. Depois quando começa a falar ou a cantar - ele é pianista mas canta muito bem - as pessoas contam uma peripécia em que alguém dizia "afinal és preto". O José Afonso está agora em Angola. O meu segundo álbum, Segred [2004], foi produzido pelo Toy Vieira, uma coprodução com o Djim Job. O disco Lus foi editado pela HM Music, e produzido pelo Jorge Cervantes, um peruano. O quarto disco, Nô Ama [2012], pelo Nando Andrade, que também produziu muitos discos para a Cesária Évora. Posso dizer que sou abençoada e afortunada, gosto muito de todos os meus discos. O primeiro não o posso ouvir agora.

Porquê?

Tinha voz e interpretação de criança. Dizer que não posso ouvir é um exagero. Sinto-me mais confortável hoje.

A sua voz cresceu, é isso? Tornou-se mais densa, mais intensa?

Talvez. Talvez me sinta mais confortável para expressar, para abrir o que está dentro. É só isso. No primeiro disco estava muito tímida, muito nervosa, com o Zé Afonso, com o Vaiss, com o José António, com todos aqueles grandes músicos que na altura já eram veteranos.

Estava intimidada?

Intimidada no estúdio a gravar e até nos concertos que se seguiram a esse primeiro disco. Hoje estou mais à vontade, menos tímida. Não me sinto a dona do mundo e do palco mas já me sinto mais confortável.

Gravar em estúdio é diferente do palco?

É muito diferente. Gosto do trabalho de estúdio, recordo-me das gravações deste disco, muitos anos depois do anterior Nô Ama. Quando cheguei a Paris para as primeiras gravações estava muito entusiasmada mesmo. Confesso aqui que não gosto de acordar muito cedo mas acordei entusiasmada, "vou para o estúdio, vou ter com o Teófilo, estão lá o Stéphane [Caisson, responsável pela gravação e a mistura] e os músicos". O contacto com o público no palco traz outra vida, outro entusiasmo, responsabilidade também porque os olhos, as atenções, os holofotes, estão postos em nós.

Pelo que estive a ver, os seus próximos concertos são em abril, na Letónia, na Lituânia e na Rússia. Já experimentou estes palcos, estas cidades do Báltico?

Já.

E como é a receção?

É muito boa. Esta tournée de abril é a terceira que faço na Rússia. A Lituânia é a segunda vez, pela primeira vez estarei na Letónia. A receção a mim é muito boa mas acho que a receção calorosa mesmo é à música de Cabo Verde.

Estava a imaginar se começam a dançar, porque nos seus concertos é um bocado inevitável, uma pessoa a certa altura está a dançar.

Começamos de outra forma, com outro espírito, sentados. Eu prefiro audiências sentadas, os concertos começam de forma mais calma, com as mornas, vai crescendo, e depois quando eu própria já me sinto mais à vontade para tocar as coladeiras e as músicas mais dançantes, o público dança, sem dúvida. E emociona-se com as outras músicas mais calmas.

Com as mornas? Aí está, património da humanidade...

Património da humanidade que toca as pessoas mesmo não percebendo as palavras, as letras, as poesias. Daí ser património. A tocar dessa forma, a emoção a passar mesmo sem perceber o que se diz pela palavra.

Em maio tem espetáculos na Turquia, num tributo à Cesária Évora. É um tributo com mais cantores?

É com mais cantores. Estou a chegar da Alemanha, onde também aconteceu um tributo, em Bona, um concerto onde a ONU homenageou a Cesária, foi uma homenagem oficial.

Deve ter sido emocionante.

