"Na Roménia as pessoas têm o desapontamento vincado no rosto"

Entrevista ao realizador Christian Mungiu, que já foi Palma de Ouro e este ano o melhor realizador em Cannes. "O Exame" é a saga de um pai pela emigração da filha.

A sua primeira longa-metragem, Occident, é sobre a mesma ideia que perpassa O Exame: deixar o país. Por que razão regressa a ela?

Essa relação é determinante. Na altura em que fiz o Occident, pensei na imigração como um problema que estava a surgir com a queda do comunismo, e que seria temporário, dentro de 10 anos ou mais as pessoas voltariam para uma sociedade já algo mudada, e ficariam. Quando estava a começar a fazer O Exame, há dois anos, reparei que isto nunca se resolveu... Se foi fácil pensar no problema quando era mais jovem, agora não é, porque diz respeito aos nossos filhos.

Essa inversão sente-se no tom dos filmes, o primeiro é uma comédia, este é um drama.

Lá está. Ao longo destes 15 anos, acho que perdemos 10% da população, e isto é um sinal de que a nossa sociedade ainda não está madura. As pessoas estão desiludidas, apesar dos progressos que fizemos - historicamente foram grandes, mas não se vive a uma escala histórica, antes humana. Nessa escala há muitas coisas que ainda não estão bem. É por isso que O Exame fala, ao mesmo tempo, de corrupção social, mas também de escolhas pessoais e compromisso.

Parece que hoje em dia é quase impossível escapar a esse tipo de corrupção. As pessoas são-lhe muito vulneráveis, não é?

Sim, é impossível. Repare-se, o compromisso é um mecanismo social, uma forma de resolver situações práticas do dia-a-dia, numa sociedade que ainda não está firme nos seus princípios. Se sais de casa todos os dias com a ideia de que vais resolver as coisas, nem chegas ao escritório... Há uma avalanche de situações a consumirem-nos as energias. Eu filmo essas situações. Não procuro interpretar a realidade, mas sim trazê-la para o grande ecrã, onde pode significar mais. Essa é a força do cinema. Tenho muito respeito pela realidade, e é por isso que não faço cortes nas cenas: podes cortar um momento da tua vida, mesmo que seja embaraçante? Infelizmente não, tens de viver todos os miseráveis minutos desse momento.

E por isso as personagens espelham no rosto uma tristeza permanente. Depressão social?

Respondo-lhe com uma pergunta: como estão as pessoas aqui?

Também não estão muito felizes...

É o que sinto, há uma frustração que se transformou numa espécie de depressão generalizada. Mas sim, na Roménia as pessoas têm uma expressão de desapontamento mais vincada no rosto, e se lhes perguntar porquê, não sabem. Diria que vivemos mais com as nossas aspirações do que com a realidade em mente. Às vezes, ainda faço anúncios publicitários, e quando ouço falar-se de aspirações, pergunto-me "que palavra é esta?" É como se, de modo perverso, insistir em pronunciá-la indicasse que nunca a vamos alcançar.

Foi jornalista até cair o comunismo. Como se refletiu a liberdade na expressão cinematográfica?

Comecei por trabalhar na imprensa porque não podia ir para a escola de cinema, não era acessível a pessoas da classe média. Então, estudei literatura e comecei como jornalista, na ideia de que era o mais próximo do que queria fazer no futuro, contar histórias, e fazia artigos muito criativos. Antes da revolução era uma espécie de dolce far niente, tínhamos talvez oito assuntos diferentes por ano, e muito tempo para escrever. De repente, passámos a ser uma publicação semanal e, meses mais tarde, um diário. Deu-se um boom estranho, porque as pessoas davam opiniões sem informação. Artisticamente, não foi muito bom. Os filmes feitos até dez anos depois da queda do comunismo relevam a inadaptação a esta liberdade, e por isso são objetos um pouco vulgares, muito diretos, no mau sentido, as personagens fazem o próprio comentário da sociedade... Isto não é realista. O cinema que a minha geração faz para contrariar este outro.

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