Na teia do populismo

Seria saudável que as pessoas envolvidas compreendessem que ninguém discute a legitimidade do trabalho

Iniciada com O Pátio das Cantigas, a trilogia de propostas revivalistas do produtor e realizador Leonel Vieira prossegue com O Leão da Estrela (para se concluir com a estreia, em 2016, de A Canção de Lisboa). Mais ainda do que em relação ao título anterior, qualquer comparação com o original é alheia ao projeto - mesmo o enquadramento clubista e geográfico da expressão "leão da Estrela" (personagem interpretada por António Silva no filme de 1947) está posto de parte.

Não creio, infelizmente, que haja muito a acrescentar às considerações que O Pátio das Cantigas suscitava. Por um lado, desvaneceu-se qualquer ligação cinéfila ao passado da comédia no cinema português (que continua a ser mitificado para além de qualquer contextualização histórica ou cultural).

Por outro lado, se O Leão da Estrela tem a ver com alguma linguagem específica, as suas raízes estão na mais medíocre televisão que se tem produzido no nosso país, incluindo a avalanche de telenovelas e a degradação dos padrões clássicos de comédia, agora reduzidos a uma infinita banalização das matrizes herdadas da tradição do teatro de revista (precisamente a que, melhor ou pior, sustentava as comédias produzidas nas décadas de 1930/40 pela indústria montada pelo regime salazarista).

Seria saudável que as pessoas envolvidas num filme como este compreendessem que ninguém discute a legitimidade do seu trabalho. Acontece que as suas características não podem deixar de desencadear juízos de valor negativos junto daqueles que, há muitas décadas, defendem uma dinâmica audiovisual que saiba demarcar-se dos formatos mais estereotipados das televisões. No limite, reativar insultos contra a "crítica" dispensa o esforço de qualquer pensamento, apenas reforçando as misérias correntes do populismo.

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