Esse concerto foi muito emocionante. Participaram - vou dizer pela ordem de atuação, para ver se não me esqueço - a Lucibela, eu, depois fiz um dueto com o Teófilo e entrou o Teófilo, o Dino Santiago, a Elida Almeida e a Lura fechou o concerto. É claro que no final nos juntámos e cantámos Sôdade e Carnaval de São Vicente, uma música muito festiva. Esteve presente Amândio Cabral, um grande compositor cabo-verdiano radicado nos Estados Unidos, em S. Francisco, há quase 50 anos. Ele é autor de muitas canções gravadas pela Cesária e não só. A primeira canção do meu novo disco, Mi Sem Bo Amor, é uma parceria do Amândio Cabral com o Vitorino Chantre.

Que é o quê ao Teófilo?

É o pai do Teófilo, são parceiros, fazem muita música juntos.

Neste disco, o Manhã Florida, que está a ser lançado e já está à venda, pelo menos em Cabo Verde.

Está à venda em todo o mundo onde são distribuídos os discos da minha editora Lusáfrica, desde o dia 23, o disco físico. Agora há outras formas de se ouvir e de se comprar discos. O plano de trabalho foi: no dia 16 de fevereiro ficou disponível o disco em pré-venda nas plataformas digitais e podia-se ouvir uma música, no dia 9 de março ficou o disco todo disponível nas plataformas digitais, e só a 23 de março o disco físico ficou disponível nas lojas.

A segunda canção chama-se Passion, de Mário Lúcio. Devo dizer Passion em espanhol?

"Paixom". Eu não perguntei isso ao Mário Lúcio, porque eu canto paixom, com o sotaque do crioulo badio que é o crioulo de Santiago, do Barlavento. Acho que devo perguntar ao Mário Lúcio o que é Passion. Pode ser passion em francês, passión em castelhano, não sei. Mas é uma paixão, é paixão mesmo.

E depois tem Les Lendemains de Carnaval, cantado em francês. Qual é esta grande ligação que há entre a música cabo-verdiana e a França? Foi em França que a Cesária se tornou mais conhecida.

Foi, e acho que essa grande abertura da música cabo-verdiana para o mundo começou de Paris, de França. Antes da Cesária, muitos outros vieram de Cabo Verde e espalharam a música de Cabo Verde pelo mundo, nomeadamente a partir de Roterdão, na Holanda. Lembro-me do Bana, do agrupamento Voz de Cabo Verde.

Isso tinha de ver também com a questão colonial, com os exilados?

Sim, mas podemos dizer que Paris foi o grande ponto de partida para esta divulgação da música de Cabo Verde. Esta letra é do Marc Estève, um conhecido compositor francês que eu ainda não encontrei pessoalmente. O poema foi musicado pelo Teófilo. Ele disse-me: "tenho esta música que é muito parecida contigo, pode ser a tua cara, diria mesmo, mas é em francês". Deixa vir em francês, eu desenrasco-me e aprendo a letra em francês.

Não é bem desenrascar-se, canta muito bem.

O verbo é se debrouiller. Je me débrouille très bien mas não sou a única. Aproveito aqui para fazer um grande elogio ao sistema de ensino cabo-verdiano. Encontra muitos cabo-verdianos da minha geração e não só a desenrascarem-se, passe o termo, muito bem em francês, porque estudámos. Este francês mais ou menos bem falado, bem pronunciado e bem cantado tem a ver com o que eu estudei em Cabo Verde.

Fiquei a pensar se era possível cantar uma canção cabo-verdiana em inglês, porque acho que nunca ouvi. Mas o francês pareceu-me mais adequado.

Pode ser. Se é possível em francês... A música soa a Cabo Verde, não sei se tem essa impressão.

Completamente. E o Mário Lúcio também tem uma canção em francês, e a Mayra Andrade também canta em francês.

Sim, a Mayra tem uma música lindíssima no primeiro disco, Comme s" il en pleuvait. A Mayra viveu alguns anos em França. Deixe-me voltar ao elogio, que eu acho importante. As pessoas podem pensar ah, a Nancy fala bem, pronuncia bem. Mas não é só a Nancy. Muitas pessoas, todas as crianças do tempo em que eu estudei em Cabo Verde, estudavam o francês, o inglês, a matemática, a físico-química... Isto é um elogio ao sistema de ensino da minha altura e acredito que hoje não seja diferente. Qualquer pessoa com acesso à escola, qualquer criança aprendia. E poderia cantar Les Lendemains de Carnaval.

