Muitas novidades europeias a par de muitas reposições

No começo de 2017 chega "Luís XIV", a par de reposições de títulos de Wim Wenders, Kenji Mizoguchi ou Terry Gilliam.

Eis uma oportuna pergunta cinéfila (que é também uma dúvida sociológica): os espectadores que se guiem apenas pelos sinais mais fortes do espaço mediático conhecerão a diversidade do próprio mercado cinematográfico?

Ou de forma mais contundente: será que ainda há espectadores que confundem o ruído promocional dos blockbusters com... todo o mercado? Não se trata, entenda-se, de demonizar a produção americana. Trata-se, isso sim, de dar o devido relevo a um fenómeno que, felizmente, se tem consolidado nos últimos anos. A saber: uma qualidade de oferta que permite ao espectador atento conhecer as mais diversas cinematografias, nomeadamente do continente europeu.

Esta semana é, desde logo, sintomática. Assim, ainda antes do fim do ano, vamos poder ver os novos filmes de Emir Kusturica (Na Via Láctea), Benoît Jacquot (Até Nunca) e Alejandro Jodorowsky (Poesia sem Fim). Este último, em particular, é uma quase revelação, já que o cinema surreal do chileno Jodorowsky, autor do mítico El Topo (1970), continua a ser um ovni no circuito comercial português.

Dois grandes acontecimentos estão marcados para a segunda semana de estreias de janeiro (dia 12). O primeiro é A Morte de Luís XIV, de Albert Serra, um dos momentos altos do último Festival de Cannes, com Jean-Pierre Léaud a interpretar o Rei Sol num misto de esplendor e decadência - com produção da empresa portuguesa Rosa Filmes, o seu lançamento acontecerá em paralelo com ciclos de Léaud e Serra na Cinemateca, além de uma "exposição-performance" na Galeria Graça Brandão.

O segundo é a reposição, em cópia digital restaurada, de O Estado das Coisas (1982), filme de Wim Wenders, escrito em colaboração com Robert Kramer, produzido por Paulo Branco e rodado em cenários portugueses - como se poderá confirmar, a temática da "morte do cinema" é coisa já com várias décadas.

Na última semana de janeiro, surgirá também As Asas do Desejo (1987), filme em que Wenders contou com a colaboração do escritor e dramaturgo Peter Handke; em paralelo, será exibido A Mulher Canhota (1978), primeira realização de Handke para cinema. A redescoberta de Wenders prolongar--se-á, em abril, com um ciclo de uma dezena de reposições de filmes de sua autoria, incluindo os lendários Alice nas Cidades (1974) e Ao Correr do Tempo (1976).

Brasil, Chile & etc.

Do Brasil, chegará em março aquele que foi um dos fenómenos de culto em Cannes: Aquarius, um drama social de Kleber Mendonça Filho, centrado numa personagem interpretada por Sónia Braga.

O chileno Pablo Larraín - que será, por certo, muito falado na corrida aos Óscares por causa do seu Jackie, com Natalie Portman - voltará às salas portuguesas com Neruda, uma pouco ortodoxa abordagem biográfica de Pablo Neruda que também esteve na última edição do Festival de Cannes e, entretanto, obteve uma nomeação para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro (a atribuir a 8 de janeiro).

Ainda no capítulo das reposições, outro grande acontecimento (em formato de retrospetiva, no mês de fevereiro) será o reencontro com a obra do mestre japonês Kenji Mizoguchi. Para além de Contos da Lua Vaga (1953), por certo o mais universal dos seus títulos, ciclicamente citado nos tops dos "melhores filmes de sempre", será possível ver ou rever O Intendente Sansho (1954), Os Amantes Crucificados (1954) e A Imperatriz Yang Kwei Fei (1955).

Em qualquer caso, a diversificação das reposições é também um facto, não se esgotando nos mestres do período clássico. Assim, Brazil: O Outro Lado do Sonho (1985), de Terry Gilliam, anuncia-se também para finais de abril, a provar que todas as memórias cinéfilas podem ter lugar nas salas escuras.

Enfim, para compreendermos que deixou de haver fronteiras estanques entre os vários universos de produção, vale a pena referir que uma das grandes aventuras fantásticas previstas para o próximo verão é uma produção de raiz francesa. Chama-se Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, tem assinatura de Luc Besson e conta com um elenco liderado pela inglesa Cara Delevingne

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