Depois tem mais outra do Mário Lúcio que é o Sunha Dor.

É um trocadilho, ele adora. Eu confesso que pensei neste título da canção para dar nome ao disco, mas não pus por causa da Dor.

Não quis ter dor num título seu?

Não quis ter dor. A música de Cabo Verde tem dor nela, muita morna tem muita dor, mas eu não quis ter dor. Se fosse Sonhador, ia ficar sonhador porque eu sou um ser sonhador. O João Monge referiu-se à melancolia que se ouve na música de Cabo Verde como uma melancolia feliz.

E está de acordo?

Eu estou. Porque há dor e melancolia em muitas mornas, em muita música de Cabo Verde, mas faz-me sorrir, às vezes canto a sorrir.

É doce?

É doce, não consigo explicar por palavras. Uma vez em conversa com a Valéria Carvalho, brasileira, ela disse: "Eu quando oiço morna, quando oiço a Cesária cantando, sinto uma vontade de chorar". Disse-lhe que eu não. Eu sinto vontade de chorar quando oiço um solo de violão ou uma choradinha, que é uma maneira de tocar específica de Cabo Verde. Choradinha de um violão. Acontece-me algumas vezes e aconteceu-me na Lituânia, numa sala - no Ramybes Kulturos Centras [Palanga] onde vamos ter um concerto outra vez agora [7 de abril]. Quando o Vaiss, o meu guitarrista, começou a tocar uma morna que se chama Trás d" Horizonte, que fala de Lisboa, eu não conseguia começar. Lembrava-me a forma como o meu pai toca violão também. É a melancolia feliz que às vezes faz chorar. Não choramos só de tristeza. E faltam-me as palavras.

São emoções mais profundas, têm que ver com o passado. Coisas acumuladas?

Um passado que eu não vivi mas que encarno, sem querer.

O disco tem doze temas e só falámos de alguns. E tem um tema seu, Porto Inseguro.

Pois é. Isso é inédito.

Arriscou-se?

Arrisquei mesmo muito. O que me deu alguma segurança para editar e mostrar este tema ao mundo, às pessoas, foi o facto de o meu editor, as duas pessoas responsáveis que me ajudam a escolher os temas - estou a falar do José da Silva e do François Post, o parceiro, o sócio - foi o facto de eles terem reagido bem e gostado, porque eu acredito que eles gostem de mim, como pessoa e como cantora, mas quando têm de dizer uma coisa, quando não gostam, são bastante francos, não me fazem favores.

É bom ter pessoas assim, dá segurança.

Eu acho que isso dá muita segurança. O meu pai também faz isso. "Pensa bem, isto não esta bom". O Joe e o François gostaram, "boa, boa, bonito, faz mais". Isso do faz mais tenham calma porque eu não sei fazer música. Este Porto Inseguro, letra e música minha, saiu muito espontaneamente, resultado de um momento de inspiração.

E que porto inseguro é este?

Um amor inseguro do passado. Já passou, pronto.

Por isso é que já o pode fazer e cantar à vontade?

Essa música é antiga, tem muitos anos.

Ah, foi na altura?

Sim, foi na altura. E este repertório já está pensado há algum tempo. Mas o facto de estar esta música no disco não faz de mim uma compositora como os compositores que estão aqui, não faz de mim uma letrista nem uma poeta, esqueça isso, está bem.

Foi um acaso, não se sabe o que vai acontecer a seguir?

Pois.

Depois claro que há outros temas, do António Alves, do Cesário Duarte, do Kaká Barbosa, Eugénio Tavares...

...e do Tiolino. Gostaria muito de falar desta canção [Fé d"Um Fidju], por ser a primeira da Boavista que eu canto, a Boavista que é a ilha dos meus pais, a ilha das minhas raízes, da minha família. Gravo esta canção também para homenagear o Tiolino, para homenagear todos os músicos e compositores da Boavista, para homenagear o meu pai e a minha mãe, a minha família da Boavista.

É lá que se sente em casa?

Sinto-me em casa na Boavista, sinto-me em casa em São Vicente, sinto-me em casa em Santiago, onde cresci. Sinto-me em casa em Cabo Verde, em todas as ilhas. Sinto-me em casa no Barreiro, sinto-me em casa em Lisboa.

É uma rapariga do mundo.

Sim.

Nasceu na Guiné-Bissau quase por acaso, mas na verdade não era por acaso que os seus pais lá estavam.

Posso explicar. Nasci em 1975 na Guiné-Bissau. Já usei o termo acidente para dizer que nasci lá mas parece um bocado grave e mau. Em francês, accident é acaso, pode ser acaso também.

Podemos dizer acaso.

Nunca mais uso o outro. Os meus pais estavam lá...

Mas não estavam por acaso.

Não, eles estavam porque quiseram, porque fizeram questão de deixar as vidas confortáveis que já tinham para se juntarem a um grupo que não tinha vida fácil na Guiné-Bissau, na Guiné-Conacri, e a outros aqui em Portugal também. Para se juntarem ao movimento que deu origem ao PAIGC, o Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde.

Eles foram para lá em que ano? Muito antes da independência?

Muito antes. O primeiro contacto que o meu pai [Herculano Vieira, embaixador de Cabo Verde em Portugal em 1989] teve com a minha mãe [Henriette Vieira, secretária de Amílcar Cabral] e com o partido foi em Dacar, nos anos 1960. Havia um polo lá. E saíram em julho de 1975, quando se deu a independência. Eu nasci em fevereiro.

E foram para Cabo Verde. A Nancy não tem recordações da Guiné-Bissau, claro?

Saí da Guiné-Bissau com quatro meses, talvez a recordação de quem trocava as fraldas. E fui à Guiné uma única vez. O pouco que me recordo da Guiné - pouco em quantidade, porque estive três dias a convite da minha conterrânea que também tem ascendência cabo-verdiana, a cantora Eneida Marta, para participar num concerto dedicado às mulheres, no dia 8 de março de 2013.

Isso foi muito tempo depois de nascer. Pensei que tinha sido mais cedo.

Foi aí que pisei o solo onde o meu umbigo ficou enterrado, como eles dizem.

Sentiu alguma ligação?

A ligação que senti foi através das pessoas, foi-me proporcionada pelas pessoas, pelo carinho e pela forma como me receberam, porque elas sabiam que eu era de lá, no fundo. Receberam-me como quem recebe um filho em casa. Mas preciso voltar e preciso ir sentir essa ligação, porque é uma terra forte de gente forte, de cultura forte. Preciso. Acho que será uma mais-valia para mim.

Quando foram para Cabo Verde, para que ilha foram?

Santiago, Cidade da Praia, onde vivi dez anos.

A capital, claro. Porque os seus pais continuaram a ter atividade?

Sim. Aos dez anos mudei-me para São Vicente, vivi lá quatro anos, a minha pré-adolescência e adolescência. E depois Lisboa.

A música está sempre presente quando pensa nesses anos de Cabo Verde? É uma realidade quotidiana?

É uma realidade quotidiana de todas as pessoas, de quase todas as famílias, de todas as crianças, não da criança Nancy que se tornou agora cantora, por acaso ou não. Faz parte do quotidiano.

Como era?

Era muito bom, quando o meu pai tocava violão em casa, ou cavaquinho, ou violino, quando os meus tios e tias chegavam e tocavam, quando íamos de férias para a Boavista, onde estava grande parte da família, onde todos tocavam e a minha tia Valda cantava. Era uma cantadeira. Eu gosto de dizer cantadeira, tocador, trovador, porque hoje, que a música de Cabo Verde é mundialmente conhecida, de grandes concertos, há cantoras, cantores e músicos. Mas acho tão mais bonito, mais genuíno, falar dos tocadores, das cantadeiras como a minha tia Valda era, de mornas e não só. Acho que todas as cantoras dessa geração cantavam mornas, música brasileira, samba, boleros. A Cesária gostava muito também.

Conheceu a Cesária em São Vicente?

Conheci a Cesária em Lisboa, no Coliseu. Mas estive com ela muitos anos depois na sua casa do Mindelo. Já voltamos à Cesária mas estávamos a falar dos encontros musicais da Boavista.

Era um mergulho constante?

Sim, e havia mergulhos também porque a casa da minha família era numa rua mesmo em frente à praia de diante, eles tocavam e naqueles momentos de música vivia-se na praia também. Não era vestir o fato de banho, apanhar um saco, uma toalha, não. Era estar de fatinho de banho e ir mergulhar e voltar e comer. Isso tudo fazia parte das férias na Boavista. Mas isso na altura não me fez pensar, não me fez desejar ou sonhar ser cantora, porque as pessoas que lá estavam a tocar não eram cantores, eram pescadores, trabalhavam numa loja, um outro por acaso era ministro. Eu seria bailarina ou advogada, ou vendedora no mercado. Houve dias em que eu quis ser vendedora no mercado porque simulámos no jardim de infância um mercado. Para trabalhar, para estudar os vegetais e a fruta, essas coisas. Cada criança levava de casa frutinhas e verduras. Adorei o cestinho, adorei esse ato de representação. Já quis ser tanta coisa.

E depois tirou o curso de Sociologia em Lisboa.

Antes estive no curso de gestão de empresas, não terminei, e licenciei-me em Sociologia. Já quis ser tanta coisa, já sonhei ser tanta coisa. Mas era muito tímida, apesar de cantar e dançar muito em casa. Mas era muito tímida para sonhar enfrentar um público e ser cantora um dia.

Já ultrapassou isso?

Vou ultrapassando, hoje tenho as minhas estratégias.

Custa muito?

Custa um bocado, custa sim, mas é muito bom, então vou conseguindo.

Há aqui uma data, 23 de junho, o primeiro Festival B em Beja.

O Festival B que tem um logotipo muito bonito, um coração invertido e fica um B de Beja.

Pode falar sobre este Festival?

Este festival apresentou-me um desafio dos grandes, dos maiores da minha carreira até hoje, porque me convidaram para me casar, para casar a morna com o cante alentejano, morna e não só, outros géneros também.

Ainda não começou a experimentar?

Ainda não comecei a experimentar, comecei a ouvir. Já conhecia o cante alentejano mas não conhecia essas canções específicas. O António Caixeiro e a equipa enviaram-me as músicas que eu vou ter de aprender. Mas assusta um bocado, assusta porque essa forma de cantar é única no mundo, daí ser património.

São duas formas únicas de cantar [a que se acrescenta o Fado, outro dos temas do Festival B].

É muito difícil mas eu vou aprender. Não prometo cantar igual, porque não é isso o pretendido de mim, mas estou certa de que será um encontro muito bonito, estamos entusiasmados. O António Caixeiro tem um desafio grande também que é aprender o crioulo, porque ele vai cantar em crioulo. Eu vou um bocadinho em vantagem na questão da língua mas na música não. Vou levar os meus músicos e vamos cantar também a cappella.

Temos portanto várias datas, algumas mais longínquas porque na Rússia, na Lituânia, na Letónia e na Turquia, mas Beja mais perto.

E quero muito ter datas em Lisboa e mais em Portugal, ainda não temos mas vamos ter depois destes. Estamos a pensar num concerto de apresentação do disco.

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